Proibição da venda de madeira de lei dificulta construção de instrumentos

Medida aumenta preço das encomendas e tempo de espera. Luthiers precisam fazer um verdadeiro garimpo em antiquários

Por raphael.perucci

Rio - ‘Samba… Agoniza, mas não morre.” Sim, o mestre Nelson Sargento foi feliz quando descreveu a eternidade do mais brasileiro dos ritmos. Porém, o mesmo não se pode dizer dos violões, cavaquinhos, banjos e bandolins feitos de madeira de lei e tão tradicionais nas rodas e shows. Hoje em dia, para confeccionar um instrumento de jacarandá-da-baía, por exemplo, é necessário fazer um verdadeiro garimpo, uma vez que a árvore está em extinção e a sua comercialização é crime ambiental de natureza grave. Como alternativa, os luthiers (profissionais que fazem instrumentos) estão buscando móveis antigos, que são desfiados na serra e se transformam em caixas sonoras.

A dificuldade faz o prazo para entrega do produto final aumentar e, mais do que isso, inflacionou os preços. Se no Brasil um violão top de linha pode ultrapassar a marca de R$ 7 mil, no exterior um seis cordas feito de madeira de lei brasileira pode custar até dez vezes mais, cerca de US$ 30 mil (mais de R$ 70 mil).

Considerado um dos melhores do Rio, o luthier Rogério Santos fez instrumentos para quase todos os músicos que tocam com artistas consagrados no mundo do samba. Ele lembra que, no passado, processo semelhante aconteceu na fabricação de pianos. As teclas eram feitas de marfim e, para isso, animais como elefantes e hipopótamos eram sacrificados. A mesma coisa acontecia com os gatos, que eram mortos para que sua pele fosse usada na fabricação de tamborins. Mais tarde, essas práticas foram proibidas.

Rogério Santos%2C luthier%2C conta que no Rio é muito mais difícil encontrar jacarandá do que em outros estados e até mesmo no exteriorFernando Souza / Agência O Dia

“Isso é uma coisa que não vem de hoje, não. Antigamente, as árvores eram exportadas para tirar um tipo de óleo. Também foram muito usadas para fazer móveis. Agora, praticamente acabou o jacarandá-da-baía. A gente fica sempre de olho nos antiquários e nas madeiras de demolição. Já teve caso de um cliente me oferecer um móvel e perguntar se eu fazia um instrumento para ele”, diz Rogério Santos, lembrando que o prazo mínimo para a entrega de um cavaquinho é de dois meses.

Dudu Nobre reclama de demora em entrega

Dono de uma coleção com aproximadamente trinta instrumentos de madeira de lei, entre eles um banjo feito por Santos, o cantor Dudu Nobre diz que já esperou muito mais do que 60 dias por um cavaquinho de um outro luthier. “Ih, fiz uma encomenda há mais de um ano e meio e até agora não recebi. Eu não estava sabendo deste sufoco todo para comprar madeira. É bom saber, porque vou comprar mais um monte antes que acabe”, diz, entre brincando e falando sério.

“De fato, o jacarandá tem sonoridade muito superior à de outras madeiras. Existem até outras opções, mas é tudo diferente. O som, o timbre... Muda tudo”, explica Dudu, cavaquinista de mão cheia. O artista dá uma dica valiosa para outros músicos: “Eu fico garimpando instrumento. Fico de olho nos sites de compra. Peço para ver as fotos da ‘criança’, confiro a assinatura. Os cavaquinhos Do Souto, por exemplo. Eu vou direto na marca”, contou.

Dudu Nobre coleciona instrumentos%3A ele fica de olho em sites de compra na internetJosé Pedro Monteiro / Agência O Dia

Por falar na marca Do Souto, da loja Bandolim de Ouro, foi lá que o prestigiado luthier Lucenir começou a confeccionar seus primeiros cavaquinhos, no final da década de 1970. O mestre é outro que precisa garimpar madeira de lei, e conta as suas estratégias.

“Ah, a gente pergunta para os vizinhos e os próprios clientes indicam também onde tem móvel antigo. Aí a gente compra e desfia na serra. Mas, quando acabar de vez, vai ser complicado. Eu dei sorte, porque meu pai era carpinteiro. Ele tem 92 anos e guardou uns pedaços de madeira de lei da época que não era proibido”, diz. Ele explica que o jacarandá nacional é a melhor madeira para se fazer o fundo e a lateral de um violão. “Dá até para fazer com imbuia, por exemplo, mas não é a mesma coisa, não. E eu só faço instrumento artesanal, top de linha”, constata.

Garimpo

Para viver na pele a dificuldade em encontrar madeira de lei, O DIA fez um garimpo pela Rua do Lavradio, na Lapa, considerado o maior polo do Rio de móveis antigos. Depois de percorrer todos os antiquários, apenas uma pequena oficina, no número 168, tinha peças de jacarandá-da-baía. Um dos proprietários, Renato Carvalho de Castro, confirma que os antiquários são sempre visitados por luthiers e músicos. Com a legislação na ponta da língua, ele lembra que é proibida a saída do Brasil destes móveis, mas revela que a maioria das vendas é para estrangeiros.

“Os gringos estão sempre por aqui. Teve um japonês que comprou um armário. Quer dizer, a gente estava vendendo móvel, mas ele estava comprando madeira. Ele disse que ia desfazer tudo. Aí, em vez de passar pela fiscalização no aeroporto com um armário, ele passa com um violão”, conta.

Renato lembra que já houve época em que empresas estrangeiras exigiam que produtos como aço fossem exportados do Brasil em caixas de jacarandá. “É claro que eles queriam a madeira.
O brasileiro acha que isso não tem valor, porque ainda não sentiu a falta. Mas madeira de lei tem peso de ouro. Agora, isso é perigoso: se o cara for pego com madeira ilegal, ele está mais enrolado do que o sujeito que é flagrado com drogas”, afirma.

Sócio dele na oficina, Orestes Pereira da Silva vai mais longe: “Na Europa, isso aqui (aponta uma mesa de jacarandá) é vendido por quilo. Custa em média 150 euros. A gente sabe que tem gente que vive disso, de ficar procurando móveis e revendendo a madeira. E na maioria dos casos é para estrangeiro.”

Lei Federal proíbe comercialização de madeira brasileira

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) informou que o Código Florestal Brasileiro trata sobre madeira em geral. Para estar de posse do material, é obrigatório ter um documento de origem florestal. Segundo o órgão, as leis brasileiras abordam principalmente a exportação da madeira nacional, que é quando acontece uma fiscalização mais minuciosa. No entanto, cada estado pode ter sua própria legislação, desde que seja mais restritiva do que a Federal, uma vez que cada região tem uma peculiaridade em termos de árvore.

A última grande operação contra a venda de madeira ilegal no Brasil aconteceu em 2007, quando a Polícia Federal prendeu uma quadrilha que despachava kits para fabricação de violões pelos Correios, tendo como destinos principais os EUA, Canadá e Japão. Entre os anos de 2002 e 2007, foram despachadas por essa via 1.156 kits, pesando mais de 13 toneladas, além de outras 33 toneladas de jacarandá-da-baía.

No Rio, o coronel José Maurício Padrone, responsável pela Coordenadoria Integrada de Combate aos Crimes Ambientais, garante ter zerado o desmatamento. “A Bahia é que devia estar preocupada. Aqui não tem este tipo de jacarandá. A gente sempre fiscaliza as serrarias e confere se elas têm o documento de origem florestal. E nunca fizemos nenhuma apreensão desse tipo de madeira”, concluiu. Já o Ibama da Bahia informou que o combate a este crime é de responsabilidade estadual.

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