Luiz Antonio Simas: O nosso rei

Entre os brasileiros, a tradição de um Rei Momo soberano do Carnaval surgiu na década de 1930

Por raphael.perucci

Momo, o filho da Noite, é um deus da mitologia grega. Em algumas versões — como em Hesíodo e Luciano de Samósata, dois sabichões das antigas — a divindade seria feminina. Chegado numa galhofa, atazanou a paciência dos outros deuses até conseguir ser expulso do Olimpo pelo próprio Zeus, o bambambã de lá. Como diria minha avó, o malandro (ou a malandra) era fogo na roupa.

Na Roma antiga, à época das saturnálias (festa marcada, como o nosso Carnaval, por ritos de inversão social), escolhia-se alguém para representar Momo. O eleito dava ordens, comia, brincava e enchia a moringa. No final do furdunço, completamente de porre, o Momo da vez era sacrificado.

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Entre os brasileiros, a tradição de um Rei Momo soberano do Carnaval surgiu na década de 1930 e é carioca. Repórteres gaiatos do jornal ‘A Noite’ escolheram Francisco Moraes Cardoso, um cronista de turfe, para personificar o monarca. Cardoso era um balofo clássico, apelidado, em tempos politicamente incorretos, de Chupeta do Vesúvio.

Dotado de apetite insaciável, exerceu a função até 1948, quando bateu a caçoleta e o Rei Momo passou a ser escolhido por concurso. Por causa de Moraes Cardoso, a imagem de Momo ligou-se, por aqui, a personagens imensos, verdadeiros cachalotes coroados entre chuvas de serpentinas e confetes.

Nos meus tempos de moleque, o concurso para Momo rolava no Largo da Carioca. Exigia-se que os candidatos, debaixo de um sol da marchinha ‘Alalaô’, devorassem quantidades inacreditáveis de frangos de padaria e travessas de macarrão. Após o rega-bofe, era hora de mostrar o samba no pé, ao lado das candidatas a rainha e princesa do Carnaval. Sempre achei que alguém fosse cair mortinho da silva durante o evento.

Mais recentemente, em nome da saúde, algumas cidades têm escolhido soberanos magricelas, no melhor estilo Olívia Palito. Os defensores dos magros evocam ainda o fato de que, na Antiguidade, Momo não era rechonchudo.

Eu prefiro louvar a memória de Moraes Cardoso e o espírito galhofeiro da fuzarca. Há quem se engaje na luta pela preservação da ararinha azul e do mico leão. Vou nessa onda e lanço a campanha pela preservação dos reis Momos gordos no Carnaval; tradição criada aqui, como o samba, a prontidão e outras bossas cantadas no samba do Noel.

Abro, portanto, os trabalhos em O DIA saudando a única realeza (sou republicano de carteirinha) que respeito e reverencio como súdito confesso. Evoco o fantasma de Moraes Cardoso, dou o primeiro gole pro santo e mando de prima, pisando leve no pedaço: Evoé!


E-mail: luizantoniosimas67@gmail.com

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