Rio,23/02/2020-CAMPINHO, Carnaval 2020, Intendente Margalhaes. Carnaval na Zona Norte, na foto, jurados.Foto: Cleber Mendes/Agência O DiaCléber Mendes
Por MARCELO BERTOLDO
Esqueça o glamour da Marquês de Sapucaí. Na Estrada Intendente Magalhães, a simplicidade é quesito básico para vivenciar o verdadeiro Carnaval do subúrbio do Rio. À beira do meio-fio, filas de cadeiras de praia improvisaram, no domingo, os 'camarotes' durante o desfile do Grupo de Acesso da Intendente, organizado pela Liga Independente das Escolas de Samba do Brasil (Liesb).
Além das cadeiras de praia, o cooler ou a tradicional caixa de isopor completavam o kit dos foliões mais assíduos. Cria de Madureira, Sidney Santos, de 39 anos, mora em Irajá, mas mantém a tradição. Acompanhado da mulher, Beatriz, da irmã, Mônica, e da sobrinha, Letícia, promoveu o 'batismo' do filho recém-nascido, Guilherme, que estreou no Carnaval com apenas um mês de vida.
"É o primeiro Carnaval dele. Todos moramos em bairros próximos à Intendente. Já é uma tradição da família. É um lugar que oferece essa tranquilidade para pessoas mais velhas e crianças curtirem. Guilherme está bem, não acordou nem com o barulho da bateria", disse Wagner.
De fato, o cenário é um convite às famílias, em especial às crianças. A 'invasão' ao palco do desfile acontece com certa frequência. Veículos de moradores, às vezes na contramão, vendedores ambulantes desavisados e até cachorro abandonado dividiram a pista com as escolas.
Segue o fluxo. Na Intendente Magalhães situações como essas são corriqueiras. E no ápice da alegria, a criançada aumentou o trabalho aos fiscais, mas nada que comprometesse a evolução das escolas. No fim dos desfiles, o time da Comlurb ganhou o fofo reforço do pequeno Enzo Alexandre, de 1 ano e nove meses, na hora de limpar a avenida. A fantasia do mini gari roubou a cena e levou o público ao delírio.
"Meu irmão adora esses caras. Em dia de coleta de lixo, ele vê os garis, os chama de amigo e sempre quer ajudar. Minha mãe (Renata Araújo) teve a ideia e encomendou a fantasia. Ele não quer largar ela", disse Thiago Araújo, irmão do pequeno Enzo.
O sonho das escolas que sonham com um lugar no Sambódromo é o pano de fundo para uma grande confraternização de 'vizinhos'. Na arquibancada popular, o bancário Wagner Figueiredo Martins mantém a tradição. Depois da filha Izabella, hoje com 11 anos, é chegada a vez de Ivan Willian, de cinco anos, desbravar o Carnaval da Intendente Magalhães com sua fantasia de Batman.
"Moramos em Piedade, aqui do lado. Há anos que prestigiamos. Começou quando a Iza tinha apenas três anos. O evento virou uma grande reunião de amigos e famílias. Só o temporal para não nos deixar vir para cá", afirmou Wagner.
Sucesso de crítica e público, na avaliação de moradores e vizinhos, o tradicional Carnaval da Intendente Magalhães tem conquistado cada vez mais pessoas. Segundo os organizadores, cerca de 350 mil pessoas curtiram a festa no 'Lado B' do Sambódromo em 2019.

Um olhar apaixonado
O olhar fixo e crítico de dona Helena Lopes às alas de baianas, durante o desfile do Grupo de Acesso da Intendente, indicava a avaliação digna de um jurado. Por três décadas, ela desempenhou com muito amor o papel de baiana da Tradição. Vencida pelo tempo, desfilou enquanto pôde, com precisão até o ano passado, quando tinha 86 anos. Saudosa, ela lembra orgulhosa do tempo em que brilhava na Marquês de Sapucaí.
"Fui integrante da ala das baianas da Tradição por 30 anos. Foi maravilhoso, sinto saudade. Com o passar do tempo ficou mais complicado e tive que parar, mas não deixei de aproveitar o Carnaval", disse Helena.
Maria Augusta, de 69 anos, é vizinha de dona Helena há 45 anos. Moradora de um condomínio em frente à Estrada Intendente Magalhães, ela também trocou os holofotes da Marquês de Sapucaí pela tranquilidade de curtir o Carnaval na porta de casa.
"Meu falecido marido (Alcides Aranha) foi diretor de ala da Tradição por décadas. Já vive esse outro lado do Carnaval. Hoje, não troco o desfile da Intendente pelo o do Sambódromo. Estou na porta de casa, com minha cadeira de praia. Esse camarote é um privilégio", afirmou Maria Augusta.