Por O Dia
Publicado 05/06/2020 18:15 | Atualizado 05/06/2020 18:16
A morte do norte-americano George Floyd por um policial em Minneapolis, nos EUA, despertou revolta de milhões de pessoas ao redor do mundo.

É brutal a imagem de Floyd, um homem negro, já imobilizado, com as mãos nas costas e o rosto amassado no asfalto, com o joelho do policial branco imprensando seu pescoço. É ainda mais brutal ao ouvirmos Floyd implorando pela própria vida e sussurrando "I can't breathe" (Não consigo respirar).

Durante longos 8 minutos e 46 segundos, Floyd repetiu a frase cinco vezes. Em vão. O policial manteve seu joelho apertando o pescoço de Floyd mesmo com ele já desacordado.

É ainda mais chocante que tudo isso tenha sido feito em público, diante de diversas pessoas, algumas com celulares ligados registrando a cena. Se agentes públicos se sentem à vontade para proceder dessa forma, nessas condições, é lícito suspeitar do comportamento longe do olhar da sociedade.

Mas, a despeito da gravidade absurda do crime cometido, e da comoção gerada, é importante salientar que esse tipo de crime também ocorre no Brasil, com episódios mais frequentes e, muitas vezes, mais bárbaros.

Devemos olhar para o Brasil e para o Rio, onde vidas negras parecem importar ainda menos.

Basta lembrar do caso do menino João Pedro, de 14 anos, assassinado dentro de casa em uma operação policial, há duas semanas abordado em uma coluna aqui nesses espaço. Já tratei do tema do racismo em outras ocasiões. E irei fazê-lo quantas vezes forem necessárias. O silêncio não é uma opção em casos assim.

Infelizmente, o assassinato de João Pedro não é um episódio isolado. No ano passado, a polícia brasileira matou 5.804 pessoas. Dessas, 4.533 eram negros (ou 78% do total). Em outras palavras, a cada meia hora um negro foi morto pela polícia no país.

No mesmo período, nos Estados Unidos, a polícia matou 1.099 pessoas, sendo 259 negros (ou 23,5% do total). Se compararmos apenas a quantidade de pessoas negras mortas, no ano passado a polícia no Brasil matou 17 vezes mais do que a dos EUA. É um número chocante e inaceitável.

Nos últimos três anos foram 12.512 negros mortos pela polícia no Brasil. Estudo do IBGE mostra que pretos ou pardos têm 2,7 mais chance de serem vítimas de homicídios do que brancos, na média. Há segmentos em que o risco é ainda mais elevado. Em 2017, a taxa de homicídio por 100 mil habitantes era de 34 por 100 mil para brancos em geral. Para jovens pretos e pardos do sexo masculino alcançou 185 por 100 mil habitantes: 5,5 vezes mais.

No Rio, quatro em cada cinco pessoas mortas pela polícia no primeiro semestre de 2019 eram negras. No caso de vítimas de feminicídio, no Brasil, entre 2017-2018, 61% foram negras.

É ainda mais lamentável que a questão do racismo esteja focada no maior risco de vida da população negra. É uma evidência do racismo estrutural da nossa sociedade. Pois essa é a apenas a ponta mais visível e mais trágica de toda uma engrenagem de desigualdade e opressão.

Em 2018, brancos tinham 73,9% acima da média salarial dos negros, por exemplo. O desnível ocorre até mesmo quando o nível de qualificação é semelhante. As taxas de desemprego entre pretos e pardos são superiores. O número de trabalhadores na informalidade também.

A Pandemia da Covid-19 é mais uma oportunidade para escancarar a desigualdade da nossa sociedade. Um estudo com dados epidemiológicos de 99,5 mil pacientes, conduzido pela Universidade de Cambridge com a Universidade Federal do Espírito Santo, revelou que critérios étnicos e sociais são fator relevante nas taxas de mortalidade aqui no Brasil. A prefeitura de São Paulo cravou que o risco de um negro morrer é 62% maior.

Piores condições de vida e de trabalho, assim como maior dificuldade de acesso a serviços de saúde aumentam os riscos.

Desigualdades matam de várias formas. É preciso combater todas elas.


Luciano Bandeira é presidente da OABRJ.