Por daniela.lima
Zózimo Bulbul foi o idealizador do Encontro de Cinema NegroDivulgação

Rio - A vida vista sob o olhar do negro. É essa a ideia que permeia e constrói a mostra de filmes e seminários do 7º Encontro de Cinema Negro Brasil, África, Caribe/Zózimo Bulbul — que, a partir desta edição carrega o nome de seu idealizador, morto no ano passado. De amanhã até o dia 30, uma extensa programação cinematográfica é exibida no Odeon e no Centro Cultural da Justiça Federal. Enquanto isso, bem perto dos dois, no teatro da Livraria Cultura, 13 cineastas — 11 africanos e dois caribenhos — se reúnem para discutir suas produções e a realidade. 

“Estamos viciados a uma representação estereotipada na maior parte da nossa produção cultural”, condena Joel Zito Araújo, curador do evento, referindo-se ao papel que o negro ocupa no cinema. “Na maioria das vezes, aparece como o serviçal, o marginal ou sinônimo de pobreza. Queremos desfazer esse imaginário”, completa. Para isso, foram selecionados longas e curta-metragens com diferentes histórias, criadas exatamente pelos protagonistas do evento.

“Damos prioridade àqueles filmes feitos por afro-brasileiros, além de produções do Caribe e de vários países da África”, explica Joel, acrescentando que o encontro é aberto a todos. “É para descolonizar o nosso olhar. O mundo tem uma diversidade enorme e as pessoas precisam se abrir para isso”, explica o curador.

Além dos filmes, há o intercâmbio cultural decorrente dos bate-papos e encontros. O senegalês Mansour Sora Ware e o cubano Rigoberto Lopez são alguns dos nomes de destaque desta edição, com presença confirmada nos seminários. Além deles, outros cineastas premiados no Fespaco 2013 — Festival Panafricano de Cinema Ouagadougou também batem papo com o púbico.

“Estou tentando dar continuidade ao conceito do Zózimo e ser o mais fiel possível ao que ele concebeu”, comenta Araújo. A responsabilidade do curador é grande, já que Zózimo Bulbul foi um dos principais ativistas do movimento negro na cultura nacional e lutou por muitos anos pela aproximação entre a produção cinematográfica do Brasil com países africanos. “Ainda não temos nenhuma coprodução entre eles”, lamenta o curador.

Em contrapartida, ele comemora vitórias como o Oscar conquistado este ano por ‘12 Anos de Escravidão’, dando a primeira estatueta a um diretor negro — o britânico Steve McQueen. “Estão noticiando a morte da Claudia Ferreira, que era negra, com família negra e vizinhos negros e em nenhum lugar se fala de racismo. Isso ainda é tabu por aqui”, critica, lembrando o caso da mulher arrastada por uma viatura da polícia em Madureira, no domingo. “Precisamos limpar esse passado escravocrata. O festival é um passo pequenininho para isso, mas, para mudar essa mentalidade, dependemos de um pacto social entre os poderes públicos e os cidadãos.” 

DESTAQUES DA PROGRAMAÇÃO

Odeon. Praça Floriano 7, Centro (2240-1093). R$ 4.
Amanhã:
19h30 — O curta ‘O Dia de Jerusa’, de Viviane Ferreira (Brasil), seguido do longa ‘One Man’s Show’, de Newton Aduka (Nigéria).

24/03:
19h30 — ‘Toiles D’aralgnées Mall’, de Ibrahima Touré (Mali).

25/03:
19h30 — ‘Personal Vivator’, de Sabrina Fidalgo (Brasil).

22/03:
17h30 — ‘Moi – Zaphira’, de Apoline Traore (Burkina Faso)

CENTRO CULTURAL JUSTIÇA FEDERAL. Avenida Rio Branco 241, Centro (3261-2550). Grátis, com senha 1h antes da programação.
26/03:
14h30 — ‘Conexão Urbana São Elesbão – Rua da Alfândega’, de Ricardo (Brasil).
18h30 – ‘Trópico de Sangre’, de Juan Delancer (Caribe).

LIVRARIA DA CULTURA (seminários). Rua Senador Dantas 45, Centro (3916-2600). Grátis.

Amanhã:
9h — Roda de conversa com Mansour Sora Wade, Rigoberto Lopez, Joel Zito Araújo e Biza Vianna.

24/03:
9h — ‘O Cinema Contemporâneo Senegalês’, com Mansour Sora Wade.

Programação completa em: http://afrocariocadecinema.org.br/programacao.

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