Por daniela.lima

Rio - O dia era 29 de dezembro de 1994. Um show gratuito de Paulinho da Viola, no fim da tarde, em um palco montado no Leme era programa obrigatório. Para mim, mais que assistir ao Paulinho, a participação de Zé Kéti, que na época ainda morava em São Paulo, era o grande atrativo. Eu era um garoto de 25 anos, que, como poucos da minha geração, amava o samba e seus heróis. E Zé Kéti era um deles. 

João Pimentel%3A Meu amigo José Flores de JesusDivulgação


Fui com minha namorada na época, Renata, e um grupo de amigas. Acabado o show, em que ele cantou clássicos como ‘A Voz do Morro’, ‘Opinião’, ‘Máscara Negra’ e ‘Mascarada’, fui ao fundo do palco e fiquei esperando ele aparecer. Falei da minha admiração, aquelas coisas, quando ele viu se aproximar Renata e suas amigas. Pronto, jogou uma conversa para cima de uma, de outra, e nos convidou para uma peixada, no dia seguinte, na casa de Elton Medeiros. “Te ligo amanhã”, disse, depois de anotar meu número de telefone.

No dia seguinte, nada. Nem no outro. No dia 1º de janeiro, dia mundial da ressaca, o telefone toca insistentemente. Pulo da cama, sabe-se lá como, e do outro lado vem aquela voz que se tornaria constante em minha vida: “Janjão? Aqui é o seu mais novo amigo, José Flores de Jesus, o Zé Kéti...”

Pronto, marcamos de beber uma água de coco dias depois. Fui com minha turma e depois de muito papo ofereci uma carona. Deixamos ele em casa, numa das muitas vezes em que eu deixaria o Zé no Conjunto dos Músicos, em Inhaúma. No caminho, lembrei que naquele mesmo dia, 5 de janeiro, havia morrido o sambista paulistano Geraldo Filme. Zé olhou meio triste e disse: “Sabe, meu filho, sei que a vida é assim, mas não é justo.”

Zé Kéti tornou-se meu amigo particular. Ia comigo aos ensaios do Simpatia, almoçava lá em casa e depois tirava uma soneca no sofá. Quantas vezes minha mãe flagrou essa cena. Acompanhava ele em qualquer lugar que se apresentasse. Quase meio século de vida nos separavam, mas viramos amigos fiéis.

Esta semana me bateu uma saudade profunda. Lembrei que em dezembro completa 50 anos da estreia do lendário show ‘Opinião’, em que ele representou o sambista carioca, ao lado do “retirante” João do Vale, e de Nara Leão, a mocinha da Zona Sul que queria cantar samba, mais tarde substituída por Maria Bethânia. Zé sempre foi o interlocutor dos compositores de morro, das escolas. Sempre foi o sedutor, o carismático, o elegante, além de ser um dos melhores compositores da história da música brasileira.

Quando o Zé Kéti morreu, em 1999, fui incumbido de fazer seu obituário no jornal onde trabalhava. Dias antes, ele estava na minha festa de aniversário, já fraquinho, mas parceiro até o fim. Entre muitas lágrimas, lembrei do que ele havia falado sobre Geraldo Filme. Não era justo o Zé Kéti morrer, assim como não é justa a enorme saudade que eu tenho do meu amigo José Flores de Jesus.

Você pode gostar