Luis Pimentel: Tim Lopes, o 'diúvago'

O filme reconta a carreira brilhante e explosiva do homem que encarou de frente todos os desafios da profissão

Por daniela.lima

Rio - Há um documentário nos cinemas que tem tudo para despertar no público dois sentimentos aparentemente antagônicos, mas que podem ser complementares: a comoção e a indignação. Trata­se de ‘Histórias de Arcanjo’, narrando a vida, o trabalho, o suplício e a morte do jornalista Tim Lopes (Arcanjo Antonino Lopes do Nascimento), há 12 anos.

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Com direção de Guilherme Azevedo e roteiro de Bruno Quintela — filho de Tim com a poeta Sandra Quintela —, o filme reconta, a partir de pesquisa e de muitos depoimentos, a carreira brilhante e explosiva do homem que encarou de frente todos os desafios da profissão. Por conta disto, foi torturado e morto por traficantes do Rio, enquanto fazia uma reportagem sobre o comércio de drogas e abuso sexual na favela Vila Cruzeiro, em junho de 2002.

Fui amigo e admirador de Tim. Conhecemo­nos no começo da década de 80, no tabloide semanal ‘Repórter’, editado por Luiz Alberto Bittencourt e Eduardo Homem, período em que o bravo gaúcho, mangueirense e vascaíno se empregou nos canteiros de obras do Metrô para reportar o dia a dia dos operários, dormiu na rua para falar de mendigos e correu maratonas para escrever sobre a emoção dos atletas. A abnegação lhe rendeu vários prêmios, o respeito dos colegas e uma posição de destaque no jornalismo investigativo das diversas redações por onde passou.

Por alguns anos fomos colegas de pelada. Subíamos juntos todos os sábados o Alto da Boa Vista, para correr atrás da pelota no Campo do Cachoeirinha, pelo imbatível Com Jeito Vai Futebol Clube. O Com Jeito tinha craques (?!) de todas as profissões, especialmente da nossa, como os companheiros Caco Barcelos, Rui Xavier, Aluizio Maranhão, Genilson César, Custódio Coimbra, Walter Carvalho, Chiquito Chaves, Luizinho, Alceu Nogueira da Gama, Marcos Dantas e outros que estão por aí, todos ainda batendo um bolão no jornalismo.

Fazíamos aniversário no mesmo dia, ele um pouquinho mais velho, e conseguimos bebemorar juntos algumas vezes. Numa delas, em família (nossos filhos têm mais ou menos a mesma idade e eram pequenos), Sandra queixava-se da dificuldade de encontrá-lo acordado, pois ela escrevia de madrugada e ele dormia cedo para amanhecer o dia correndo na areia da praia. Tim saiu-se com essa:

— Meu amor, é que você é notívaga e eu sou ‘diúvago’!

Nosso último encontro foi no Sambódromo, no ano de sua morte. Eu acompanhava a festa, ele desfilava pela nossa Verde e Rosa. Marcamos uma cerveja para o 18 de novembro, quando faríamos um brinde comemorativo.
Não foi possível.

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