Disco póstumo de Gonzaguinha mostra grandeza da obra do cantor

Trabalho conta com duetos virtuais, com nomes como Ana Carolina e Maria Rita, e soa natural

Por clarissa.sardenberg

Rio - A permanência da obra de Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior (22 de setembro de 1945 - 29 de abril de 1991) na memória nacional é a maior prova da grandeza eterna do cancioneiro desse compositor carioca que caiu no samba com consciência política e falou de amor com (rara) sensibilidade em canções de beleza melódica. Gonzaguinha, como o cantor era conhecido pelo Brasil, foi do rancor à ternura em sua obra. ‘Gonzaguinha presente — Duetos’, disco póstumo que festeja os 70 anos que o artista faria amanhã se não tivesse saído de cena há 24 anos em acidente de carro, reitera a grandeza dessa obra ao apresentar 14 duetos virtuais de Gonzaguinha .

Discos do gênero soam geralmente forçados. Mas o CD produzido por Miguel Plopschi para a gravadora Universal Music se impõe como exceção da regra. Os duetos resultam naturais e nunca parecem forjados pela tecnologia digital. Já na faixa que abre o disco — ‘O que é o que é’ (1982), samba ouvido nas vozes de Gonzaguinha e Alexandre Pires — tal naturalidade salta aos ouvidos. Bom cantor, Pires cai à vontade no samba.

O carioca Gonzaguinha (1945-1991)%2C visto no traço de Elifas Andreato%2C completaria amanhã 70 anos de vidaDivulgação

E por falar em samba, Zeca Pagodinho também está em casa no dueto virtual com Gonzaguinha em ‘E vamos à luta’, samba ambientado em clima de gafieira. ‘E vamos à luta’ é o samba que batizou o álbum lançado em 1980 por Alcione, convidada de ‘Ponto de interrogação’, outro tema de 1980. Nesta canção sobre sexo, escrita sob ótica masculina para questionar os homens que ignoram as necessidades e carências de suas mulheres na cama, Gonzaguinha mostrou habilidade para falar para a massa com linguagem direta.

Embora a seleção de convidados ignore cantoras como Maria Bethânia e Simone, fundamentais para a popularização da obra do compositor a partir da segunda metade dos anos 1970, as escolhas dos cantores resultam quase sempre satisfatórias. A dupla Victor & Leo, por exemplo, se ajusta ao tom de ‘Espere por mim, morena’ (1976), canção que tem algo das toadas interioranas.

Em contrapartida, a escolha de Ivete Sangalo para interpretar ‘Sangrando’ (1980) soa inadequada. Ivete dilui a força da canção. Celebração do canto intenso, ‘Sangrando’ é tema talhado para vozes passionais como a de Ana Carolina. A propósito, Ana figura no disco como boa intérprete de ‘Não dá mais para segurar (Explode coração)’, canção de 1978, lançada com sucesso nacional por Maria Bethânia. O tema ganha toque de samba.

Bethânia também foi a intérprete original de ‘Grito de alerta’ (1979), canção ora ouvida em dueto de Gonzaguinha com Maria Rita (cantora que já fez show no festival ‘Rock in Rio’ com músicas do compositor e que já cogitou a hipótese de gravar disco com a obra de Gonzaguinha). Maria Rita acerta o tom de ‘Grito de alerta’, sem cair no drama.

Ainda dentro do romantismo que pauta parte do cancioneiro do compositor, há o duo de Gonzaguinha e Gilberto Gil em ‘Lindo lago do amor’ (1984). Pontuada pela gaita de Stanley Neto, a gravação tem leveza zen condizente com o temperamento de Gil.

A seleção de repertório ignora o rancor da obra de Gonzaguinha. Títulos como ‘Feliz’ (com Fagner) e ‘Com a perna no mundo’ (samba com Martinho da Vila) evidenciam a alegria do grande compositor.

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