‘Cassino do Chacrinha’ vira festa numa onda que resgata o Velho Guerreiro

Festa 'Discoteca do Chacrinha' leva quatro astros do programa e o assistente de palco Russo ao Circo Voador

Por tabata.uchoa

Rio - O animador Abelardo ‘Chacrinha’ Barbosa (1917-1988) virou febre. Musical, biografia (ambos levando o nome do apresentador no título) e até reprises do antigo ‘Cassino do Chacrinha’ no Canal Viva trataram de apresentá-lo para as novas gerações. E a alegria dos anos 70 e 80 retorna sábado ao Circo Voador na festa ‘Discoteca do Chacrinha’, que traz quatro astros do programa (Sylvinho, Byafra, Rosana e Sergio Mallandro) e o antigo assistente do Velho Guerreiro, Russo, que ajuda no palco e até joga bacalhau para a plateia.

Ivni (E)%2C Paola%2C Byafra%2C Beto%2C Sylvinho%2C Mariana e Deborah no palco do João CaetanoFernando Souza / Agência O Dia

O evento tem também chacretes e show de calouros, com troféu abacaxi para os piores da noite e aplausos para os futuros astros — quem quiser participar, é só se inscrever na página do Facebook do evento. Beto Vandesteen, substituto de Stepan Nercessian, que interpreta Chacrinha em ‘Chacrinha — O Musical’, comanda a massa vestido como o apresentador. No momento em que a reportagem do DIA foi ao Teatro João Caetano (onde está sendo exibida a peça) fazer uma foto da turma, o barulho da buzina fazia todos gargalharem, incluindo repórter e fotógrafo. “Parece um peido, né?”, disse alguém, provocando risos.

“Eu tinha 9 anos quando Chacrinha morreu, mas lembro de muita coisa. Tô ansioso para dar minhas primeiras buzinadas e entregar o troféu abacaxi. E todo mundo tem que ser aplaudido, porque subir no palco para cantar é um ato de coragem, né?”, diz Beto, ladeado pelas belas chacretes que embelezam a noite, as dançarinas Paola Polini, 22, Ivni Freitas, 27, Mariana Gomes, 26, e Deborah Polistchuck, 27.

A antiga comunidade do Orkut ‘Encosto de Chacrete’, criada para quem não podia ouvir uma música que saía dançando, parece ter sido feita de encomenda para as meninas. Um hip hop tocado por um DJ para preparar o elenco do musical — que ensaiava no teatro — já fez as quatro se mexerem. “Vamos levar alegria, beleza e charme para a festa!”, diz a sorridente Ivni.

O DJ e produtor Luciano Vianna, criador da festa ‘Ploc 80’, organizou o evento a pedido da Aventura Produções (que faz o musical) e diz aguardar lá a geração que conheceu Chacrinha pelas reprises do Canal Viva. “Esse pessoal está hoje vendo o quanto o programa era bom!”, diz Luciano.
Ex-colegas de programa, Byafra (que prepara DVD para breve) e Sylvinho Blau Blau ainda são amigos. Dividem até o mesmo empresário, além de memórias bem legais da época.

“Era um batismo entrar naquele palco! Eu era tímido, mas o Chacrinha me jogava para cima das fãs. E ainda ria da minha cara. Ele era sempre a mesma pessoa, dentro e fora do palco. Mas era um cara imprevisível, a gente nunca sabia qual era a loucura!”, diz Byafra. O pepino e a mandioca do ‘Beafra’ (como Chacrinha o chamava) eram oferecidos diversas vezes ao público. “Quando o Chacrinha queria sacanear alguém, falava: ‘Primeiro lugar no Acre: fulano’. Comigo ele era como um pai ou avô.” Sylvinho lembra que os shows do Chacrinha eram uma alegria só, com fãs animadíssimas rasgando as roupas dos ídolos. “A gente ficava nervosíssimo. E o Chacrinha se cagava de nervoso, mais que todo mundo”, conta.

Nos camarins, ficava todo mundo junto. “Eu era amigo do Cazuza, o encontrava muito nos bastidores do ‘Cassino’. Ele era como o Tim Maia: sóbrio era um doce de pessoa, já doidão...”, lembra Sylvinho, que certa vez teve um desentendimento com os Paralamas do Sucesso nos camarins, quando ouviu Herbert Vianna falando mal de sua ex-banda, o Absyntho. “Isso era coisa de jovem. Hoje a gente se encontra por aí, se abraça. Pô, os caras eram feios pra c... e eu era galã. ‘Ursinho Blau-Blau’ estava estourado. Daí rolavam essas babaquices. Mas isso era fruto de muita maconha e muito sucesso”, brinca.

BIOGRAFIA DE CHACRINHA CHEGA ÀS LIVRARIAS 

Por Leandro Souto Maior

Até Roberto Carlos concedeu cinco horas de seu tempo para ajudar a compor a história. Procure saber: o cantor é muito grato a Chacrinha, que o coroou Rei da Juventude em 1966 e, por isso, até hoje ele é Rei. Mas, além disso, ‘Chacrinha — A Biografia’ (ed. Casa da Palavra, 367 págs., R$ 39,90) é autorizada por Leleco, filho de Abelardo Barbosa (1917-1988).

“Mas tudo que escrevi foi mantido”, garante Denilson Monteiro, que assina a publicação. “Muita gente acha que biografia é fofoca, mas o que fazemos é um documento histórico, fruto de um trabalho árduo”.
Denilson é autor também das biografias de Carlos Imperial e Ronaldo Bôscoli, outras figuraças da cultura brasileira. Para a realização de ‘Chacrinha’, foram mais de 60 entrevistas, trabalho que ele concluiu a partir de uma pesquisa inicial do escritor e roteirista Eduardo Nassife. “Peguei o material que ele tinha pesquisado e fui atrás de mais. Faltava a Era do Rádio, por exemplo, e estou fazendo um livro sobre esse assunto”.

O que mais o surpreendeu nas pesquisas foi descobrir o nervosismo que Chacrinha tinha ao entrar no palco. “Quem poderia imaginar que aquele mestre da apresentação tinha que tomar Imosec (remédio para dor de barriga) para não causar vexame no palco de tanta insegurança? E, assim que terminava o programa, ele corria para saber qual tinha sido o índice de audiência. Ele morria de medo do fracasso”, conta o autor.

Entre os causos engraçados do livro, está o dia em que Chacrinha mandou Russo agarrar o nervoso Tim Maia pela cintura — o cantor ficou uma fera e deixou o palco. “Esse Russo é um filho da p*! Ele tá pensando que sou veado? Porra, a minha mãe tá em casa me assistindo!”, esbravejou Tim. “O Chacrinha transformou a televisão em uma coisa dinâmica, rápida. Ele andava de um lado para o outro e não obedecia o câmera. Era o câmera que tinha que obedecê-lo. O Faustão pegou um pouco disso”, decreta Denilson, concordando que Chacrinha voltou à moda.

“Não sei se é uma coincidência, ou se estão mesmo fazendo um ‘blitzkrieg’!”, brinca Denilson, citando o termo alemão para ‘guerra-relâmpago’, uma estratégia militar que consistia em ataques rápidos e de surpresa. “É aquilo, né? Assista à peça e depois pegue mais informações lendo o livro”.

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