Rio vai sediar a Conferência global da Década do OceanoDivulgação da ONU

A edição da Rio Ocean Week 2026 serve como um balão de ensaio para a Conferência da Década do Oceano, um dos momentos mais aguardados no calendário global oficial da Organização das Nações Unidas que também será realizado no Rio de Janeiro de 5 a 9 de abril de 2027 incluindo eventos preparatórios e oficiais.
A agenda oceânica também abrange ações paralelas como excursões marítimas, sobrevoos, exposições, visitações a embarcações brasileira e estrangeiras, ações educativas e rodas de conversas espalhadas pela cidade. O objetivo é reunir ciência, políticas públicas, sociedade civil e diferentes setores em torno da busca por soluções para o futuro dos mares.
A colocação desse bioma nas prioridades da ONU não é a toa. A poluição marítima ganha status de urgência diante das demais devido ao seu grande impacto, assim como pela necessidade de fomentar estudos e pesquisas. São necessários investimentos básicos na localização e detecção dos pontos mais vulneráveis.

Reproduzimos o conceito popular no universo científico de que conhecemos melhor Marte e a Lua do que as profundezas dos nossos oceanos. Tirando o folclore e usando fatos estimados por oceanógrafos e outros especialistas, mais de mais de 80% desse bioma continuam sem observação, exploração e mapa detalhados. Um território ainda desconhecido.
A nossa capacidade de explorar, utilizar e impactar esse ambiente avançou muito mais rapidamente do que a de compreendê-lo em profundidade. 
Baía de Guanabara
Como anfitrião, é fundamental que o Rio de Janeiro compartilhe os seus vários projetos de sucesso, assim como faça uso de sua expertise parta sugerir soluções, estudos e vivências que possam servir de exemplo ou adaptados por outros países na preservação da qualidade marítima e de recuperação de pontos degradados. 
Como cartão de visitas pode ser o significativos avanços do que parecia eterno e indissolúvel quadro de despoluição da costa e seus complexos lagunares.
Praias historicamente poluídas como a do Flamengo, da Glória e algumas das Ilhas de Paquetá e do Governador passaram a registrar longos períodos próprios para o banho depois de mais de 3 décadas classificadas como proibidas. 
Estima-se que mais de 130 milhões de litros de esgoto deixaram de ser despejados diariamente na parte carioca da Baia de Guanabara, onde fica a maioria das faixas recuperadas. Essa melhora gradual atrai naturalmente o retorno de fauna marinha nativa, sem a necessidade de nenhuma intervenção humana de repovoamento. 
Enterrar na Areia
Em contraponto não podemos enterrar na areia os gargalos internos não resolvidos. Não se exige de um anfitrião soluções para todos os problemas. Mas é fundamental que reconheça e haja um comprometimento com a busca e aplicação de melhorias.
É inacreditável que uma das paisagens mais bonitas do mundo e um dos principais cartões postais do Brasil no exterior, o monumento natural do Pão de Açúcar continue banhado pela impróprias Enseada de Botafogo e da pequena e charmosa Praia da Urca.
Não precisa ser especialista para entender a dificuldade na regeneração natural do PH por estarem no fundo da Baía. Por isso sofrem menos força das marés no processo de renovação e oxigenação da água. É fato que essa condição geográfica dificulta o transporte de detritos e agentes poluentes captados pelas correntes aquáticas em direção ao mar aberto onde ficam mais fáceis de serem diluídos.
Mas isso não exime o comprometimento na resolução dessa questão. apresentando projetos para compensar, mitigar ou sanar, na melhor das hipóteses a resolução dessa questão.
Também é preciso um posicionamento com relação a queixa de moradores  e gestores de outros municípios banhados pela Baía de Guanabara, a maioria da Baixada Fluminense, Niterói e São Gonçalo de que a despoluição ocorre de forma desigual.
Fora do perímetro da capital, são estimados  a continuidade despejo de milhares de litros de esgoto in natura através de rios, de ligações clandestinas ou redes não tratadas adequadamente. Um bom argumento para tratar este caso é que ainda faltam 7 anos para o prazo oficial para a universalização do saneamento total da Guanabara que é  1 de dezembro de 2033.
Veneza Carioca 
Canais interligados com o ecossistema da região está o arquipélago composto por outras 11 ilhas é um ponto crítico que precisa ser encarado de frente. Do total,  9 são habitadas. Esse perímetro aquático vem sendo chamado de Veneza Carioca, numa analogia a Cidade italiana, despertando interesses turístico, gastronômico e da especulação imobiliária.
Esse crescimento desordenado acontece em meio a um processo que se arrasta há décadas de não reconhecimento das habitações dos antigos pescadores e seus descendentes, o que deixa o portão aberto para invasões e a venda informal dos terrenos de posse para terceiros.
Essa pendência não permite a implantação de um plano urbanístico, a delimitação de espaços mantidos como naturais e pontos estratégicos a serem recuperados. Também impede a substituição do esgoto clandestino que jorra in natura por um sistema tratado e controlado.
A maior desse arquipélago lagunar é a que a da Gigoia, que acaba emprestando de forma genérica seu nome para toda essa região aquática. A Ilha Primeira é a que abriga o mais requintado polo gastronômico. A das Garças se destaca por clubes e entidades que promovem ou alugam seus espaços para festas e eventos badalados. Ainda possuem presença humana, a da Fantasia, São Jorge e da Coroa.
Sua área estendida inclui a Ilha de Itanhangá, situada numa subdivisão de mesmo nome, entre áreas de preservação ambiental, os pés do Maciço e das ramificações da Lagoa.
Por debaixo da Ponte
Também sofre o lado oposto do Canal, conhecido como Barrinha, situado no extremo oeste, aos pés da Pedra da Gávea onde fica um dos acessos para a Praia dos Amores. Dependendo dos caprichos das marés, a atraente coloração caribenha pode mascarar um alto graus de poluição. 
O mesmo panorama segue o fluxo da água por debaixo da Ponte da Joatinga sendo jogado pela foz do canal que desagua ao lado do Quebra-mar comprometendo a vizinha Praia do Pepê, marco zero da extensa orla marítima da Barra da Tijuca faixa contínua de areia de cerca de 15 quilômetros de extensão.  
Desmembrada da Zona Oeste pelo reordenamento do mapa administrativo da prefeitura e rebatizada de Sudoeste não traz consigo um plano efetivo de recuperação costeira. Atualmente ligações clandestinas comprometem o complexo lagunar interligado de Jacarepaguá e da Barra, ampliando seus impactos para a praia de mesmo e do Recreio. 
A demarcação e recuperação da Praia da Reserva
Outro curinga positivo é a efetivação da Praia da Reserva e isolamento de 8 quilômetros de extensão após o final da Barra de forma a evitar grandes adensamentos urbanos. Foram demarcados trechos na base do areal para recuperação e desenvolvimento da típíca vegetação natural costeira deixando apenas pequenos corredores para o acesso de banhistas.
A venda de comidas e bebidas foi restrita a quiosques pé na areia que foram espaçados com maiores distâncias entre eles e regidos por regras e condutas mais rigorosas de comercialização e no descarte de produtos e compensação de seus impactos ambientais. 
Na pista no entorno, removidas linhas de ônibus e de vans e implantado um controle maior do fluxo de outros veículos. Do outro lado da via, aumentou a fiscalização e reduzidas drasticamente as vagas para estacionamentos, assim como removidos os espaços particulares ou invadidos que ofereciam esse tipo de serviço.
Foram desapropriados ocupantes dos terrenos para veraneio, camping, beach clubes e de exploração de outros ramos de comércio para recuperação e replantio com espécies da Mata Atlântica costeira originais desta região.
Esse corredor ambiental vai se aprofundando até a divisa com a vegetação típica de Restinga e Manguezal que circunda a Lagoa de Marapendi com a captura artesanal apenas permitidas para as famílias dos históricos pescadores da colônia local. O turismo e transporte de passageiros foi reduzido e restrito a navegações sem motores. Essas medidas garantiram condições propícias para regeneração natural da sua flora e fauna.
O milagre de São Conrado
Esbanjando cases de sucesso para exibir ao mundo tem os efeitos da modernização das elevatórias e o tratamento do esgoto vindo da Favela da Rocinha. Essas intervenções elevaram o índice de balneabilidade das Praia de São Conrado de 22 para mais de 80% do tempo e também impactando de forma positiva a do Joá, assim como o entono da Ilha que abriga o Clube Costa Brava.
Um projeto parecido poderia ser aplicado na vizinha Favela do Vidigal de forma a minimizar o impacto na faixa de areia localizada na base do edifício que abriga o Hotel Sheraton. Muitos pensam ser uma área exclusiva devido ao seu difícil acesso para quem está fora do resort e com serviços e infra estrutura reservados aos hóspedes.
Mas como no Brasil é proibido a privatização de praias, é mantido o escondido e difícil acesso através de uma escadaria de 141 degraus. Já que tocamos neste assunto, outro bom exemplo para compartilhar com o mundo é a nossa proibição constitucional de praias privativas. É claro que numa costa gigantesca questões pontuais podem aparecer, mas nada que macule a nossa posição vanguardistas.
Atafona: a Atlântida brasileira
Navegando um pouco mais para o norte do Estado do Rio de Janeiro, temos o fenômeno  no litoral de Atafona, distrito de  São João da Barra. Nessa região se materializa a mitológica e desaparecida Atlântida. A realização da Conferência da Década do Oceano pode ser uma ótima oportunidade para apresentar um urgente comprometimento com plano de contenção. 
O mar vem avançando progressivamente desde a década de 1960 imergindo várias ruas urbanizadas e seus respectivos imóveis. Trata-se de um dos casos mais graves de erosão costeira do mundo. Calcula-se que tenha atingido no total, mais de 500 edificações e engolido dezenas de quarteirões.
Segundo especialistas, isso ocorre pela perda de vazão do Rio Paraíba do Sul que desagua na região em  consequência da combinação de assoreamento, poluição e extração de suas águas por industrias às margens de seu percurso. Ele perdeu a pressão que controlava e servia de barreira natural ao avanço das ondas.
Bons exemplos e Comprometimentos
O Brasil não pode perder essa oportunidade de assumir o protagonismo na chamada economia azul sustentável, atraindo parcerias, investimentos, pesquisas e capitanear projetos. A previsão é reunir no Rio de Janeiro até 2 mil participantes, entre representantes de governos, comunidade científica, lideranças indígenas, juventudes, sociedade civil, setor privado e organizações internacionais.
Não basta sediar. Para manter essa relevância é fundamental o estabelecimento de uma relação de confiança baseado em pilares sustentados pelo genuíno comprometimento, um olhar autocrítico para dentro de casa e a sinceridade diante do que ainda possa ser resolvido no gigantesco 10 mil quilômetros de litoiral.
Que não tenham o misto de malandragem e ingenuidade ao achar que podem enganar os maiores especialistas mundiais. Ter uma extensa faixa litorânea deve servir para mostrar a nossa diversidade em administrar diferentes ecossistemas, comunidades, atividades econômicas e pressões ambientais.A própria UNESCO destaca a dimensão do papel brasileiro dentro da Década do Oceano. 
Proposta Mundial
A programação da Conferência no Rio de Janeiro abrange temas como resiliência costeira, biodiversidade, poluição, mudanças climáticas, observação, dados científicos, alfabetização oceânica, economias sustentáveis e financiamento.
É preciso uma articulação que compartilhar estudos científicos,  experiencias práticas e propósitos únicos em prol de um oceano mais saudável e resiliente.

Mapear não é uma curiosidade cartográfica. Saber onde estão montanhas submarinas, cânions, planícies, vulcões e outros acidentes do relevo ajuda a compreender os habitats, a circulação oceânica e diferentes processos físicos e biológicos. Também orienta pesquisas e decisões relacionadas à conservação e ao uso sustentável dos recursos marinhos.
É preciso lembrar que poluição, perda de biodiversidade, mudanças climáticas e degradação de ambientes costeiros não respeitam fronteiras administrativas. Por isso, a discussão sobre os mares precisa deixar de ser restrita aos laboratórios ou aos encontros internacionais e chegar ao de todos aqueles que dependem direta ou indiretamente desse patrimônio natural.

Conferências são importantes para aproximar governos, cientistas, empresas, organizações sociais e comunidades. Mas nenhum oceano será recuperado por discursos, fotografias oficiais ou declarações de boas intenções.

O desafio é fazer com que o conhecimento produzido chegue às políticas públicas, aos mecanismos de fiscalização, aos investimentos em pesquisa e às práticas econômicas que dependem do mar. Também é necessário ampliar a chamada alfabetização oceânica, para que a sociedade mundial compreenda que o oceano não começa na areia da praia nem termina onde a vista alcança.
* Luiz André Ferreira é podcaster, curador, jornalista, apresentador e professor universitário Mestre em Projetos Socioambientais, em Bens Culturais e Designer Educacional.