Sulamita havia perdido os documentos  - Álbum de família
Sulamita havia perdido os documentos Álbum de família
Por Charles Rodrigues
É comum falarmos do desaparecimento, da luta das famílias e das dores da ausência. Desta vez, no entanto, iniciaremos a coluna com a pauta invertida. Sim, leitores, falaremos da felicidade do encontro, dos procedimentos adequados, do trabalho de investigação, passando pela angústia dos parentes, até o desespero do sumiço. Será um enredo ao contrário.

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Sulamita é conhecida como "professorinha" no Acre Álbum de família
Professora veio ao Rio para rever familiares Álbum de família
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Sulamita participou de campanhas políticas no Acre Álbum de família
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Assim foi a história da professora acreana Sulamita Chaves da Cruz, encontrada na última quinta-feira, no Aterro do Flamengo. Após uma desorientação, por conta de um transtorno de personalidade, ela ficou 30 dias perambulando pelas ruas, sendo levada para locais ermos e insalubres no Rio de Janeiro. O que deveria ser uma viagem para reencontrar familiares quase acabou em tragédia. Contudo, diferente de centenas de outros desaparecimentos, essa história terminou com um final feliz.
Sulamita foi resgatada pelo genro, quando caminhava por uma das praças esportivas do parque carioca. Estava na companhia de uma mulher, que, segundo relatos da vítima, durante suas andanças, teria feito ela refém e levado para um imóvel ocupado irregularmente, na zona sul da cidade. De acordo com a professora, a suposta sequestradora ainda tentou impedir que fosse encontrada pelo genro.
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A professora chegou ao Rio no dia 27 de julho para rever duas irmãs e desapareceu. Ela havia perdido os documentos e o aparelho celular estava com defeito. “Eu estava completamente sem orientação, muito fraca, com dores no corpo e um profundo medo de não ver mais os meus três filhos”, contou a professora, ainda com a voz embargada, mas aliviada, após ser levada para um hotel. “Recebi um telefonema informando a localização, avisei a polícia e fui ao encontro dela. Sabia dos riscos, mas não podia perder tempo. Tinha receio de não encontrá-la, mas deu tudo certo. A outra mulher fugiu”, disse o genro, que veio do Acre para acompanhar o andamento do caso.
Investigações- Os registros do caso na Delegacia de Descobertas de Paradeiros (DDPA) e no Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos (Plid) foram fundamentais para a divulgação da fotografia da professora, além de possibilitarem o cruzamento de dados. “Comunicamos ao Disque-Denúncia e de posse do cartaz circulamos entre os serviços sociais estaduais e municipais para ver se algum equipamento público havia registrado a entrada da vítima, bem como, realizamos o monitoramento de alguma informação”, informou em nota, a gestão do Plid. 

Emocionado, o filho da professora, Elomar da Cruz, de 32 anos, destacou a importância da rede de informações. “Isso foi fundamental. A fotografia dela no site da polícia gerou denúncias anônimas e deu condições de cercarmos o paradeiro numa determinada região”, ressalta Elomar, que mora em Brasília. Mesmo sem conhecer a cidade, o genro da vítima usou informações nas ruas para chegar ao paradeiro. “Fui em locais públicos onde moradores de rua recebem alimentação, na Lapa, na Praça da Cruz Vermelha e na Central do Brasil. Sabia que poderia encontrá-la nesses locais pelo perfil do caso. Graças a Deus a encontramos. Poderia ter acontecido o pior”, desabafou o genro.

“Trinta dias de terror. Pensei que fosse morrer”
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Uma história insólita, de dor e angústia. Sulamita veio ao Rio de Janeiro para reencontrar familiares. Contudo, após uma confusão, no dia 27 de julho, saiu do condomínio onde estava hospedada, em Laranjeiras, e desapareceu. Segundo a professora, o chip do celular estava com defeito e ela ficou desorientada. Após perder o contato com a família, passou a perambular pelas ruas, comeu nas praças com moradores de ruas, dormiu em casarões abandonados, ficou num barraco de favela e foi levada por uma mulher desconhecida para um imóvel abandonado. “Foram trinta dias de terror. Pensei que fosse morrer e nunca mais veria meus filhos”.
Para a filha da professora, Semilla Lima, 31, que mora no Acre, a angústia aumentava ao passar o tempo. “Ficamos desesperados. Meu marido foi ao Rio para acompanhar as buscas e mantinha-nos informado. Quanto mais o tempo passava, parecia que nunca mais a encontraríamos. Nosso medo era ela ter sofrido algum tipo de violência”, desabafa a filha.

Segundo relatos dos filhos, Sulamita é uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores (PT), no Acre, onde fez amizades com o ativista Chico Mendes, assassinado em 22 de dezembro de 1988, e com a ex-senadora e candidata a presidente pelo partido Rede Sustentabilidade, Marina Silva. “A Marina até hoje a chama de ‘professorinha’. Minha mãe sempre foi politizada. Há alguns anos ela apoia a Marina. Inclusive já trabalhou em diversas campanhas dela”, disse Semilla.