Luis Pimentel: Espinhoso e delicioso ofício de escrever

Quero dizer que da página que foi escrita não deve pingar nenhuma palavra, a não ser as desnecessárias

Por daniela.lima

Luis Pimentel%3A Espinhoso e delicioso ofício de escreverDivulgação

Rio - Brindando a abertura de mais uma Flip, a festa literária que anualmente transforma a nossa linda Paraty em capital mundial da cultura, ofereço esta crônica a todos aqueles que têm o hábito de escrever. Seja por obrigação (jornalistas), devoção (escritores) ou curtição (amadores e diletantes).
Pincei e ofereço graciosamente três dicas primorosas, de três gigantes da palavra (em prosa e em verso): o patrício e mestre absoluto Graciliano Ramos, o mexicano Juan Rulfo e o nosso poeta João Cabral de Melo Neto. 

Vamos primeiro ao bom e velho Graça, que disse assim: “Quem escreve deve ter cuidado para a coisa não sair molhada. Quero dizer que da página que foi escrita não deve pingar nenhuma palavra, a não ser as desnecessárias. É como pano lavado que se estira no varal. Naquela maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lava. Molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham­no novamente, voltam a torcer. Depois colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Depois batem o pano na laje ou na pedra limpa e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar com ouro falso, a palavra foi feita para dizer.”

E a dica de Rulfo, o autor do fundamental romance ‘Pedro Páramo’ e do volume de contos ‘Chão em Chamas’, ambos traduzidos divinamente aqui por Eric Nepomuceno:

“No começo, você deve escrever levado pelo vento, até sentir que está voando. A partir daí, o ritmo e a atmosfera se desenham sozinhos. É só seguir o voo. Quando você achar que chegou aonde queria chegar, é que começa o verdadeiro trabalho: cortar, cortar muito.”
É só isso. Parece fácil, não é?

E vamos à receita deliciosa de João Cabral, para fechar a crônica e abrir o dia com poesia:
“Catar feijão se limita com escrever: joga­se os grãos na água do alguidar e as palavras na folha de papel; e depois, joga­se fora o que boiar. Certo, toda palavra boiará no papel, água congelada, por chumbo seu verbo: pois para catar feijão, soprar nele, e jogar fora o leve e oco, palha e eco.”

Então, é isso. Fica combinado que o leve, o oco, a palha e o eco não servem para nada mesmo; nem na panela nem no papel.

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A partir de amanhã e até a edição de domingo estarei acompanhando de pertinho a Festa Literária de Paraty, de onde enviarei informações frescas para os leitores deste jornal.

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