Aventuras Maternas: Excesso de estímulos

Educador e autor de livros como 'Sopa de pai', Marcelo Cunha Bueno diz que as crianças são sobrecarregadas com rotinas intensas

Por O Dia

O educador Marcelo Cunha Bueno:
O educador Marcelo Cunha Bueno: "As crianças são sobrecarregadas com rotinas intensas" -

Rio - Pense na quantidade de aulas que uma criança faz nos dias de hoje. Balé, yoga, futebol, aula de piano, inglês, informática, natação. Além dessas, tem as aulas particulares para melhorar o desempenho na escola, tempo dedicado aos deveres de casa e outras atividades específicas como fonoaudióloga, psicóloga etc. E ainda uma programação extensa de desenhos animados, jogos e canais com diversos tipos de conteúdo para assistir. Ufa! Dá sensação de que não sobra espaço para brincar e muitas vezes não sobra mesmo.

A explicação para tantas atividades diárias na vida das crianças é a chamada "sociedade do desempenho", ou seja, acredita-se que quanto mais um indivíduo fizer, melhores serão suas chances de ser bem-sucedido. "O mundo das multitarefas tem atrapalhado a atenção e o foco das crianças e dos adultos também. O excesso de atividades cria um acúmulo de pensamentos e reflexões malresolvidas. E esse acúmulo gera angústia, ansiedade e incertezas. Bem o que vemos nessas gerações sendo formadas", explica Marcelo Cunha Bueno, educador e autor dos livros 'Sopa de pai' e 'No Chão da Escola: por Uma Infância que Voa', e principal palestrante do evento que a Bic realizou na semana passada sobre educação infantil.

Entre os assuntos abordados, Marcelo destacou a questão dos estímulos e explicou à coluna, em entrevista exclusiva, que exercícios e estudo são fundamentais para o desenvolvimento dos pequenos, assim como saber lidar com os tempos e espaços desocupados por atividades. O alerta, no entanto, é sobre o exagero. "As crianças são sobrecarregadas com rotinas intensas, que reproduzem um universo adulto e as afastam da potência da infância. Os ruídos, estímulos vindos da escola, da televisão e da internet, criam um movimento interno sem parada. Um barulho que ocupa qualquer espaço reflexivo. Quando a criança silencia e interrompe esse fluxo (e esse é um movimento próprio do aprendizado: parar, refletir), sente um vazio, que pode ser importante se entendido como natural, parte do convívio, do crescimento", pontua Marcelo. O educador se refere ao conhecido e temido tédio, tanto por crianças quanto adultos. "Em vez de os pais ajudarem os filhos a lidarem com o tédio e conquistarem outros espaços, enchem-na novamente com atividades, brinquedos, televisão etc. Um ciclo sem fim", completa.

Outra situação que deve ser repensada pelo pais diz respeito ao fato de sempre ficarem preocupados quando os filhos estão mais pensativos. Ao contrário do que muitos dizem, uma criança estar em silêncio não é sinal de problema, mas de imaginação, de criatividade, de pensamento acontecendo. "Vivemos em uma sociedade construída em torno da infância ruidosa, com programas de TV, músicas, tarefas diversas, games etc. Silêncio é visto como uma coisa ruim ou que é boa só para os adultos. Mas, na verdade, o que o silêncio faz é interromper o ruído do mundo, é um portal para dentro de cada um. Mas isso tem um preço, já que não fomos preparados para lidar com o que habita dentro de nós. Por isso, uma educação mais vagarosa, mais silenciosa, mais reflexiva, mais atenta, é importante para mudarmos o ritmo de um mundo, que não tem se mostrado preocupado com as diferenças, com o pensamento livre e com as manifestações amorosas entre as pessoas e o meio ambiente", alerta.

Sobre a pressa na educação infantil, Marcelo conclui: "Diria para aproveitarem enquanto suas crianças cabem em seus colos, choram por um brinquedo perdido, pedem para ler histórias antes de dormir e os amam incondicionalmente. O que queremos que elas sejam não importa nem um pouco para o que elas serão. Valorizar o que elas têm se tornado com o nosso amor é o que vale nessa vida".

 

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