Ricardo Cota: 'Timbuktu' corre por fora no Oscar

As motivações que levaram ‘Timbuktu’ a crescer na bolsa de apostas se devem ao recente atentado ao ‘Charlie Hebdo’

Por daniela.lima

Cena do longa ‘Timbuktu’%2C que concorre a Melhor Filme EstrangeiroReprodução

Rio - Há boas razões para acreditar que ‘Timbuktu’, do cineasta da Mauritânia Abderrahmane Sissako, pode surpreender na acirrada disputa ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O filme concorre com o russo ‘Leviatã’, de Andrey Zvyagintsev, vencedor do Globo de Ouro, o polonês ‘Ida’, dirigido por Pawel Pawlikowski, bastante conceituado pela crítica, e o fenômeno ‘Relatos Selvagens’, de Damián Szifrón, que entrou para a história como a maior bilheteria do cinema argentino.

A disputa se torna acirrada, diante da diversidade de estilos. ‘Ida’ remete aos clássicos do cinema polonês dos anos 60, como ‘Madre Joana dos Anjos’, de Jerzy Kawalerowicz. ‘Leviatã’, por sua vez, conjuga uma ácida crítica à corrupção na Rússia contemporânea com uma temporalidade que lembra a dos filmes de Andrei Tarkovsky. Já ‘Relatos Selvagens’ destaca-se pela capacidade de comunicação direta, através de histórias curtas cujo alvo são as contradições sociais, políticas e comportamentais do mundo moderno.

As motivações que levaram ‘Timbuktu’ a crescer na bolsa de apostas se devem ao recente atentado à redação do ‘Charlie Hebdo’, na França, que despertou os olhos do mundo inteiro para o tema do fundamentalismo e suas ações extremistas. Na entrega do Globo de Ouro, por exemplo, Jared Leto, fez questão de reforçar a importância do tema ao citar a palavra de ordem ‘Je suis Charlie’, que varreu o mundo inteiro.

Mas ‘Timbuktu’, para além de suas possibilidades extratela, é um grande filme, que afirma Sissako, vencedor do prêmio Fipresci da mostra Un Certain Regard em 2002, com ‘Esperando a Felicidade’, como um cineasta cuja carreira se consolida a cada obra. Sem o tom documental do anterior ‘Bamako’, ‘Timbuktu’ possui uma narrativa cíclica baseada na rotina de terror vivida por um território ocupado por religiosos fundamentalistas contrários a um Islã mais aberto e tolerante.

O roteiro, que se divide em pelo menos três núcleos, foca na intervenção dos fundamentalistas radicais no cotidiano dos moradores de ‘Timbuktu’. Um modesto criador de gado que mata acidentalmente um pescador, uma mulher que se recusa a usar luvas para vender peixes e outra condenada a chicotadas pelo simples ato de cantar são algumas das vítimas de um regime marcado pela intolerância. Mas engana-se quem vê no material o caminho para uma abordagem direta e panfletária.

‘Timbuktu’ destaca-se pela narrativa seca, marcada por silêncios, longos planos e introspecção, em que o flagrante da violência pode estar tanto na condenação brutal dos protagonistas quanto em pequenas trocas de olhares, que revelam o mais íntimo sofrimento de homens e mulheres. O cineasta também foge da condenação moral evidente ao inserir na trama um personagem dividido entre as perspectivas do islamismo. Um personagem que observa, fuma às escondidas e até mesmo flerta com o tai chi chuan. Ele duvida, mas não brinca com a palavra divina. Abderrahmane Sissako, anotem, pode ser a grande surpresa do Oscar 2015.

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