Por helio.almeida

Rio - O rock nacional desapareceu da grande mídia. Mas os Raimundos, maior sucesso dos anos 90, estão por aí, tocando para plateias numerosas, reconstruindo a trilha que iniciaram há duas décadas e preparando o terreno (via crowdfunding, arrecadação de dinheiro com fãs) para gravar em setembro ‘Cantigas de Roda’, o primeiro disco de inéditas desde 2005, em Los Angeles, com produção de Billy Graziadei, vocalista da banda americana Biohazard.

Raimundos falam sobre início da carreira e sobre rock de Brasília em documentárioDivulgação

“Quando o Rodolfo (ex-vocalista, hoje evangélico) saiu, havia curiosidade mórbida a respeito da gente. A gravadora (Warner) não ficou do nosso lado”, recorda o guitarrista e vocalista Digão, que toca com o velho amigo Canisso (baixo), Marquim (guitarra) e Caio (bateria). “Acham que ficamos fora de linha por causa da saída dele, mas na época todo mundo começou a baixar música de graça e o mercado acabou”.

O grupo ativou o crowdfunding no começo do mês, no site ‘catarse.me’. A ideia era ganhar R$ 55 mil para as passagens, custos de estúdio e produção. Em uma semana, vieram mais de R$ 43 mil. Para os apoiadores, há contrapartidas que vão desde o disco em versão LP até ingressos com visita ao camarim para qualquer show em 2014.

“Estávamos decidindo como o disco seria lançado. Nisso, um amigo foi aos EUA e levou uma demo para o Billy dar um ‘tapa’. Adoramos e fomos procurá-lo. O Billy sugeriu o crowdfunding”, recorda Digão. “Conversamos com gravadoras. Mas se elas já tinham uma cabeça horrível, imagina agora? Só querem saber de Naldo e Anitta”.

As mudanças no grupo chegaram a levar Canisso, que saiu para tocar com Rodolfo no extinto Rodox e voltou em 2007. “Quando ele retornou, começamos tudo do zero. Hoje temos uma equipe de 13 pessoas”, lembra Digão. O set list está cheio de clássicos. “As velharias, tudo o que gostamos de tocar”.

Apesar da produção de Billy, Digão afirma que não quer fazer o disco “mais pesado” da banda — que já lançou a nova faixa ‘Politics’. “Tem para todos os gostos: punk rock, balada, até forró-core”, diz o cantor, lembrando do rótulo que os marcou. Zenilton, forrozeiro que deu hits à banda, retorna com ‘O Gato da Rosinha’.

O guitarrista revela que Fred, ex-baterista do grupo, continua por perto. “Ele substitui o Caio às vezes e ainda somos amigos”. O ex-vocalista permanece afastado. “O Rodolfo que eu conheci não é esse aí. Nem tenho como conversar com ele”.

Dias de luta em Brasília

Lançado no festival brasiliense Porão do Rock, no fim de semana, ‘Geração Baré-Cola’, documentário de Patrick Grossner, traz a história do rock brasiliense dos anos 90 com nomes como Gabriel Thomaz (Little Quail/Autoramas), a banda punk DFC e os Raimundos. Rodolfo Abrantes, ex-vocalista que deixou o grupo em 2000, dá depoimento histórico e inédito.
“Ele não ouve mais rock, não fuma, não fala palavrão, mas se refere com muito orgulho ao passado”, diz Grossner, 41 anos, que conheceu a cena de perto como fotógrafo. “É fácil pesquisar a história dos Raimundos pós-1994. Então focamos no começo”.

Trazendo imagens raras de figuras que já morreram — como o produtor Tom Capone e o guitarrista Fejão, ambos egressos dos anos 80 mas ativos na década seguinte — o filme expõe conflitos de geração.

“Mostrei o filme para o André Mueller (Plebe Rude) e ele não gostou de ver músicos falando mal da geração dele. Quem era do metal não ia gostar do Renato Russo, claro. Mas depois se animou com as bandas, até disse que se soubesse que Brasília estava assim, teria continuado lá”.

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