"Rio tem um caminho longo para se tornar sustentável"

Por Sidney Rezende

Alexandre Motta
Alexandre Motta -
Cresce o debate no planeta sobre a importância de se respeitar o meio ambiente e, ao mesmo tempo, encontrar as melhores soluções para o desenvolvimento sustentável. Pesquisador apaixonado, Alexandre Motta, doutorando em Sustentabilidade e professor da Escola de Gestão e Políticas Públicas (EGPP) da Fundação Ceperj, apresenta bons caminhos para amenizar o caos urbano que boa parte da população da Terra já convive. Em entrevista ao jornal O Dia, Motta avalia o que falta para a cidade do Rio de Janeiro se tornar sustentável, que preocupações o futuro prefeito deve ter e lista as ações prioritárias a curto, médio e longo prazos. Seu propósito hoje é fazer o tema da sustentabilidade estar “na boca do povo”, contribuindo para que se coloque as pessoas no centro das preocupações da sociedade, pois a melhoria da qualidade de vida precisa ser um valor central e um objetivo prioritário. Ele é entusiasta da ideia de que uma cidade sustentável e verdadeiramente maravilhosa tem que ser uma cidade menos desigual, mais justa e para todos.

O que é exatamente uma cidade sustentável?
Uma cidade pode ser considerada sustentável se o seu modelo de desenvolvimento, adotado ao longo do tempo, considera, de forma integrada, os impactos sociais, econômicos, ambientais e institucionais para as gerações atuais e futuras, das decisões tomadas pelos gestores públicos, empresas privadas, pela sociedade civil organizada e por seus habitantes. E esses impactos precisam ser avaliados, sendo necessária a utilização de indicadores confiáveis para se monitorar continuamente o progresso da cidade em relação, por exemplo, ao alcance dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU, traduzidos para a escala local da cidade. Se a cidade consegue ser bem sucedida na realização desses objetivos, ela vai adquirindo um grau de sustentabilidade urbana cada vez maior. E se ela estiver indo nessa direção positiva, significa que ela está resolvendo seus principais problemas e se tornando uma cidade menos desigual, mais justa e com melhor qualidade vida para toda a população. Uma cidade sustentável precisa ser uma cidade para todos!

O que falta para o Rio ser uma cidade sustentável exemplar?

Infelizmente falta muita coisa. São muitos os desafios a serem enfrentados para uma cidade como o Rio se tornar sustentável e verdadeiramente maravilhosa. Eu destacaria pelo menos quatro grandes desafios prioritários: 1) Conhecer a realidade da cidade, diagnosticando seus problemas com base em dados, e assim permitir que os formuladores de políticas e gestores públicos tomem as decisões certas. 2) Aperfeiçoar e utilizar de maneira permanente um sistema de indicadores confiáveis para se avaliar a sustentabilidade urbana. 3) Exercer uma cidadania participativa, onde cada habitante entende os problemas da cidade, se preocupa com eles e age para ajudar a resolvê-los. 4) Mudar o padrão de consumo das pessoas, a fim de diminuir a pressão sobre os sistemas produtivos nas empresas e o ritmo de exploração de recursos naturais, reduzindo a nossa pegada ecológica. Se nos comprometermos com a busca de soluções para essas questões, já daremos um grande passo rumo a um desenvolvimento mais sustentável do Rio.

Quais os melhores exemplos brasileiros de sustentabilidade? Quais foram as práticas adotadas para se tornar uma referência?

Há um certo senso comum de que Curitiba é o melhor exemplo de sustentabilidade de uma cidade brasileira. No entanto, se pensarmos em termos do desenvolvimento sustentável como um objetivo só possível de ser alcançado se adotarmos abordagens integradoras das dimensões econômica, social, ambiental e institucional, talvez não existam bons exemplos para citar. O mais recomendável seria identificar boas práticas que diferentes cidades adotam em relação aos vários aspectos da sustentabilidade urbana e formarmos um mosaico de soluções de sucesso. Aí poderíamos citar o transporte público de Curitiba, o orçamento participativo de Porto Alegre, o abastecimento de água e saneamento básico de Niterói, entre outros exemplos.

Quais são os pontos centrais que o futuro prefeito do Rio deve se preocupar - já no primeiro ano - para ter uma cidade mais sustentável?

É sempre bom frisar que o desenvolvimento sustentável requer uma abordagem integrada. Não adianta, por exemplo, querer resolver os problemas econômicos da cidade, impactando o meio ambiente ou produzindo ainda mais desigualdade social. Isso torna o desafio da sustentabilidade mais complexo. Mas seria possível criar uma lista de ações prioritárias e realistas para guiar a futura gestão municipal no primeiro ano (curto prazo), e também no médio e longo prazo: Curto prazo – saúde, coleta de lixo, tratamento de resíduos, limpeza urbana, transporte público, trânsito, desperdício de alimentos, pobreza extrema, miséria e fome. Médio prazo – ocupação de áreas de risco, uso do solo, educação, violência, desemprego e qualidade do ar. Longo prazo – abastecimento de água, saneamento básico, balneabilidade das praias, rios e lagoas e desigualdade social. Todos esses temas não estão bem equacionados no Rio. E, para resolvê-los, é preciso ter um gestor público que arregace as mangas e vá para as ruas ver como a cidade funciona no cotidiano das pessoas, especialmente as mais vulneráveis.

Quais desafios pós-pandemia para a pauta de sustentabilidade urbana?

Acho que a pauta é a mesma do período anterior à pandemia, pois os nossos principais problemas são estruturais e não conjunturais. Claro que algumas questões se tornaram emergenciais e requerem ainda mais atenção, como desemprego, pobreza, miséria e fome, problemas sociais graves, mas não se pode perder a visão da cidade como um todo ao se pensar nas soluções que serão implementadas.

Qual impacto que o estilo de consumo causa ao planeta?

Os padrões atuais de consumo são insustentáveis, pois pressionam enormemente os sistemas produtivos nas empresas e a exploração de recursos naturais, impactando os ecossistemas naturais e urbanos de tal forma que acabam por provocar danos à qualidade de vida das pessoas. E essa realidade fica ainda mais evidente em grandes cidades como o Rio. É preciso combater a cultura do desperdício, valorizar a reutilização e o reaproveitamento de produtos, promover a educação para a sustentabilidade, disseminar o conhecimento sobre os impactos negativos sobre o meio ambiente do descarte de embalagens plásticas, por exemplo, que emporcalham nossos rios, praias e lagoas, e oferecer estímulos para que as pessoas consigam perceber que essa orgia consumista atual não nos ajuda a construir uma cidade sustentável.

O nível de consciência do cidadão brasileiro é considerado baixo no que concerne ao respeito ao meio ambiente. Por quê?

Creio que existem várias explicações que se somam. Faltam iniciativas consistentes de educação para a sustentabilidade nas escolas e universidades. Faltam fóruns mais amplos e de maior alcance para se discutir os vários temas da sustentabilidade, incluindo as questões ambientais. E falta ainda maior envolvimento da imprensa na discussão sistemática desses temas em suas várias plataformas. A combinação desses fatores dificulta o processo de formação da opinião pública, o que acaba por provocar um nível muito baixo de exercício de uma cidadania mais participativa do brasileiro, inclusive os habitantes do Rio.

Quais são os deveres do cidadão para tornar sua cidade mais sustentável e como ele pode fiscalizar o gestor público nesse sentido?
Se envolver da forma que estiver ao seu alcance na discussão dos temas que afetam o cotidiano da cidade. Participando das reuniões de condomínio ou da associação de moradores do bairro, disseminando conhecimento nas redes sociais, colocando a mão na massa em atividades voluntárias colaborativas, dando o exemplo em manter a cidade limpa e organizada, entre várias outras ações que podem ser colocadas em prática no dia a dia. E muito importante: elegendo um prefeito e vereadores que tenham compromisso efetivo com a causa do desenvolvimento sustentável e da sustentabilidade urbana do Rio, e ficando de olhos bem abertos para acompanhar os projetos e iniciativas que estão sendo desenvolvidos e implementados na cidade.

O senhor tem uma visão mais otimista ou pessimista para daqui a 10 anos? O Rio, em 2030, terá evoluído bem na questão da sustentabilidade urbana?

Tendo a ser um otimista realista. Em 2030, certamente teremos avançado em relação a algumas das metas dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Mas acredito que alguns problemas críticos da cidade do Rio ainda não terão sido resolvidos. O Rio ainda tem um caminho muito longo para se tornar uma cidade sustentável. Uma cidade que seja para todos e que se possa chamar de verdade de cidade maravilhosa.  

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Alexandre Motta Divulgação
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