Chega de assédio! Ações em blocos e no celular ajudam mulheres a curtir Carnaval

Importunação sexual é crime e dá até 5 anos de prisão

Por Gabriel Sobreira

Foliãs curtem o bloco Mulheres Rodadas
Foliãs curtem o bloco Mulheres Rodadas -

Rio - Para muitas mulheres, curtir o Carnaval é uma tremenda dor de cabeça por conta dos frequentes e inconvenientes assédios. Já imaginou uma tenda no meio da folia com segurança, advogada e psicóloga oferecendo suporte para vítimas? E uma função no celular que indica os telefones úteis de combate à violência contra a mulher e ainda uma ONG de apoio? Isso já é uma realidade. Vale lembrar que a folia deste ano será a primeira após a criminalização da importunação sexual (Lei 13.718/18). Antes, isso era considerado apenas uma contravenção penal, com pena de multa. Agora, quem praticá-lo poderá pegar de 1 a 5 anos de prisão.

Na tenda

No caso do bloco Orquestra Voadora (que desfila na terça, dia 5 de março, no Aterro do Flamengo), a ideia da tenda surgiu no ano passado, quando os integrantes, em parceria com o coletivo Todas Por Todas, fizeram uma versão mais modesta da tenda faltando 15 dias para a folia. "A infraestrutura era improvisada, mas tinha psicóloga, advogada e representante do coletivo. Funcionou tão bem que seguimos com a ideia para o Carnaval deste ano, mas de forma mais organizada", conta Ju Storino, musicista do bloco.

O grupo lançou um financiamento coletivo para estruturar melhor o espaço. O apoio foi tão grande que eles não só bateram a meta como arrecadaram o suficiente para montar a tenda em outras duas agremiações: Amigos da Onça e Vem Cá Minha Flor, dois blocos amigos e parceiros na causa.

"Isso pra mim reflete a urgência do 'Ter para onde correr', porque acho que é isso que mais pesa pra gente. Sofrer o assédio e, ao mesmo tempo, a banalização, o silenciamento, a naturalização do ato e não ter pra onde correr. Agora tem. A ideia é receber as mulheres no momento crítico da violência sofrida, disponibilizar atendimento psicológico e jurídico de emergência e distribuir material informativo sobre as formas de violência contra a mulher", defende Ju.

"O Carnaval é a maior e mais bonita festa popular do Brasil. E não combina e nem condiz com a intolerância e o desrespeito. Cabe a nós, organizadores, incentivar a conscientização sobre o assunto e fazer do Carnaval uma festa democrática e igualitária", explica Rodrigo Rezende, presidente da Liga dos Amigos do Zé Pereira.

No celular

Além disso, a ONG Think Olga criou em parceria com o Google uma ferramenta em que a mulher que tiver o sistema operacional Android no celular poderá usar o microfone do Google dizendo: "Ok, Google, como reportar assédio sexual". Assim, o sistema enviará uma mensagem automática indicando que a usuária faça a denúncia em uma delegacia mais próxima ou pelos telefones 180 (Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência) ou 190 (Polícia Militar). Além disso, o texto indica o site da ONG Think Olga para mais informações sobre o tema.

Encontro de blocos marcou a abertura do carnaval não oficial do Rio. Entre eles estava o Mulheres Rodadas - FOTOS Marcio Mercante

Outros blocos

O Céu na Terra desfila no dia 2 de março, em Santa Teresa, e exalta o feminino como parte da natureza humana. O enredo deste ano é 'Fé Menina e Fé Menino'. No repertório, além das tradicionais marchinhas, tem espaço para a música 'Masculino e Feminino', de Pepeu Gomes. "A ideia é dizer aos foliões: 'Vem como você é, seja homossexual, trans, feminino, masculino, nenhum dos dois ou todos juntos'. Estamos há 20 anos nessa jornada pelas ruas do Rio e vamos continuar lutando para que haja respeito e igualdade para todos", frisa Vânia Santa Rosa, uma das fundadoras do bloco.

Bloco Mulheres Rodadas

Em 2013, a jornalista Renata Rodrigues viu na internet, durante o pré-Carnaval, uma foto de um rapaz em um bloco segurando uma placa onde se lia: 'Eu não mereço mulher rodada'. Ela ficou bem incomodada (e com razão!). Afinal, a patrulha sobre os corpos e a sexualidade da mulher não descansava nem no Carnaval. "Por que uma mulher que exerce livremente sua sexualidade é taxada negativamente, enquanto isso para um homem é algo bom? Por que aquele homem, assim como muitos outros, se achava no poder de se intrometer na forma como as mulheres vivem a sua vida?", questiona Renata.

Ela mostrou a imagem à amiga Débora Diniz e, como resposta irônica, fizeram um evento no Facebook: o Bloco das Mulheres Rodadas. "Nossa ideia era que fosse apenas um deboche online, nunca pensamos em realmente colocar o bloco na rua. Mas o evento viralizou, as pessoas começaram a perguntar quando o bloco sairia. Conseguimos reunir músicos de outros blocos, meio no improviso, mas saímos já naquele ano. A partir de então, o bloco virou real, com bateria própria, oficinas e outras atividades", conta Renata. O cortejo sairá na Quarta-feira de Cinzas, às 9h da manhã, do Largo do Machado.

Hoje são cerca de 200 integrantes na bateria e sopros. Além de centenas que acompanham o cortejo. Os homens são excluídos do bloco? "As lideranças no Mulheres Rodadas são femininas, mas há vários homens no bloco. Eles são muito bem-vindos, desde que tenham empatia à nossa causa e respeitem nosso espaço", destaca a jornalista. "Precisamos incluir os homens nessa conversa se quisermos realmente mudar a sociedade", acrescenta.

Renata conta que no ano passado soube de um relato de assédio. "Mas, infelizmente, ele não foi feito no dia e local do bloco, então não pudemos fazer nada além de concluir que, mesmo sendo um bloco de mulheres que discutem e pensam essas questões no dia a dia, não estamos livres de vivenciá-las", lamenta.

Mulheres de Chico 

Completando 13 anos, o bloco Mulheres de Chico foi o primeiro bloco de mulheres do Brasil. "Eu e Glaucia Cabral estávamos curtindo um Carnaval em Santa Teresa com várias amigas e começamos a cantarolar algumas músicas do Chico Buarque. Então, tivemos a ideia de fazer um bloco só de mulheres com as músicas do Chico, o Mulheres de Chico", conta Vivian Freitas, produtora cultural.

O Mulheres de Chico tem 25 integrantes e só mulheres tocam. Segundo a fundadora, é importante mostrar que as mulheres podem estar à frente de uma bateria, criar arranjos, organizar um bloco. "Naquela época (2006), várias escolas de samba não aceitavam mulheres tocando. Nossa atitude sempre foi feminista naturalmente", explica Vivian, que abre uma exceção. "Temos um homem muito importante, o nosso homenageado Chico Buarque", entrega.

O cortejo sairá no dia 9 de março, na Praia do Leme, perto do Costão. Concentração às 16 horas, e vai até as 20h. Quando se trata de assédio, Vivian lamenta o fato disso ainda acontecer. "Nós estamos sempre atentas e alertando para que todos entendam que não toleramos nenhum tipo de assédio. Participamos de campanhas de conscientização, como por exemplo a distribuição de tatuagens temporárias com #Nãoénão, e aproveitamos para alertar sobre isso durante o desfile", conclui.

Legislação

Com a Lei 13.718, de 24 de setembro de 2018, que criminaliza a importunação sexual, Renata torce para que a medida surta efeito. Além disso, a jornalista e as demais lideranças do bloco lançaram uma cartilha em parceira com o Núcleo de Defesa dos Direitos da Mulher da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro (Nudem). "É bom que mulheres conheçam a lei e possam se defender; e homens que assediam também, porque a pena prevista é de um a cinco anos de detenção", avisa.

Galeria de Fotos

Foliãs curtem o bloco Mulheres Rodadas Pâmela Perez/Divulgação
Encontro de blocos marcou a abertura do carnaval não oficial do Rio. Entre eles estava o Mulheres Rodadas FOTOS Marcio Mercante

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