No Dia da Consciência Negra, Senado homenageia defensores da igualdade racial com a entrega da Comenda Senador Abdias Nascimento. Na foto, o músico Martinho da Vila (Antonio Cruz/Agência Brasil)
No Dia da Consciência Negra, Senado homenageia defensores da igualdade racial com a entrega da Comenda Senador Abdias Nascimento. Na foto, o músico Martinho da Vila (Antonio Cruz/Agência Brasil)Antonio Cruz/Agência Brasil
Por Yuri Eiras e Juliana Pimenta
Rio - Lançando álbum novo no Dia Nacional da Consciência Negra, Martinho da Vila não se furtou a debater questões raciais. Há uma semana, inclusive, Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares, determinou a exclusão de artistas como Gilberto Gil, Elza Soares e Martinho da Vila da galeria de personagens negros notáveis do país. Ciente da decisão, o sambista segue afiado às questões do negro brasileiro.


"A expressão racista 'negro de alma branca' é horrível, mas no caso dele cabe direitinho", goza o sambista. "Eu fico pensando nos Estados Unidos, que é um país que eu não gosto muito pela posição deles em relação ao mundo - eles acham que são donos -, mas tenho uma inveja boa deles. Lá tem negros em todos os setores da sociedade. Já elegeram presidente, agora tem uma mulher negra na Vice-Presidência. Você não encontra negros dos Estados Unidos morando em nenhum outro país. Colônia de negros norte-americanos...", compara o artista, embaixador da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e descendente de angolanos.

"Essa história de que o Brasil não tinha racismo ficou durante muito tempo, sabe? Só em 1988 (com a Constituição) é que começou a mudar. Isso atrasou bastante. O racismo velado é ruim. O inimigo que você não sabe que é inimigo é o mais perigoso. Aqui tinha isso de 'não tem racismo'. Veja o ‘Casa Grande & Senzala’ (livro de Gilberto Freyre, de 1933, apontado por intelectuais como uma obra com um certo teor racista)... É um clássico da literatura, mas tem esse defeito. Mas estamos avançando, devagarinho, devagarinho...".