Tarcísio Zanon, carnavalesco da Estácio de Sá, quer levar mensagem de fé e igualdade para o desfile - Fernanda Dias / Agência O Dia
Tarcísio Zanon, carnavalesco da Estácio de Sá, quer levar mensagem de fé e igualdade para o desfileFernanda Dias / Agência O Dia
Por *Luana Dandara

Rio - Enfrentando uma das piores crises financeiras da história, as escolas de samba da Série A vão se apoiar na fé neste Carnaval para superar as adversidades. Sete, das 13 agremiações, levarão para a Avenida, a partir de amanhã, desfiles religiosos. Desde as oferendas oferecidas no Candomblé e na Umbanda, enredo da Unidos da Ponte, até a festa de Iemanjá, em Salvador, lembrada pela Renascer de Jacarepaguá, a disputa para a vaga no Grupo Especial promete ser dotada de muita emoção.

Segundo o carnavalesco da Renascer, Raphael Torres, 35 anos, que faz dupla com Alexandre Rangel, 39, o enredo é inédito. "A proposta é um Carnaval imponente, diferente do que a escola tem feito nos últimos anos. Vamos mostrar a chegada dos escravos nos navios negreiros, e, no fim, as oferendas em Salvador, em um gigante barquinho de Iemanjá", explicou. Entre os destaques, um carro alegórico recriará a orla do Rio Vermelho, com o Largo do Santana e sua igrejinha. Desfilarão 84 pessoas sobre a alegoria, com fantasias de baianas, pais de santo, e do Bloco Afoxé Filhos de Gandhy, tradicional da capital baiana. 'Dois de fevereiro no Rio Vermelho' ainda abordará a orixá Oxum, também cultuada no Dia de Iemanjá.

Renascer de Jacarepaguá prepara homenagens à Iemanjá para Sapucaí no sábado de Carnaval - Divulgação

Já a Acadêmicos do Sossego aposta na crítica à intolerância religiosa. E mesmo desistindo levar a alegoria do diabo pela recomendação da prefeitura, por conta da semelhança com Marcelo Crivella, uma polêmica surpresa virá no espetáculo. "No último carro traremos a reflexão de um terreiro quebrado, que antes tinha o demônio da intolerância. As pessoas associaram ao Crivella, e agora traremos uma outra surpresa, também criticando a gestão da prefeitura, e pedindo uma atenção melhor ao Carnaval. Não será a religião dele que pode atrapalhar o nosso movimento", ponderou o presidente do Sossego, Wallace Palhares, 39 anos.

O condutor do enredo 'Não se meta com minha fé. Acredito em quem quiser' também é tema de controvérsia na Igreja Católica. Jesus Malverde, conhecido como "anjo dos pobres", é extremamente cultuado no México, principalmente por narcotraficantes, mesmo sem reconhecimento oficial. "Vamos questionar se matar, agredir e julgar em nome de Deus é certo, e porquê as pessoas não podem crer em Malverde, como não podem crer na Santa Morte", disse Palhares.

Condutor do desfile do Sossego é Jesus Malverde, cultuado no México, principalmente por narcotraficantes - Fernanda Dias / Agência O Dia

Terceira a desfilar no sábado, a Estácio de Sá promoverá um verdadeiro intercâmbio cultural entre Brasil e Panamá. Ao abordar a devoção ao Cristo Negro, encontrado na cidade de Portobelo no século 17, a agremiação homenageará Nossa Senhora Aparecida. "Nossa mensagem é de fé e igualdade. No momento em que os negros precisam de representatividade, desconstruir a imagem do Cristo branco e loiro é extremamente importante", pontuou o carnavalesco Tarcísio Zanon, 31 anos, há seis na Estácio. "O abre-alas será uma catedral aquática, como se Cristo tomasse vida e trouxesse com ele o fundo do mar do Caribe", contou ele.

Alegria da Zona Sul, Inocentes de Belford Roxo e Acadêmicos do Cubango também levarão para o Sambódromo enredos relacionados à fé.

Símbolo da resistência

As novidades da Acadêmicos do Sossego não se encerrarão nas alegorias. A escola levará o primeiro porta-bandeira homem para a Sapucaí. Anderson Morango, 38 anos, será par do mestre-sala Wladimir Bulhões, de 18. De salto alto, peruca e maquiagem, ele virá com uma fantasia com as cores da bandeira LGBT. Atrás, carrascos inspirados na Ku Klux Klan, organização racista fundada nos Estados Unidos, perseguirão o casal.

“O desfile mostrará a realidade do nosso país, dos nossos governantes que não gostam de Carnaval, gays e negros, como um basta para tudo isso”, contou Morango. “Hoje, me consagrei como rainha gay do Carnaval. E as pessoas, sendo contra ou a favor, terão que me respeitar”, cobrou ele, que tem 20 anos no samba, sendo seis como mestre-sala.

Anderson Morango será porta-bandeira - Fernanda Dias / Agência O Dia

E independente do resultado das escolas, paixão não faltará nos componentes. “Por conta das dificuldades triplicadas, estamos lutando com a paixão da equipe do barracão e da comunidade, além da ajuda das escolas do Especial, que doaram materiais e até cederam profissionais”, disse Zanon, da Estácio. 

*Estagiária sob supervisão de Angélica Fernandes

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