Luiz Antonio Simas: Senhoras Rezadeiras

Cresci ouvindo falar de gente com espinhela caída, nervo torcido, quebranto, urina presa e furúnculos

Por clarissa.sardenberg

Rio - No inventário das minhas recordações de infância, um capítulo especial deve ser dedicado às mazelas da saúde, doenças estranhas e maneiras de curar que, de forma geral, desapareceram do mapa ou hoje foram relegadas ao campo das crendices populares e superstições.

Minha avó, por exemplo, alertava as mulheres grávidas sobre certo “mal de sete dias” que podia atingir os bebês. Ela garantia que, no sétimo dia de vida, era prudente deixar o recém-nascido longe da luz e vesti-lo de vermelho para afastar qualquer tipo de malefício, sobretudo de inflamação no umbigo. A roupinha vermelha do recém-nascido era tiro e queda para preservar a saúde nos primeiros dias.

O ventre virado era outro clássico. Jogar a criança para cima era considerado (e acho que é mesmo) um negócio perigosíssimo, dentre outras coisas porque podia virar o bucho do bebê e gerar vômitos, convulsões e outros problemas. Sabe qual era a receita das avós para curar isso? Simples: colocar a criança de cabeça para baixo para que o ventre voltasse ao lugar.

O cobreiro também não era mole. Bastavam aparecer as vermelhidões e coceiras na pele que o diagnóstico era preciso: o que causava a ziquizira (daí o nome popular) era o contato com roupas onde uma cobra ou outro bicho de peçonha pudesse ter passado.

A coisa não parava por aí. Cresci ouvindo falar de gente com espinhela caída, nervo torcido, quebranto, urina presa e furúnculos nos mais variados lugares do corpo, que deveriam ser tratados, pelo menos lá em casa era assim, com emplastos de farinha untada com óleo de mamona ou com folhas de saião. Essa era uma receita caseira das mais famosas, concorrendo com a dica de que lavar os pés com mijo de criança evitava o chulé.

Registre-se que a melhor forma de afastar essas urucas era mesmo tendo uma boa rezadeira por perto. Sabedoras de rezas ancestrais, herdadas do catolicismo popular português e passadas entre gerações da família, as bondosas rezadeiras faziam verdadeiros milagres com seus galhos de arruda, vassourinha, guiné, espada-de-são-jorge e fedegoso.

Eu mesmo me curei de uns calombos na cabeça, gerados pelo parto a fórceps, com fumaça de cachimbo de preta velha e as jaculatórias benfazejas sussurradas pela minha avó Deda, que sabia dos segredos do benzimento.

Afinal de contas, como diziam as avós, Jesus Cristo, quando andou no mundo, três coisas levantou: arca, vento e espinhela caída. E quando entrou em Roma, em romaria, foi benzendo cobra, cobreiro, cobraria. Adepto do encantamento da vida, eu é que não duvido.



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