Salvino Oliveira, secretário especial da JuventudeBernardo Cordeiro
Publicado 22/08/2021 06:00
Nascido e criado na Cidade de Deus, Salvino Oliveira é secretário especial da Juventude Carioca do Rio de Janeiro, pasta criada pelo prefeito Eduardo Paes. "Tendo vivido essa realidade de perto e ter crescido próximo àqueles menos afortunados da nossa cidade, me dá uma sensibilidade maior no entendimento muito mais profundo de quais são as demandas desse público jovem. Eu ainda tenho 23 anos e ainda sou um jovem de origens muito populares e humildes. Os desafios que eles vivem e que eu vivi são desafios que eu vivi e me atravessaram", conta em entrevista ao Jornal O DIA. Apesar da pouca idade para um cargo público no primeiro escalão, Salvino já chegou com uma bagagem: é cofundador do Projeto Manivela, coordenador do Perifa Connection, ex-assessor de projetos e relações institucionais da Defensoria Pública do Estado e é formando em Gestão Pública na UFRJ. "Eu tive oportunidades na minha vida que transformaram meu caminho e me deram outro olhar para a realidade. Eu acredito que sou uma peça coringa nesse contexto, porque venho de uma origem humilde, mas consegui alcançar lugares de excelência", explica.
Secretário, 29,5% dos jovens brasileiros estão sem emprego e sem formação educacional. Como está a situação na cidade do Rio?
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O cenário atual da juventude brasileira nos leva ao estado de alerta. Os dados divulgados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), produzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no 1º trimestre de 2020 apontaram que 152 mil jovens cariocas com idade entre 14 a 24 anos estavam desocupados. Os jovens com idade entre 18 a 24 anos chegaram ao patamar de 32,6%. Vale destacar que, no segundo trimestre de 2019, na cidade do Rio de Janeiro, 19,6% dos jovens não estudavam e nem trabalhavam, classificados como os "nem-nem".
Agosto é o mês da Juventude. Quais ações estão sendo feitas pela secretaria?
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Nesse Mês da Juventude, estamos realizando uma série de ações e atividades que têm como objetivo promover a juventude carioca e gerar oportunidades que possibilitem uma maior inserção dos jovens no espaço da nossa cidade. Começamos o mês com o encerramento do nosso projeto "Fala Juventude!". Dessa vez, ele aconteceu em parceria com a Secretaria da Saúde e com a empresa Vital Strategies. Por meio dessa ação, ensinamos jovens de três territórios diferentes sobre Comunicação em Saúde. Esses mesmos jovens toparam o desafio de fazerem uso dos conhecimentos e conscientizar a população de suas regiões sobre combate à Covid-19 e a importância da vacinação. Também foram distribuídas máscaras e frascos de álcool em gel. Já rolou um flashmob em frente ao Museu do Amanhã, com dançarinos do grupo Filhos do Samba, no dia 7/8. No domingo, 8, levamos uma faixa para o Maracanã, durante o jogo Flamengo x Internacional com os dizeres “A juventude carioca é o presente, o futuro da cidade” para lembrar às pessoas que uma cidade pulsante e realizadora depende de sua juventude. Realizamos, em 11/8, Dia do Estudante, um encontro com Entidades Estudantis. Os jovens conversaram, no Auditório da Prefeitura do Rio, sobre os desafios da educação diante a pandemia, trouxeram suas demandas e conheceram algumas iniciativas da equipe da JUVRio. No Dia Internacional da Juventude, 12/8, inauguramos a Casa da Juventude da Pavuna, a primeira de cinco que serão abertas pela JUVRio até 2024 para oferecer atividades de saúde, educação e cultura, promovendo formação profissional e social dos moradores da região. No mesmo dia, à noite, iluminamos o Cristo Redentor na cor azul em parceria com o Santuário RIOTUR e participamos de uma solenidade na Câmara dos Vereadores sobre a data. Ao longo do mês, estamos realizando o Assistência em Movimento, em parceria com a Secretaria Municipal de Assistência Social e a Universidade Estácio de Sá, visando prestar serviços diversos à população. Ainda teremos muitas ações e parcerias, como Encontro Jovens Líderes, Ação Orgulho do Ciclo Feminino, Virando o Jogo em parceria com a Secretaria Municipal de Esportes, Juventude com Cidadania em parceria com PROCON Carioca, Workshop do WhatsApp Business em parceria com CIEDS, lançamento do programa Geração Transformadora, realização do l Seminário da Juventude Carioca, do Encontro Nacional de Gestores de Juventude das Capitais e do Prêmio Edson Luiz e ações do Comitê Intersetorial de Políticas Públicas para a Juventude e de lançamento da Exposição Mapa dos Sonhos. No site e redes sociais da JUVRio disponibilizamos a programação completa do Mês da Juventude.
Este mês, foi inaugurada a Casa da Juventude. O que esse projeto pode contribuir para o desenvolvimento dos jovens?
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A Casa da Juventude da Pavuna oferece oportunidades e acesso a cursos de formação, estímulo ao desenvolvimento de soft e hard skills, acompanhamento psicológico e criação de trilhas de conhecimento para ingresso no mundo do trabalho. No período da pandemia, o funcionamento da Casa da Juventude da Pavuna será de segunda a sexta-feira, das 9h às 12h e das 13h às 18h. A rotina da casa contemplará também palestras, feiras de oportunidades de empregos, escuta ativa de jovens para a construção de novas políticas públicas voltadas para a juventude por meio de rodas de conversas e atendimento individual.
Você nasceu na Cidade de Deus. O que é preciso para investir na juventude de comunidades carentes?
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Primeiro entendimento é que não há uma juventude homogênea. Isso quer dizer que dentro da juventude de periferia existem diversos segmentos de juventude e as políticas públicas precisam ser construídas levando em consideração os diversos públicos que compõem a juventude. É muito importante que haja, nesse processo, escuta ativa, construção horizontal com eles e entender que um dos maiores desafios desses grupos é a vulnerabilidade socioeconômica. Grande parte de nossos projetos serão voltados para esse público.
O que é possível fazer para diminuir a desigualdade educacional entre jovens ricos e pobres?
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A pandemia escancarou processos que já existiam. A disparidade entre ensino público e privado já era um fato, não só no Rio de Janeiro, como no Brasil inteiro. Então, com a pandemia, a gente vê esse “gap” entre a educação pública e privada se tornar cada vez maior. É necessário, mais do que nunca, para reduzir essa desigualdade, que a gente invista em tecnologia nas escolas públicas. Os nossos estudantes precisam estar conectados, ter uma educação boa e de qualidade a todo momento. Então é preciso que a gente invista também em uma escola mais inclusiva. O modelo de escola do século passado, no qual o professor está de um lado e o lado do outro, não atende mais às demandas de uma juventude cada vez mais dinâmica e conectada. A gente precisa de um modelo que esteja ligado ao mercado profissional e às tecnologias. Os jovens precisam se sentir parte da escola, que seja cada vez mais democrática, plural e conectada.
Por sua vivência na Cidade de Deus, isso lhe dá um olhar diferente na hora de aprovar projetos para sua pasta?
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Certamente. A Secretaria Especial da Juventude Carioca surgiu com o desafio de elaborar, implementar e acompanhar políticas públicas para pouco mais de 1,5 milhão de jovens de 15 a 29 anos, que é o nosso público na cidade do Rio de Janeiro. Essa é a faixa etária que a ONU entende como juventude. No entanto, o Poder Público precisa olhar para aqueles que mais precisam, especialmente em um momento de expansão da insegurança alimentar no município. E, tendo vivido essa realidade de perto e ter crescido próximo àqueles menos afortunados da nossa cidade, me dá uma sensibilidade maior no entendimento muito mais profundo de quais são as demandas desse público jovem. Eu ainda tenho 23 anos e ainda sou um jovem de origens muito populares e humildes. Os desafios que eles vivem e que eu vivi são desafios que eu vivi e me atravessaram. Então me dá uma certa sensibilidade maior para lidar com a aprovação desses projetos para esse público, que é o que mais precisa do governo nesse momento.
Como o poder público pode afastar os jovens da influência do tráfico?
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A palavra que responde a essa pergunta é oportunidade. Inclusive esse é um mantra que a gente repete na JUVRio. Nós precisamos gerar oportunidades, no sentido mais amplo da palavra: de capacitação, de inclusão produtiva, de se sentir parte dessa cidade. O tráfico age onde encontra lacunas do Poder Público. Quando nós somos capazes de elaborar políticas públicas com aquilo que os jovens sentem, com as demandas deles, certamente eles verão que existem outros caminhos possíveis.
Você é cofundador do Projeto Manivela, coordenador do Perifa Connection e formando em Gestão Pública na UFRJ. Já foi Jovem Aprendiz no setor de hotelaria e passou pela Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro. O que essas experiências contribuíram para sua atuação na secretaria?
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Elas são justamente a resposta para a última pergunta. Eu tive oportunidades na minha vida que transformaram meu caminho e me deram outro olhar para a realidade. Eu acredito que sou uma peça coringa nesse contexto, porque venho de uma origem humilde, mas consegui alcançar lugares de excelência. Ter passado pelo colégio Pedro II, pela UFRJ, pela Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro me tornaram uma pessoa capaz de enxergar as múltiplas realidades do Rio de Janeiro. O que sente um jovem da elite carioca ou da periferia são experiências que trazem um olhar diverso da nossa cidade. O que a gente tem buscado na Secretaria da Juventude é a construção de um pacto em defesa da juventude carioca por meio de todos os atores sociais: empresas, terceiro setor e área pública. Esse é um pacto capaz de transformar, a longo prazo, a realidade dos jovens no Rio de Janeiro. 
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