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João Pimentel: As férias do pequeno João

Percebi que a presença de um pedaço da minha família por aqui me fez turistar pela minha própria cidade

Por daniela.lima

João Pimentel%3A As férias do pequeno JoãoDivulgação

Rio - Foi amor à primeira vista. Também não era difícil. Além da família e dos dois padrinhos, no caso minha mãe e seu marido, Cesar, a única novidade mais parecida com uma criança em sua primeira visita ao Rio de Janeiro era eu mesmo. Não pela minha idade, claro, mas talvez pelo meu lado lúdico, criança, que tento manter firme diante das coisas. Tá bom, tem um nome adulto para isso: infantilidade. Mas o mundo adulto traz muita coisa errada, então deixo isso para lá.

Só sei que, ao me ver, aquela criaturinha vestindo camisa e boné amarelos com a figura de um mínion, aqueles ajudantes sensacionais da animação ‘Meu Malvado Favorito’, correu, todo suado, desajeitado para me dar um abraço carinhoso.

— Você é o Janjão? Você é o meu primo? Você gosta de Mario Kart? Você é que vai levar a gente para passear?
Depois de tantas questões, às quais respondi afirmativamente, ele olhou com um sorriso lindo tipo perguntando: “Qual o primeiro passo?”
Piscina — não titubeei, lembrando da piscininha da casa da minha mãe. Eu precisava de tempo para pensar. Passamos o dia ali, nos conhecendo.

João é filho de uma prima, Maria, que só agora tive o prazer de conhecer melhor, pois ela é de Manaus e, atualmente, mora em Brasília. Nos tempos em que vivi na capital amazonense, ela ainda era bem criança. Como a minha tia Graça viria passar as festas de fim de ano por aqui, ela e o marido Eduardo resolveram conhecer o Rio, com os filhos: o já citado Joãozinho e Duda, apelido de Maria Eduarda.

João tem 7 anos; Duda, 16, o que tornou a programação turística muito mais voltada para o moleque do que para a moça, que, nos momentos mais confusos, sacava um livro e partia para outra dimensão. Inteligente, porque uma viagem em grupo, seja familiar ou não, é sempre caótica.
Na noite de Natal, João ficou perdido entre um monte de adultos. Sabendo ele que minha namorada, Mara, chegaria depois de meia-noite, toda mulher que surgia na frente dele vinha acompanhada da pergunta: “É ela?”

Mara chegou e sugeriu que fôssemos, algum dia, ao cinema.
— Podemos comer pipoca!
— Oba! Mas é um saco para cada um, tá, tia? — perguntou, revelando uma faceta que mais tarde nos surpreenderia, a capacidade de comer tudo que havia pela frente.
No amigo oculto, ficou com uma caneca de água, mas não ficou triste, porque o joguinho que ele queria estava lá na árvore. E foi entre curvas impossíveis, tartarugas voadoras, bolas de fogo e cenários surrealistas que terminamos a noite natalina.

No dia seguinte, depois de um passeio de trenzinho, cometi o deslize de sugerir que subíssemos as escadarias do Cristo a pé. Ao chegar lá em cima, vermelho, suado e irritado, Joãozinho empacou. Sentou aos pés do Redentor e se recusou a fazer fotos, olhar a vista da cidade, enquanto aproveitávamos o passeio. Já sacando melhor o meu pequeno xará, falei a palavra mágica: “Picolé!” E ele voltou à comitiva.
No dia seguinte, Pão de Açúcar. Chegamos atrasados, eu e Mara, e ele veio correndo.

— Ufa, ele perguntou se você vinha, porque diz que só tem graça quando você está — disse minha prima. Ele sorriu, com sua surrada camiseta amarela, já com detalhes em vermelho e marrom, resquícios de alguns sorvetes, que depois do meu elogio virou protagonista de seu modesto guarda-roupa.
— Primo, mais tarde vamos jogar Mario Kart, já treinei, estou bem melhor. Minha irmã foi lá ver um tal de almirante (na verdade, foi ver a vista do mirante), meus pais também, vamos tomar sorvete? No dia seguinte, fomos ao cinema, assistir a um tal ‘Operação Big Hero’. Na saída, ninguém havia gostado do filme, exceto, evidentemente, nós, os dois Joões.

Viajei nos últimos dias do ano que se foi e deixei minha turminha no Rio. Percebi, já na estrada, que a presença de um pedaço da minha família por aqui me fez turistar pela minha própria cidade, olhar para o próprio umbigo carioca com o deslumbramento de um visitante, e isso é bom demais. Deveríamos fazer isso com mais frequência para termos um pouco de esperança, para olharmos para o que vale na nossa cidade para além de políticos, empreiteiros, interesseiros e bandidos, fardados ou não.

Não é possível que não haja jeito. Deve ter uma maneira de gritarmos “picolé” e as coisas voltarem ao seu lugar.
Já sentindo saudade do meu mais novo pequeno primo, faço que nem Gonzaguinha, fico com a pureza da resposta das crianças.

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