
Rio - Lançando novo CD de inéditas, 'Ser Tão', Moraes Moreira, 71 anos, é um cara do tempo em que disco era um documento extremamente respeitável. "E hoje não tem nem mais loja de disco!", espanta-se.
"Rapaz, quando botei meu primeiro disco na mão ('Moraes Moreira', lançado pela Som Livre em 1975) foi fantástico. Naquele tempo, gravar disco era uma coisa pra poucos, era algo como: 'Pô, o cara gravou o disco, então é um p... artista!'. Hoje se perdeu um pouco essa nobreza do disco", conta Moraes, que já passou por praticamente todas as multinacionais e hoje está na Discobertas, do pesquisador musical Marcelo Froes.
"Antigamente, eu chegava em Pernambuco e já tinha três caras da gravadora lá: um pra me levar pro hotel, outro pra rádio, outro pra noite de autógrafos. Hoje tem disco ainda, mas onde a gente vai vender? Felizmente, o que não acabou foi a música", diz o cantor, que também falou sobre rádio em 'Nas Paradas'. O rádio já fez parte da obra de Moraes em músicas como 'Sintonia' ("escute essa canção/que é pra tocar no rádio") e 'Alto-Falante'. "Eu ouvia Luiz Gonzaga no alto-falante da praça, na minha terra (Ituaçu, cidade de cerca de 18 mil habitantes, no interior da Bahia). As pessoas iam no serviço, uma cabinezinha, e deixavam bilhetes, pediam música. Tinha paquera: 'Quero dedicar essa música para a moça do vestido azul'", conta.
GONZAGÃO NO DISCO
Moraes vem dividindo seu tempo em três partes: carreira solo, com shows constantes; a turnê dos Novos Baianos, que já rendeu disco ao vivo e terá álbum de inéditas ("para o fim de 2019, começo de 2020", diz o cantor); e o lançamento de livros. Em 2016 saiu 'Poeta Não Tem Idade', dividido entre poesias e versos de cordel. A produção literária influenciou 'Ser Tão', disco que traz Moraes cantando e também recitando versos, em faixas como 'O Nordestino do Século' (homenagem a Luiz Gonzaga) e 'Alvorada dos Setenta' (lembrando as sete décadas completadas no ano passado). Para simbolizar essa mudança, 'Ser Tão' abre com 'De Cantor Pra Cantador'.
"O cantador é compromissado com as coisas da cultura popular. É como o Xangai, que eu até brinquei uma vez que ele é cantador, não apenas cantor", diz, citando o parceiro de artistas como Elomar. O que andou confundindo alguns fãs foi 'I am the Captain Of My Soul', o primeiro single do disco. Ué, Moraes Moreira cantando em inglês?
"Não, não, só o nome da música é que aparece em inglês num verso", conta Moraes, que se inspirou no poema 'Invictus', do inglês William Ernest Henley. A música é um blues-country, aludindo ao sertão americano. "É um poema que Nelson Mandela lia muito na cadeia, 'aconteça o que acontecer, eu sou o comandante da minha alma'", conta Moraes. "Tem quem ache que o cordel é invenção de brasileiro. E tem quem veja cordel até em Camões, Shakespeare. Pus logo as duas visões no disco", conta o cantor, que para a 'Alvorada', voltou-se para a inspiração de um antigo hit seu, 'Festa do Interior'. "As alvoradas são as festas de lá, em que uma banda de música acorda a cidade às 4h tocando dobrados", relembra.
JOÃO GILBERTO
Em 1972, quando ocupavam um apartamento em Botafogo, os Novos Baianos receberam a visita do pai da bossa nova, João Gilberto. O cantor foi a inspiração para o segundo (e clássico) disco do grupo, 'Acabou Chorare', daquele ano. Hoje, o inspirador de Moraes passa por problemas financeiros e de saúde. "João não merecia isso. Não tenho tido contato com ele, mas torço para ver notícias boas", diz Moraes, lembrando que João apresentou ao grupo aquele que seria um de seus maiores hits, 'Brasil Pandeiro', de Assis Valente.
"Tem quem pense que a música é nossa!", espanta-se. "O João ouviu 'Dê Um Rolê', uma música nossa que é bem roqueira, e falou: 'Tudo bem, tá bonito, mas vocês precisam olhar mais para dentro de vocês'. E aí misturamos os sons do Brasil com rock. Quando vi Chico Science e Nação Zumbi, falei: 'Aí tem uma coisa que parece Novos Baianos'. Era tradição e modernidade", conta.












