Ruth de Souza, Zezé Motta e Mariana Nunes reafirmam luta contra o racismo

Atrizes também contam suas histórias destacam a importância da ocupação de espaços nas artes

Por BRUNNA CONDINI

Mariana Nunes (E), Ruth de Souza e Zezé Motta: papo animado e discurso de conscientização
Mariana Nunes (E), Ruth de Souza e Zezé Motta: papo animado e discurso de conscientização -

Rio - Na próxima terça-feira, 20 de novembro, é celebrado no Brasil o Dia Nacional da Consciência Negra. A data é dedicada à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade e foi escolhida em homenagem a Zumbi dos Palmares, um dos pioneiros na resistência contra a escravidão no país, em referência ao dia da sua morte, em 1695. Na verdade, novembro é um mês dedicado à reflexão e conscientização, através de eventos e movimentos por todo o país.

Para esta edição especial, convidamos três gerações de atrizes que personificam a importância da representatividade, de serem porta-vozes da história de seu tempo e de ocupar espaços com sua arte: Ruth de Souza, Zezé Motta e Mariana Nunes.

Ruth, dona Ruth ou Ruthinha, como é carinhosamente chamada, aos 97 anos, com mais de 70 dedicados ao teatro, TV e cinema, recebeu a reportagem, Zezé e Mariana em sua casa no Flamengo. Durante uma tarde inteira, as três posaram para fotos, contaram histórias e até se entrevistaram. E preferiram evidenciar a necessidade de conscientização e de "arregaçar as mangas e virar o jogo", como Zezé colocou. Aliás, a atriz de 74 anos e 51 de carreira fez questão de comentar a importância da data.

"É um mês de denúncia e reflexão. Mas também de comemorarmos ter existido um homem forte e corajoso como Zumbi dos Palmares, que enfrentou toda essa questão do racismo. Ele desafiou os poderosos e dedicou toda sua vida à essa questão da liberdade do negro", diz Zezé. "É preciso refletir sobre o resultado desses desafios, do quanto avançamos, do quanto falta para chegarmos lá".

Atrizes reafirmaram luta contra o racismo - Márcio Mercante / Agência O Dia

Zezé salienta que é fundamental o negro ocupar todos os lugares. "Lembro que a saudosa Lélia Gonzalez escreveu um livro chamado 'Lugar de Negro'. Então, o que acontece é que, enquanto o negro não compete com o branco, ele não incomoda. Como se ele estivesse no lugar certo, ali por baixo. Mas a partir do momento que ele consegue fazer um curso superior ou sucesso em qualquer segmento, já incomoda. E, infelizmente, as pessoas têm expressado isso de uma maneira violenta. Principalmente nas redes sociais".

Luta e doçura

Ruth de Souza, uma das precursoras, reconhecida como a 'primeira dama negra no teatro, cinema e televisão', lembra da importância de que a 'consciência' seja diária. "É claro que é preciso ter um dia que marque isso tudo. Mas é importante cuidarmos bem da gente, tem que estar na rotina", afirma, com a doçura habitual. "Dizem que abri portas para muitas pessoas, mas não sabia que estava abrindo. Nem acho que abri. Fui fazendo meu caminho. Deus tem sido generoso comigo. Trabalhei muito, sem parar. Fiz teatro, cinema e TV, tudo ao mesmo tempo. Acho que isso é quase um milagre".

Zezé interrompe a (real) modéstia da veterana atriz: "Ela foi uma das precursoras através do Teatro Experimental do Negro, quando não tínhamos espaço nenhum na mídia".

E foi. Ruth foi a primeira brasileira indicada ao prêmio de melhor atriz em um festival internacional de cinema, por 'Sinhá Moça', no Festival de Veneza, em 1954. Além disso, foi a primeira negra a se tornar protagonista em uma novela na Globo, em 'A Cabana do Pai Tomás', exibida em 1969.

Aos 37 anos, Mariana Nunes, uma das atrizes 'queridinhas' do cinema nacional atualmente (são cinco filmes entre este ano e o próximo) e no ar na série 'Carcereiros', diz que esteve em Veneza e só lembrava de Dona Ruth, uma de suas "referências na carreira".

"Fiz um filme em Portugal e fui com ele para a Bienal de Veneza. Só pensava em você (para Ruth de Souza) quando estava lá. Foram muitas lágrimas derramadas, me emocionou. Ela foi indicada a melhor atriz concorrendo com Katharine Hepburn", conta Mariana. "Tenho 15 anos de carreira. É muito importante termos exemplos que venham à nossa frente para nos inspirar e podermos nos imaginar ocupando este lugar. Dona Ruth e Zezé são meus exemplos", completa.

E Zezé emenda: "Ela abriu caminhos. As gerações posteriores puderam acreditar que chegariam lá. Apesar das dificuldades".

"Quando falo com as pessoas que convivem mais com a Ruthinha e pergunto sobre ela, sempre falam: 'Ela quer trabalhar'. Olha que coisa bonita!", diz Zezé, que se dirige à veterana e questiona: "Sua expectativa maior está em fazer um filme, uma novela ou peça?"

Ruth de Souza abre um sorriso e responde sem pestanejar. "Trabalhar é uma terapia. Quero trabalhar. Há pouco tempo, fiz um documentário do Ricardo Linhares, 'Se Eu Fechar Os Olhos Agora'. É uma historia bonita. E fiz uma participação no 'Mister Brau'", conta ela. "Se não fosse atriz, não sei o que faria da minha vida. Passei a vida toda em frente a uma câmera".

Força

Também ativista e cantora com mais de 14 LPs , Zezé lança, após sete anos sem gravar, 'O Samba Mandou Me Chamar', com canções inéditas e participações especiais de Arlindo Cruz e Xande de Pilares. A atriz se consagrou com o filme 'Xica da Silva' (1977), de Cacá Diegues, e depois disso deslanchou sua carreira musical.

Mariana aproveita e pergunta para Zezé: "Você começou a carreira de cantora depois de já ser atriz?"

"Eram sonhos que corriam paralelos, ser atriz e ser cantora", responde Zezé. "Mas como meu pai era professor de violão, torcia pela música. Minha mãe, hoje com 94 anos, era modista e torcia para que eu seguisse a carreira dela. Ela tinha uma situação mais estável que meu pai, que era músico erudito. Comecei a fazer teatro e trabalhava como crooner. Quando 'Xica da Silva' estourou pelo mundo todo, me perguntavam sobre meus planos. Eu dizia que agora queria cantar", gargalha. "Aí, o Guilherme Araújo me empresariou e me levou para Warner, e fomos em frente".

Desde então, Zezé construiu um caminho ininterrupto e premiado na TV e no cinema, e sempre lutou para tornar o país mais humano e menos racista. "Além da Ruthinha, admiro a Léa Garcia, sou fanzoca dela. E da Chica Xavier, maravilhosa. Foram todas referências, de força, de talento. Sempre ficava na torcida para que elas aparecessem mais. Até que chegou o momento de eu sonhar também em estar neste lugar", lembra. "No início da minha carreira, a maioria dos personagens negros não tinha história, carreira, família. Viviam a reboque dos personagens brancos".

Zezé fala sobre a condição de ser mulher, atriz e negra no Brasil. "É exercer a resistência, dar cotovelada para ocupar seu espaço e tentar abrir caminhos para as próximas gerações", desabafa. "Me lembro que fui fazer um curso de cultura negra com a saudosa Lélia Gonzalez. Grande socióloga, negra. Na aula inaugural, ela disse: 'Sei por que vocês estão aqui. Mas lembrem-se: não temos mais tempo para lamúrias. Temos que arregaçar as mangas e virar esse jogo'. Acho que essa é a postura da Ruthinha, da Mariana. O Milton Gonçalves estava falando outro dia: 'Temos que ocupar todos os lugares'. É isso".

Dialogando

A brasiliense Mariana Nunes acredita no diálogo e na empatia contra o racismo. "Neste tipo de matéria, sempre perguntam se já sofremos racismo. Na espera do relato de um caso mais extremo. Você vê ainda hoje atrizes atacadas nas redes. Mas o racismo é algo tão presente no nosso cotidiano e, às vezes, tão sutil que há o fato de eu acordar e ter que pensar na roupa que vou vestir, para entender como serei tratada na rua. Isso já é resultado do racismo", analisa.

"Quando falamos disso, alguns brasileiros sempre respondem que não há racismo no Brasil, que vemos coisas que não existem. Mas só conseguiremos mudar essa realidade quando nos assumirmos assim. Vamos conversar? Como mudamos isso?", diz a atriz, completando o pensamento: "Muitas vezes, o branco diz que o negro também é racista. Ele não é, ele reproduz. Até pela própria sobrevivência, desde a escravidão. A consciência negra existe para pensarmos sobre essas coisas".

Além da série da TV, Mariana aguarda a estreia dos longas 'A Morte Habita a Noite', de Eduardo Morotó, e 'Divino Amor', de Gabriel Mascaro. E indica como acabar com o preconceito: "Abra a escuta, preste atenção no que é diferente", diz.

Ensaio

Coordenação: Brunna Condini

Produção: Rodrigo Barros

Beleza: Mariana Walsh

Fotógrafo: Marcio Mercante

Agradecimento: Lu Figueiredo 

Créditos:

Mariana Souza

Vestido : Maisa Gouveia

Colar: Mônica di Creddo

Anel: Silvia doring

Sapato: Via Curtume

Zezé

Macacão: Ahlma

Sobreposição: Viviane Furrier

Sapato: Via Curtume

Galeria de Fotos

Mariana Nunes (E), Ruth de Souza e Zezé Motta: papo animado e discurso de conscientização Marcio Mercante / Agencia O Dia
Atrizes reafirmaram luta contra o racismo Márcio Mercante / Agência O Dia

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