Nelson Sargento deposita esperanças na nova gestão para reerguer a Mangueira

Baluarte aposta suas fichas para ver escola criada por Cartola voltar a ser o centro das atenções no Carnaval

Por raphael.perucci

Rio - A Mangueira, tal qual o samba mais famoso do presidente de honra Nelson Sargento, agoniza. Mas não morre. Abalada devido a uma sucessão de escândalos, suposta ligação com o tráfico de drogas e o abandono das tradições, a Estação Primeira está voltando a sorrir. A convite do DIA, o baluarte passou a manhã de sexta-feira no Buraco Quente, onde viveu intensamente 65 dos seus 88 anos, e falou sobre a esperança depositada na nova gestão.

Na comunidade, onde é reverenciado a cada passo, Sargento fez uma constatação emocionado, ao lado da quadra completamente abandonada e tomada por lixo e entulho: “Alguém sempre te socorre, antes do suspiro derradeiro”, disse o mestre. O socorrista da vez atende pelo apelido de Chiquinho da Mangueira. É no novo presidente, eleito domingo passado, que Sargento aposta suas fichas para ver a escola criada por Cartola voltar a ser o centro das atenções, não só no Carnaval.

Nelson Sargento é o presidente de honra da MangueiraJoão Laet / Agência O Dia

“A vida é feita de percalços. Ninguém está livre disso. Mas acho que agora temos um grande timoneiro, e a Mangueira vai se reerguer e se recuperar de todos estes anos de sofrimento. Estou pronto para ajudar”, avisa. Os primeiros passos foram dados. A era das popozudas à frente da bateria chegou ao fim. Evelyn Santos, criada na comunidade, é a nova dona do pedaço. Squel também está de volta para ser a porta-bandeira. É a Mangueira voltando às raízes.

Alcione diz estar pronta para ajudar

A cantora Alcione, a Marrom, outra baluarte da Verde e Rosa, já se colocou à disposição da nova diretoria para o que for preciso, assim como Nelson Sargento. “O Chiquinho sabe. Aliás, a Mangueira sabe que pode contar sempre comigo. E eu não quero e nem preciso de cargo. Quero é ajudar a Mangueira a voltar para o lugar que merece estar”, disse a Marrom.

Do Recife (PE), onde está fazendo shows, Alcione diz que os mangueirenses de todo o país estão motivados e esperançosos em ver sua escola voltar a brilhar. “A Mangueira não pertence mais ao Carnaval, ao Rio de Janeiro. Ela é do Brasil. Até quem não é mangueirense tem carinho pela escola e sabe a sua história. E a gente sente que tem algo mudando por lá”, completou.

Histórico de crises nos últimos anos

Os destaques da Mangueira estiveram mais nas páginas policiais do que nas colunas sociais nos últimos anos. A ligação do ex-presidente Percival Pires com o traficante Fernandinho Beira-Mar causou polêmica. Depois, o também ex-presidente Ivo Meirelles, segundo a polícia, teria construído rotas de fuga para o criminoso Tuchinha, que ainda compôs sambas para a escola, escandalizando os mangueirenses.

O centenário de Mestre Cartola, fundador da escola, foi ignorado pela direção da escola em 2007, que optou por um enredo sobre frevo patrocinado pela Prefeitura do Recife. Neste mesmo ano, Beth Carvalho foi expulsa do carro dos baluartes e deixou a Sapucaí aos prantos. A morte do intérprete Jamelão, no ano seguinte, aumentou ainda mais a crise.

Num ensaio em 2010 em homenagem ao Fluminense, time de Cartola, Luizito, substituto de Jamelão, xingou torcedor no microfone. A Unimed, que patrocinava clube e escola, saiu de cena, a exemplo do que já haviam feito Xerox e Petrobras.

Novo enredo sai nesta semana

A Mangueira deve anunciar esta semana o enredo para o Carnaval de 2014. E, segundo o novo presidente, não há a menor chance de a escola repetir 2007, quando optou por frevo em vez de homenagear Cartola. A escola também programa uma homenagem a Jamelão, que faria 100 anos no próximo domingo. “Isso tudo levanta a moral do mangueirense, recupera a auto-estima da comunidade. A Mangueira não é nada sem quem vive a escola”, diz Alcione.

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