Por karilayn.areias

Rio - Pense em Wagner Moura e Selton Mello, dois dos mais respeitados atores desta geração, atuando no mesmo filme. Adicione Martin Sheen (‘O Espetacular Homem-Aranha’) e Rooney Mara (de ‘Os Homens Que Não Amavam as Mulheres’). Na direção, ninguém menos que o inglês Stephen Daldry (de sucessos como ‘Billy Elliot’, ‘As Horas’, ‘O Leitor’ e ‘Tão forte, Tão Perto’). Para completar, três meninos de 15 anos, desconhecidos, que nunca atuaram, mas roubam a cena desses gigantes. Essa é a receita de ‘Trash — A Esperança Vem do Lixo’, que chega hoje às salas de todo o país.

Selton Mello com os meninos Eduardo Luis (dir) e Gabriel Weinstein (esq). Divulgação

O filme conta a história de Raphael (Rickson Tevez), Gardo (Eduardo Luis) e Rato (Gabriel Weinstein), jovens que vivem em um lixão no Rio de Janeiro e, um dia, encontram uma carteira. O objeto, porém, é a peça-chave de uma trama que envolve dinheiro e poder e os três acabam, sem querer, entrando em uma aventura arriscada, que envolve o misterioso José Angelo (Wagner Moura) e o policial corrupto Frederico (Selton Mello). Durante a saga, contam com a ajuda do pastor inglês Julliard (Martin Sheen) e da professora de inglês Olivia (Rooney Mara), que trabalham junto à comunidade carente.

Baseado no livro homônimo do inglês Andy Mulligan, o thriller foi adaptado para a realidade brasileira, mas sem cair em clichês. “Tentei fazer com que o filme soasse verdadeiro para o público brasileiro, que tivesse as cores e sabores do país, mas que ao mesmo tempo fosse compreensível para o resto do mundo”, explica Daldry, que morou no Brasil por um ano para entender o país e chegou a ir às manifestações do ano passado sozinho.

O cuidado detalhista do diretor com a produção e os atores é lembrado pelo elenco, que não poupa elogios. “Eu andava me sentindo muito desestimulado como ator e o Daldry me fez sentir de novo aquele tesão em atuar. Sou muito fã do cara. Ele contava das gravações com a Meryl Streep, Juliane Moore, Nicole Kidman e eu ficava ouvindo de tiete”, conta Selton Mello. Wagner Moura, que está com alguns quilos a mais e um permanente no cabelo para viver o traficante colombiano Pablo Escobar em série dirigida por José Padilha, engrossa o coro. “Ele tem muita sensibilidade e é muito musical, regia as cenas gesticulando como se estivesse regendo uma orquestra e, mesmo sem saber português, identificava pelo tom se aquilo estava como deveria estar”, afirma o ator.

As mazelas brasileiras, como a corrupção política e a violência policial (com direito a cenas de tortura) são trazidas à telona, mas esqueça ‘Tropa de Elite’: embora o filme tenha um viés político, o foco está na aventura dos meninos para solucionar o mistério da carteira. A atuação espontânea dos adolescentes, que foram achados por meio de testes em comunidades da cidade, garante mais leveza à trama.

Wagner Moura no papel de José Angelo%3A personagem guia os meninos Divulgação

“Eu estava jogando bola na Rocinha, onde moro, aí veio uma mulher falando de um teste e eu dei meu nome, todo animado, achando que era pra jogar bola, mas aí era pra fazer o filme e eu fui”, conta Rickson Tevez, com a simplicidade de quem não entende ainda que estará nos cinemas do mundo todo. “Foi tudo muito bom, eles (os atores) eram muito legais com a gente”, diz Gabriel Weinstein, morador da Cidade de Deus.

Para Selton Mello, a troca com os meninos foi parte essencial do processo. “Por não serem atores, eles não têm os recursos de interpretação de um ator. Isso era um desafio, eu tinha que ficar sempre atento a eles, perceber como eles chegavam para mim, para ver como eu iria responder àquilo”, afirma ele.

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