Por daniela.lima

Rio - Ao contrário do regime militar imposto aos brasileiros há 50 anos, todos sentem saudades do Novos Baianos, grupo que Moraes Moreira formou no anos 70 com Baby do Brasil (que ainda era Consuelo), Pepeu Gomes e Paulinho Boca de Cantor e marcou a história com clássicos como ‘Preta Pretinha’ e ‘A Menina Dança’. Porém, para Moraes, a existência de um depende do outro. 

Moraes Moreira fez poema inédito para show ao lado da Cor do SomJoão Laet / Agência O Dia


“Éramos hippies à brasileira, e essa ideia radical de viver juntos em um sítio era nossa resposta àquele momento de ditadura. Muita gente me procura falando sobre uma volta do Novos Baianos, mas nunca seria a mesma coisa. Só se voltasse a ditadura no Brasil”, relativiza o cantor e compositor.

Moraes deixa o grupo em 1974, há 40 anos (“Já com filhos para criar, quis sair do sítio, achei que poderia ter uma abertura, mas não aceitaram, embora ali não fosse exatamente uma ditadura”, relata), e lança no ano seguinte o primeiro disco solo, chamado apenas ‘Moraes Moreira’. Até agora inédito em CD, ele acaba de ganhar o formato digital embalado na caixa ‘Anos 70’ junto de seus três lançamentos solo seguintes, ‘Cara e Coração’ (1977), ‘Alto Falante’ (1978, este também estreando só agora em CD) e ‘Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira’ (1979). Ontem, ele fez pocket show na Fnac da Barra da Tijuca só com músicas desses quatro primeiros discos.

“Inicialmente, farei essas apresentações apenas no formato voz e violão, mas depois vou com esse repertório para a estrada acompanhado por uma banda”, promete. Estão nesses álbuns iniciais clássicos como ‘Guitarra Baiana’ (da trilha da novela ‘Gabriela’, em 1975), ‘Pombo Correio’ e ‘Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira’. Na parte instrumental, Moraes leva para seu universo particular o amigo Pepeu Gomes e outros músicos que já transitavam na comunidade dos baianos: Armandinho, Dadi, Mu e Gustavo Schroeder, que logo seriam oficializados como a banda A Cor do Som. Amanhã, o cantor reencontra o grupo no palco do Circo Voador depois de anos sem tocarem juntos.

“Ele eram uns meninos, quando os chamei para tocar. A amizade é muito grande, e para esta ocasião especial eu fiz um poema inédito (veja no destaque), que vou recitar como um rap em cima de um groove”, antecipa.

DESCENDO A LADEIRA

Na época da ditadura, Moraes Moreira não poderia disparar críticas contra o que considerava errado no País. Agora, o cantor aproveita e abre o verbo, pegando carona no título de um de seus sucessos: “O Brasil, no momento, está descendo ladeira abaixo. Não está pronto para fazer Copa do Mundo, tem que dar um jeito na educação e na saúde antes disso”, decreta.

O cantor tem ainda mais uma reclamação, mas esta não passa pela crítica social. Na edição do ano passado do Rock in Rio, a apresentação que fez ao lado de Pepeu e Roberta Sá assustou muitos fãs por conta da sua voz, que parecia diferente, rouca. “Tive muitos problemas de som naquela ocasião. Estava me ouvindo mal pacas, não dava para cantar bem assim”, justifica. “Mas o clima bom que rolou no show superou isso.”

Clima melhor ainda ele promete para seu próximo lançamento: um CD em parceria com o filho, o guitarrista Davi Moraes. “Fomos contemplados por um edital da Petrobras. Estamos em estúdio gravando, vai ter diversas parcerias inéditas nossas. O nome, por enquanto, será ‘Pai e Filho’. Deve sair ainda no primeiro semestre”, anuncia. 

‘SOMOS NÓS’

(Moraes Moreira)

Quando o amarelo explodiu
No céu azul do Brasil
Pintou o branco da paz
Além da nossa bandeira
O verde rosa Mangueira
O violeta e o lilás

O preto nessa aquarela
Querendo ser todas elas
Somou as cores irmãs
O amor que é roxo e laranja
Pintou e bordou a franja
Das luminosas manhãs

A vida é que dá o tom
Mistura sem compromisso
Por tudo isso é tão bom
O nosso povo mestiço

Foi Deus quem deu esse dom
De levantarmos a voz
Estamos de acordo com
E a Cor do Som somos nós

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