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João Pimentel: O sexo segundo Gilberto Coelho

Feliz ano novo e um país mais sério para todos nós

Por tabata.uchoa

Rio - Ela olhou para a nova aquisição da minha modesta casinha na roça e perguntou: “qual o nome dele?”. Eu sem saber bem o porquê disse: “Gilberto”. A partir daí, esse ficou sendo mesmo o nome daquele coelho fofinho que virou o xodó da minha afilhada Elena. Joel e Jane, os donos do meu barraco, arrumaram para ele um espaço dentro do galinheiro. O bicho foi crescendo e, por ideia do meu compadre Fábio, ganhou uma rampa de madeira para, nos dias de chuva, ter como correr para seu abrigo sem necessidade de ajuda.

O tempo foi passando e Gilberto Coelho, este virou seu sobrenome, sabe-se lá por que razão, talvez pela mais completa solidão, se encantou por uma das penosas. Ela não tinha nome — aliás, as galinhas são as únicas que não têm identidade no meio da bicharada tratada a pão de ló pela Jane — não era muito diferente de suas semelhantes, mas foi a escolhida por aquela espécie de ET de galinheiro para ser sua amante.

Então, no último domingo deste ano de 2015, que insiste em não terminar, aconteceu a tragédia no meu microcosmo animal. Gilberto Coelho resolveu que não entraria 2016 inocente, virgem, e partiu para o ato em plena luz do dia, diante de uma plateia que cacarejava, não sabemos se por desespero ou por luxúria. A galinhada deixou até de comer a couve verdinha recém-colhida pela minha amiga.

O resultado foi tão estapafúrdio quanto a ideia de se criar um coelho dentro de um galinheiro. A pobrezinha não suportou o assédio e, tampouco, o peso do bicho: no “embate”, crec, sua coluna — galinhas têm coluna? — partiu. E lá ficou aquele pequeno monte de penas estatelado na terra batida.

Jane, uma espécie de São Francisco de Lumiar, sofreu, ficou com muita raiva do coelhinho e com dó da galinha sem nome. Provavelmente, pensou em fazer um guisado do Gilberto, mas achou por bem esperar até o dia seguinte em busca de um milagre que livrasse a cara da galinha.

“Joana”, perguntei, em meio à confusão, para a filha da Jane: “O que vocês vão fazer da galinha? Uma canja?”

“Claro que não, a gente vai enterrar, sei lá.”

“Mas como vocês vão fazer um enterro de uma galinha que não tem nem um nome?”

“Em último caso a gente batiza na hora.”

Então, eu olhei em volta e percebi que no mundo animal onde finquei pé há mais de dez anos, cachorros vira-latas, gatos, passarinhos, vacas, galinhas e até o Gilberto Coelho convivem harmoniosamente, cada um defendendo como dá o seu espaço. Até quando acontece uma tragédia bizarra como a da recém-falecida, não há maldade, apenas, digamos, pequenos desentendimentos.

Se não o nosso galinhocida, mas que ao menos os outros bichos desse universo nos ensinem neste próximo ano que devemos respeitar as diferenças, compreender que galinha é galinha e coelho é coelho e que o amor nem sempre quebra colunas. Feliz ano novo e um país mais sério para todos nós. 

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