O cantor Jair Rodrigues  durante ensaio para show - Divulgação
O cantor Jair Rodrigues durante ensaio para showDivulgação
Por *Aline da Mata

Rio - O cantor Jair Rodrigues, morto em 2014, completaria 80 anos de idade e 55 anos de carreira este ano. Para celebrar a data, os filhos Jair Oliveira e Luciana Mello decidiram fazer uma série de homenagens à trajetória musical do pai. O público vai desfrutar de shows em tributo a carreira do cantor, e dois documentários que exploram sua musicalidade e influência serão lançados. O primeiro, “Deixa que digam", dirigido por Rubens Rewald, pretende mostrar a música na vida do intérprete e a alegria de viver que ele exibia como nenhum outro cantor. "Jairzão - O Documentário" será dirigido por Alexandre Sorriso e tem a colaboração dos filhos no resgate de histórias íntimas e familiares.

Jair Rodrigues nasceu em Igarapava e foi levado pelo irmão para São Paulo quando era muito jovem. Iniciou a carreira em 1957 como crooner em casas noturnas e, na década de 1960, participou de programas de calouros. Em 1964 gravou a música "O Morro Não Tem Vez", de Tom Jobim e João Gilberto, mas já fazia sucesso nas boates com a música "Deixa isso pra lá". No mesmo ano, Jair foi o primeiro homem negro a apresentar um programa musical de televisão no Brasil, “O Fino da Bossa”, ao lado cantora Elis Regina.

No ano seguinte, o cantor venceu o segundo "Festival da Canção" e eternizou a música “Disparada”, de Geraldo Vandré e Theo Barros. Muitas dificuldades se impuseram até que ele atingisse o auge mas, segundo sua filha, Luciana Mello, Jair não se deixou desviar do foco. “Ele nos deixa a lição de sempre fazer tudo com muito profissionalismo, com muito amor, muita dedicação e respeito a todas as pessoas", disse.

Jair Rodrigues também trabalhou como engraxate, mecânico, servente de pedreiro ajudante de alfaiate e tentava se estabelecer na música. Homem negro e de origem humilde, nunca relatou tratamento diferente por parte do meio musical que frequentava, disse Luciana: “Ele certamente deve ter passado. Mas o modo como ele encarava as coisas na vida; sempre foi atrás do que ele quis, então, não foi relevante ao ponto de pará-lo ou de desviá-lo do foco que era fazer música. Tanto é que ele foi o primeiro negro a apresentar um programa de TV.”

Segundo o diretor Rubens Rewald uma das facetas de Jair Rodrigues foi transformar músicas com letras de protesto em hits que ficavam na boca do povo. Mesmo durante os anos de 1964, em fase de repressão política, o intérprete conseguiu ultrapassar as barreiras da censura. A música "Disparada" é um exemplo: “De alguma forma a trajetória dele passou pela trajetória política do país. "Disparada" é uma música extremamente política que, fala de tomada de consciência. Mas ele transformou essa pegada política num sucesso popular. Ele tinha essa característica”. 

Ainda conforme Rubens, o músico emanava luz por onde passava e o documentário “Deixa que digam” vai mostrar diferentes fases. “Ele era uma pessoa que, quando você pergunta, as pessoas logo abrem um sorriso. E ele era assim com a família, com os amigos, com pessoas íntimas, e até com quem ele não conhecia.”

Com mais de cinco décadas de carreira, Jair Rodrigues continua sendo lembrado em músicas como "A Majestade e o Sabiá", cantada com Chitãozinho e Xororó e "Foi um rio que passou em minha vida", cantada por Baby do Brasil. Foram 40 discos ao longo da carreira que deixaram um extenso legado para a MPB, sertanejo, samba e rap brasileiros. O músico ainda influencia gerações com o jeito irreverente que interpretou as canções. A música "Deixa Isso Pra Lá", com letra falada e uma dança com a mão,  foi precursora do rap no Brasil e deixou sua marca nas gerações de rappers que cantam as dificuldades da periferia.  

*Estagiária sob supervisão de Thiago Anthunes

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