Sérgio Pererê lança cinco discos em 2020

Artista mineiro explora diversas facetas de sua música em álbuns essenciais para compreender a diversidade de sua obra

Por O Dia , O Dia

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Rio - Num ano em que experimentamos todos uma necessária e inédita pausa, Sérgio Pererê propõe escuta. Em um 2020 insuspeitado, o artista - parte essencial de uma categoria da nossa produção musical que poderia se chamar de entidade da canção brasileira - prepara cinco álbuns para colocar no mundo, experimenta diferentes lugares da canção e nos coloca diante de uma espécie de glossário de sua obra. Prestes a lançar “Revivências” - o álbum chega às plataformas de streaming dia 20 de maio, com show online no dia 23 do mesmo mês -, disco em que explora sua potência de intérprete, raridade em sua obra fonográfica, ele prepara ainda a chegada de “Canções de bolso”, onde trabalha a delicadeza de suas composições inéditas em arranjos mínimos, finaliza “Coração de marujo”, onde toca sua ancestralidade em temas permeados pelos sons da cultura tradicional popular, além de um registro ao vivo de seu mais recente álbum de estúdio, “Cada Um Ao Vivo”, que traz gravações feitas a partir do show homônimo do disco.

O álbum Revivências já estava em construção, para ser lançado no segundo semestre de 2020, quando a pandemia do coronavírus virou o mundo de cabeça para baixo e levou bilhões de pessoas a entrarem em isolamento social. Lançando um olhar para a seleção das canções, o cantor, compositor e multiinstrumentista belohorizontino Sérgio Pererê percebeu o intenso diálogo que elas propunham com o momento presente: a tragédia cotidiana, a distopia, a morte, a solidão, a saudade, a transformação da sociedade, a esperança, a resistência e a fé; tudo se encontra em Revivências. Daí a decisão de antecipar o lançamento que, neste primeiro momento, será virtual. Assim, um dos mais reconhecidos músicos mineiros se reencontra, ainda que distante fisicamente, com seu público e oferece seu mais novo trabalho como um alento para os tempos de isolamento, ciente de que a arte simbolizando a vida é também cura.

Uma faceta de Sérgio Pererê não muito registrada em seus discos, mas sempre presente em seus shows, é ele como intérprete. A seleção de músicas aqui presente ajuda a dimensionar esse trabalho, dando, também, noção do longo escopo de influências e gêneros nos quais o cantor transita. De clássicos da MPB, se passa ao samba e se chega até ao rock brasileiro dos anos 1980, mas recolocando essas canções em diálogo com a própria obra produzida anteriormente por Pererê. Nesse sentido, Revivências é uma obra em que à interpretação se soma uma outra camada, uma outra linguagem, essa linguagem musical que o cantor desenvolveu nos seus anos de uma já longa carreira. Transitando entre compor e interpretar, Pererê tira as músicas do contexto original e consegue dar a nova vida, uma nova ideia e uma nova língua funcionando como uma espécie de tradução da obra para a própria linguagem do artista.

O título do disco remete a ao menos duas possibilidades de leitura. A primeira é a revivência do artista em contato com canções que marcaram sua formação musical, mas também sua estrada enquanto músico e aqui se insere desde o arrebatamento que teve quando em contato com Gilberto Gil, seus diálogos constantes com Milton Nascimento, e a amizade com Vander Lee, por exemplo. A segunda interpretação do título é a revivência das próprias músicas, que aqui ganham nova vida, nova possibilidade, novo alcance. Essas duas possibilidades de leitura, obviamente, se misturam.

Se utilizando de um conjunto bastante eclético de instrumentos e instrumentalização, o disco mistura percussão eletrônica, com violão, caxixis e timbila com flauta chinesa, tudo isso costurado pela voz presente e marcante. Assim, podemos perceber que o diálogo que o disco constrói é principalmente musical, em uma camada menos visível, mas inescapável. Nesse sentido, a participação dos músicos Acauã Rane e Richard também ajudam a construir o diálogo proposto pelo cantor.

É assim que se reconstrói uma Roda Viva, de Chico Buarque, no descompasso contemporâneo; é assim que Dança, de Chico César, passa a ganhar o sincopado das danças afro-brasileiras e indígenas; é assim que De Frente para o Crime, de Aldir Blanc e João Bosco, gira entre o trágico cotidiano e a festa; é assim que a homenagem ao amigo Vander Lee, com Estrela, se proclama com palavras em Umbundo e tom colorido da saudade; é assim que Canções e Momentos, dos parceiros Milton Nascimento e Fernando Brant, é reconstituída através da sonoridade vocalizada, mais do que instrumentalizada; é assim que Juízo Final, de Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, pode se reconstituir diasporicamente no presente; é assim que o clássico de Gonzaguinha, Pequena memória para um tempo sem memória, faz estremecer um passado que insiste em ser esquecido; é assim que Só, de Luiz Melodia, deixa nascer o verso que diz “mesmo se tudo mudar por aí”; é assim que o Tempo Rei, de Gilberto Gil, encontra, enfim, o reinado mineiro.

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