Luis Pimentel: Caixinha de miudezas

A vida — com o seu corolário manuscrito de mistérios — não passa de um eterno esperar pelos sinais que as mãos nos reservam

Por daniela.lima

Luis Pimentel%3A Caixinha de miudezasNei Lima / Agência O Dia

Rio - Céu e inferno
A mãe lavava roupas para fora (e passava a ferro também) e o menino a ajudava, levando à casa da cliente (chamava­se freguesa) a trouxa bem amarrada com as peças limpas e bem engomadas, e recolhendo as sujas.

Sempre parava um pouco diante do campo de futebol para apreciar o jogo dos amigos, e um dia uma bolada enlameou o lençol branquinho que envolvia as roupas. Entregou a encomenda à freguesa usando o truque de esconder o lado manchado, mas a mulher virou o bolo de panos, bateu os olhos na sujeira e perguntou:

— O que foi isto?
Arregalou os olhos. Batia o queixo. Só pensava na mãe, que perderia aquele trabalho e ainda ficaria com fama de lavadeira descuidada, quando a mulher o tirou do inferno:
— A trouxa deve ter escorregado de sua cabeça, não foi?
— Foi — gaguejou.
— Tem nada não. Isso acontece — ela disse, entregando as peças sujas e o dinheiro que ele levaria para casa.

Fez o caminho de volta desenhando nas pedras novos sonhos, feliz e agradecido, de mãos dadas com Deus.

Mãos

As mãos de minha avó tinham veias azuis em alto relevo, córregos entre couro e osso, cobras inflamadas nos desvios das rugas. Eu corria lentamente a ponta do dedo sobre a elevação inchada nas mãos murchas de minha avó, e pedia a Deus para que as mãos de minha mãe jamais ficassem assim.

As mãos de minha mãe também se tornaram azuis, com barbantes mergulhados em pele murcha, seca e manchada. Os meus dedos faziam carinho, evitando o contato das unhas, achando que de uma hora para outra poderiam rasgar a película e o jato azul inundar tudo, pensando que minhas mãos, as minhas lindas mãos, nunca teriam esse desenho.

Agora, percorro com os dedos de minha mão esquerda fio por fio as costas da mão direita, invertendo depois a ordem do movimento, revendo em meu corpo de mãos murchas e manchadas os córregos de minha avó, sentindo novamente o temor de que explodissem no céu as nuvens em cordas das mãos de minha mãe, olhando as mãos jovens e saudáveis do meu filho, pensando que a vida — com o seu corolário manuscrito de mistérios — não passa de um eterno esperar pelos sinais que as mãos nos reservam.

Quer ver?
— Me dê dois cruzeiros que eu mostro — disse a vizinha.
O menino mexeu na caixa de miudezas da mãe e furtou o dinheiro.
Quando ela levantou a saia, ele arregalou os olhos. Jamais vira assim, tão de perto.
Esticou a mão e a vizinha recuou:
— Pra pegar é cinco!
O menino não tinha. Na caixinha também não.

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