Por tabata.uchoa
Não segui carreira no setor da coquetelaria%2C prefiro ficar mesmo na cervejinha básicaAgência O Dia

Rio - A palavra coquetel deriva da expressão inglesa cocktail. Meu velho avô preferia traduzir na lata e chamar a mistura de destilados e fermentados por um nome mais conveniente aos botequins brasileiros: Rabo de Galo; já que cock é galo e tail é rabo em inglês.

Os coquetéis eram comuns na Idade Média, na época do Natal, quando se misturavam passas e frutas secas aos destilados e vinhos. Há quem afirme que se popularizaram nos Estados Unidos, durante a Lei Seca da década de 1920. Misturar era uma maneira de amenizar o gosto terrível das bebidas produzidas clandestinamente e dar um migué nas autoridades, fingindo que os birinaites eram outra coisa.

O Bode Cheiroso, botequim que frequento, faz um coquetel perigosíssimo à base de conhaque de alcatrão e ingredientes secretos. O drinque costuma derrubar as bastilhas mais vigorosas e é popularmente conhecido como Chá de Macaco.

Dizem que um sujeito que misturava coisas impressionantes era o compositor Ismael Silva. O bamba do Estácio fazia alquimias absolutamente inusitadas nas biroscas da Maia Lacerda; o trivial para ele era misturar conhaque, cachaça e cerveja quente e mandar pra dentro com a dignidade de um mestre-sala.

A minha experiência mais marcante no assunto aconteceu na casa de uma antiga namorada, numa véspera de Natal. Família reunida, acepipes diversos e muita birita, de todos os tipos e cores. Nesse momentoso quesito, um dos tios da moça produzia artesanalmente um licor de ovo de codorna. Fui, evidentemente, instado a experimentar a bebida.

Não podia recusar, seria uma desfeita tremenda. Na dúvida, prendi a respiração e tomei tudo numa talagada só. Não me recordo de ter bebido coisa pior. O tio, entusiasmado com a rapidez com que liquidei a fatura, concluiu que eu tinha amado o licor e foi enchendo meu copo.

Percebi, apavorado, que teria que tomar licor de ovo a noite inteira. Em desespero de causa, resolvi misturar, com a maior discrição, licor e cerveja, pra ver se atenuava o gosto. Não deu certo. Por via das dúvidas, ao partir para a terceira dose, coloquei, sem que ninguém percebesse, um pouco de vinho para eliminar de vez o futum daquele troço. Fracassei. A quarta dose exigiu, além da cerveja e do vinho, conhaque de alcatrão São João da Barra e creme de cebolinha. Acreditem: finalmente ficou uma beleza.

Não obstante, não segui carreira no setor da coquetelaria e, sem pendor para grandes aventuras, prefiro ficar mesmo na cervejinha básica. O restaurante que serve farofa não liga ventilador de teto. Sei reconhecer as minhas limitações.

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