'Eu envergo, mas não quebro', diz Zé Katimba, único fundador vivo da Imperatriz

'A maior alegria de um sambista que tem raiz numa escola de samba é vê-la na Avenida com o povo cantando algo que foi feito por ele'

Por bianca.lobianco

Rio - Jackson do Pandeiro, forrozeiro, certa vez gravou uma música nos anos 60 que dizia: “esconjuro com tanto Zé, como tem Zé lá na Paraíba...”. José Ignácio dos Santos, de 82 anos, é mais um deles. Só que aqui, no Rio, deixou de ser mais um “Zé” e virou Zé Katimba, um dos grandes personagens das escolas de samba carioca. Único fundador vivo da Imperatriz Leopoldinense, em 1959, mais uma vez ele sente na pele a emoção de contar os dias para mais uma vez a escola do coração ir para o Sambódromo com uma obra de sua autoria.

"A maior alegria de um sambista que tem raiz numa escola de samba é vê-la na Avenida com o povo cantando algo que foi feito por ele. Isso não há dinheiro que pague", afirmou.

Zé Katimba e Noca da Portela são amigos há 50 anosJoão Laet / Agência O Dia

A alegria proporcionada pelo samba é o ponto alto na vida deste imigrante nordestino que, pelas mãos do pai, João Inácio, cansado das privações impostas pela seca, veio com a família em um navio clandestino aos dez anos, em 1942, para deixar a pequena Guarabira, no interior da Paraíba, e desembarcar em Niterói. Trazia já com ele uma centelha musical: a habilidade com uma viola de 12 cordas, surgida nos tempos de cordelista.

Na cidade grande, teve de lutar muito para sobreviver. Depois de Niterói, veio morar em Bonsucesso, zona da Leopoldina. Por ali, foi camelô, faxineiro e porteiro. Se dali tirava o sustento, o prazer veio com a criação de uma escola de samba que nasceu com o nome pomposo: Imperatriz Leopoldinense.

"Sou o único fundador vivo da escola. Carrego comigo esse orgulho. E ali já fui de tudo desde puxador de corda (nos primórdios do desfile, essa a função do sambista que segurava uma corda que separava a escola do público que a assistia) até presidente. Teve uma época em que a gente estava mal de grana, e fui uma das pessoas que aproximou a Imperatriz do Luizinho Drumond. Mas o meu maior prazer foi compor para a escola".

E lá se vão 44 anos do primeiro samba-enredo composto: “Barra de Ouro, Barra de Rio, Barra de Saia” para o carnaval de 71, um ano antes do grande momento de Katimba na escola de Ramos.

"Pro carnaval de 72, eu e Gibi compusemos “Martim Cererê”. O Dias Gomes (autor de novela) tinha escrito 'Bandeira 2' e procurava uma escola onde pudesse ambientar a história. A Imperatriz foi a escolhida, eu virei personagem da novela e o samba passou a ser conhecido no Brasil todo", lembrou o compositor.

Zé Katimba em 1972 cantando o samba enredo 'Martim Cererê'arquivo pessoal

O sucesso na Imperatriz lhe abriu portas no mundo da MPB. Passou a ser cortejado por compositores do gabarito de Martinho da Vila, João Nogueira e Jorge Aragão. "Isso serviu para que eu pudesse me estabelecer como um profissional da música, viver de um talento que Deus me deu. Pra quem veio lá da Nordeste sem nada, já tá bom demais, né?", brincou. 

Mas o novo rumo na carreira não o fez arredar passo da escola do coração. As duas vitórias seguidas foram de suma importância para a história da Imperatriz. A primeira, em 1978, quando depois de uma crise, a Imperatriz foi parar no segundo grupo, mas conseguiu o vice-campeonato, com “Vamos Brincar de Ser Criança”, que a reconduziu ao grupo principal. E a outra, um dos momentos de maior glória para a verde-e-branco.

"Em 1981, vencemos sozinhos pela primeira vez (o título de 1980, o pioneiro, foi obtido junto com Portela e Beija-Flor). O samba era meu. E quem se esquece de “Lá, lá, lá, la, Lamartine / Em teu cabelo não nega / Um grande amor se apega / Musa Divinal”, disse Katimba, relembrando versos do samba em homenagem ao compositor Lamartine Babo.

Desde então, foram mais cinco conquistas na Imperatriz, incluindo a de 2015, com o enredo “Axé-Nkenda - Um ritual de liberdade - E que a voz da liberdade seja sempre a nossa voz”.

Durante os preparativos para o carnaval, porém, um susto: nos últimos dias de 2014, Katimba foi vítima de uma infecção urinária que, por pouco, não o afastou de mais uma passagem pela Sapucaí.

"Sou nordestino e sambista. Eu envergo, mas não quebro. Vou estar lá, firme e forte com a minha Imperatriz".

Como ele mesmo escreveu em Martim Cererê, “que grande destino reservaram pra você”. E o samba agradece.

Reportagem de Fred Soares

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