Nando Reis grava disco com músicas de Roberto Carlos: 'Para minha esposa'

Em entrevista ao DIA, cantor e compositor comenta processo de gravação e como as músicas de seu homenageado se relacionam com a sociedade

Por THIAGO ANTUNES

Nando Reis confessa sua profunda admiração pela obra de Roberto Carlos. No detalhe, a capa do novo disco
Nando Reis confessa sua profunda admiração pela obra de Roberto Carlos. No detalhe, a capa do novo disco -

Rio - O amor, sentimento por vezes intangível e que escapa de definições, é o tema mais presente na cultura popular, universal nas suas infinitas formas. Na música, talvez ninguém ainda tenha cantado melhor suas variações e comunicado de forma tão aberta suas emoções, angústias, tristezas e alegrias que Roberto Carlos. Nando Reis, também exímio autor de muitas canções que versam sobre formas de amar, sabe disso. Profundo admirador da obra de Roberto, Nando fora acometido pela vontade de externar sua relação com o Rei quando estava com Vânia, sua esposa, em uma viagem. "Me veio essa vontade de gravar e colocar para fora essa admiração pelo Roberto. Uma paixão rememorada, que se relaciona com tudo que eu faço, que é para a Vânia", declara-se.

O resultado foi o disco 'Não sou nenhum Roberto, mas às vezes chego perto', lançado nesta sexta-feira em edição física e em todas as plataformas digitais, no aniversário de 78 anos de Roberto Carlos. Nando contou ao DIA sobre o processo de gravação do álbum, como suas canções se relacionam com as de Roberto e seus reflexos na sociedade. 

O que o motivou a gravar canções de Roberto Carlos? A sensação é que é um disco também para a Vânia, certo?

Uma súbita paixão, rememorada em uma viagem que fiz de carro ouvindo os discos do Roberto. Estava com Vânia e me veio essa vontade de colocar para fora essas duas admirações. Os desejos de gravar um disco são sempre misteriosos, todos eles. Mas há esse elemento de profunda admiração que sempre tive com as músicas do Roberto Carlos norteando. Sobre a Vânia, como tudo que eu faço, (o disco) é pra ela. O processo foi também refletir sobre o estar ao lado dela, uma mulher com quem atravessei desertos, oceanos, a vida. Roberto Carlos está muito associado a nós dois. Em 'Me conte a sua história', eu conto a minha história. Eu conheço Vânia desde os 15 anos, e posso dizer que ali começou a passagem para minha vida adulta. Aquela coisa do amor sonhado, perdido, abandonado, recuperado. Dessa forma, a gravação foi muito adequado e fundida com nossa própria história.

Como foi o primeiro contato com as músicas dele?

Tudo começou na infância, com a Jovem Guarda aparecendo como pano de fundo. Eu tinha uma calça Calhambeque, que tinha um zíper escrito calhambeque, uma moda daquele tempo. Também era muito fã da Wanderléa, tinha fotos na parede do meu quarto (risos). Nesse ponto, era mais uma coisa de ordem fantasiosa. O nome e a musica eu associei no início dos anos 70, também na minha infância. 'Detalhes' é uma música que foi costurando essa admiração, a porta de entrada para a música de Roberto Carlos. Na adolescência isso foi crescendo. O disco de 77 eu tenho certeza que ouvi na condição de apreciador de música mesmo, com outra cabeça e isso foi se cristalizando.

O disco foi produzido pelo Pupillo Oliveira, da Nação Zumbi, com direção artística do jornalista Marcus Preto. Como decidiu pelos nomes?

Conheço o Marcus há muito tempo como jornalista, acompanho a carreira dele na música também e gostei especialmente do que ele fez no 'Estratosférica' (disco de Gal Costa). Trabalhamos juntos na montagem do show 'Trinca de Ases' (trio formado por Gal, Gilberto Gil e Nando). Conheci a forma como ele trabalhava e ele é um grande conhecedor de música, um homem inteligente, de bom gosto e um ótimo interlocutor. Nossos assuntos sempre foram relacionados à música. Quando falei da ideia desse disco, ele sugeriu o Pupillo para embarcar nessa. Então sentamos os três e formatamos. Eu também conhecia o Pupillo da Nação, o vi tocando fora da banda com a Marisa Monte e achei uma ótima escolha. Todo o processo se confirmou como acertado. Posteriormente, fizemos o álbum no estúdio, em quase cinco meses de gravação. Saí de lá muito fã dos dois e especialmente dele, que também tocou bateria nas canções.

O disco tem várias fases do Roberto. Músicas dos anos 90, início dos anos 70...mas especialmente faixas do fim dos anos 70, com um Roberto Carlos deixando o soul e indo para a fase muito romântica. Algum motivo especial para essa escolha?

Acho que foi natural. Eu realmente criei a consciência de ouvinte a partir do disco de 77 e ouvi incessantemente o disco de 78, algo definitivo para mim. Essa coisa da própria beleza dessas obras como algo diretamente associado. Obviamente tive a preocupação de me descolar de outras canções já gravadas, mas essa relação pessoal foi um ponto chave. Claro que olhei para trás, embora inegavelmente a época de ouro, onde acho que o Roberto atingiu um primor, tenha sido os anos 70, não queria que a gravação fosse algo nostálgico. Quis aproximar do meu gosto também e daquilo que queria transmitir como música e mensagem. E creio que consegui superar esse hiato entre intenção e cristalização. 

O álbum também tem surpresas, como Nossa Senhora, que foi quase desconstruída (Nando apenas canta 'nanana' na melodia).

(Risos) A melodia é linda, mas eu não sou religioso. E, sendo ateu, não conseguiria cantá-la honestamente, mas já queria gravá-la há algum tempo. Por outro lado, isso (ser ateu) não me impede de admirar a extrema beleza dessa música, inclusive de cantá-la, mas tive que pensar como fazer com o devido respeito e legitimidade. Quando sugeri a gravação, lembro que o Marcus e o Pupillo ficaram em dúvida, mas eu cheguei com uma receita. Ela é em 4/4 originalmente e virou uma valsa, em 3/3. Fiz como uma homenagem à música 'Valsa (Como são lindos os Yoguis)', do João Gilberto, de um disco dele de 1973, que é outro autor que gosto muitíssimo. Tem esse encandeamento dele que admiro. No fim, todo mundo gostou. Em 'Todos estão surdos', foi mais fácil, por ela ser funkeada. Embora eu tenha suprimido a parte falada, há coisas que acho lindas. 'A guerra dos meninos' também exigiu um pensamento, mas ao mesmo tempo eu tinha em mente como fazer: queria algo como uma trilha sonora de batalha ou um filme de cowboy. A letra fala de seguidores que vão atrás de Jesus, com uma mensagem que une a todos em uma guerra contra o mal, mas também ela é universal, no sentido que quase conta uma história da nossa civilização. Chamei o Jorge Mautner para narrar a música, também sou um grande admirador da obra dele. E ele conseguiu fazer esse narrador acima do bem e do mal, como se estivesse assistindo os pobres mortais lidando com essas forças de oposição.

Sobre isso, acho que existe um Roberto Carlos que muita gente não vê à primeira vista, que é o de contestar de alguma forma o que está vigente, mesmo que timidamente. Você concorda?

Concordo plenamente. Eu vejo muito isso no Roberto Carlos. Enquanto é muito contestador, há ali uma dubiedade. Uma espécie de contravenção do que é correte, de ter esse lugar de quem quebra e assume o tabu, mas são coisas mais implícitas mesmo. Há uma perturbação que revela um inconformismo que de alguma maneira é transgressora, contestadora. Ela não se limita a dizer as coisas banais. Está tudo certo? Tudo certo como dois e dois são cinco. (Nando cita 'Como dois e dois', de Caetano Veloso, gravada por Roberto em 1971).

Alguma previsão para o show no Rio?

Estarei no Rio, no dia 12 de junho, no Dia dos Namorados. Data que acho muito apropriada (risos).

No vídeo abaixo, Nando toca um trecho de 'Amada amante' e manda um recado aos leitores. Confira:

Crítica - 'Não sou nenhum Roberto, mas ás vezes chego perto'

A foto da capa de 'Não sou nenhum Roberto, mas ás vezes chego perto', já oferece uma pista do que os ouvintes podem esperar. Nando Reis encara diretamente as lentes de Jorge Bispo, a postura e olhar remetem às capas dos discos de Roberto Carlos na fase noventista - a face que carrega e pede cumplicidade. A sonoridade do álbum produzido por Pupillo (baterista da Nação Zumbi) é, ao mesmo tempo, reverente e com luz própria, com elementos familiares aos universo de quem homenageia e é homenageado. Os arranjos grandiosos, presentes na obra de Roberto em maior escala a partir do fim dos anos 70 são devidamente reimaginados em canções como 'Alô', 'De tanto amor', 'Me conta sua história' e 'Procura-se'.

Por outro lado, Nando toma para si faixas como 'Amada amante', uma ode para a outra mulher que virou uma homenagem à Vania, sua esposa, e 'Você em minha vida', com pegada beatleniana ou o forte acento latino para 'Abandono' e os experimentos melódicos em 'Nossa Senhora' e 'A guerra dos meninos', com criatividade nas releituras e longe do pastiche. O maior acerto de 'Não sou nenhum Roberto...' é a aposta contra a obviedade e o atestado que a obra de Roberto Carlos (e Erasmo) se comunica com várias vertentes soando sempre atual, além de sinalizar outros caminhos sonoros para seu admirador.

Avaliação: Bom

Galeria de Fotos

Nando Reis confessa sua profunda admiração pela obra de Roberto Carlos. No detalhe, a capa do novo disco Jorge Bispo / Divulgação
Nando Reis: 'Tenho profunda admiração pelas músicas do Roberto, sempre dialogaram com a minha vida' Jorge Bispo / Divulgação

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