Aventuras Maternas: Pais doentes e separados da filha

Com coronavírus, a cantora Bárbara Amorim e o marido precisaram deixar a filha, Luísa, de 3 anos, aos cuidados de Karol

Por O Dia

Bárbara Amorim, o marido Marcio, a filha Luísa e a ajudante Karol
Bárbara Amorim, o marido Marcio, a filha Luísa e a ajudante Karol -
Imagine se afastar de uma criança pequena durante a pandemia, com medo de infectar a criança? Imagine se isolar dentro da própria casa, sem poder abraçar, nem mostrar que está por perto? Na coluna da semana, a história dos pais que ficaram doentes, com o coronavírus, e precisaram se separar fisicamente da filha de 3 anos durante 14 dias.
Tão perto e tão longe ao mesmo tempo
*Texto de Bárbara Amorim, cantora
Acredito que, todos os dias, somos testados de alguma forma. Mas recentemente passei pelo pior teste da minha vida. Eu e meu marido, Marcio, temos uma filha, a Luísa, de três anos, e pegamos o covid-19 ao mesmo tempo.
Sempre tivemos uma família muito unida, com uma rotina organizada que incluía nossos trabalhos – sou cantora -, escola da Luísa e idas a nossa igreja. Quando não me apresento, sou dona de casa, ou seja, tenho um dia a dia com muita atividade, já que cuido de tudo, e conto com minha ajudante, a Karol, com minha filha. Tudo estava caminhando bem até que essa pandemia virou nossas vidas de cabeça para baixo.
No dia 15 de março, fui para o hospital com muita febre, tosse, dor de cabeça e no corpo. Chegando lá, fiz o teste e, após dois dias, fui positivada com o covid-19. Fiquei dois dias na UTI isolada, vivendo momentos de incerteza, mas sempre com muita fé. Nesse período, meu marido também foi internado com suspeita e nossa filha ficou com a Karol. Como as duas não apresentaram sintomas, mantivemos elas longe de todos porque poderiam estar com o vírus e transmitir para outras pessoas.
Felizmente, eu saí bem do hospital, mas não poderia ter contato por 14 dias com minha filha para protegê-la da contaminação. Logo depois que eu saí, meu marido também foi positivado, também com alta pra casa. Decidimos, então, não contar que estávamos no quarto do mesmo apartamento que ela. Achamos melhor, para controlar a ansiedade. E para que a cabecinha dela não ficasse tão mexida com tudo isso, falávamos que estávamos em um esconderijo e que a Karol ficaria cuidando dela nesse período.
Para que ela acreditasse realmente que não estávamos lá, orientamos a Karol a fazer um calendário onde Luísa riscava todos os dias até chegar o que a encontraríamos novamente, o dia que “chegaríamos em casa”. Fazíamos ligações por vídeo de manhã e à noite, para que ela ficasse mais confiante e não se sentisse abandonada por nós, e também para tentar manter nosso psicológico de pais fortalecido. Foi um período bem difícil, onde ouvíamos a voz dela e não podíamos abraçá-la, beijá-la.
No primeiro dia da “história do esconderijo”, eu chorei muito. Tanto que voltei para o hospital, pois tive uma recaída. E fiquei mais quatro dias na UTI. Por lá, além da preocupação com nós mesmos, assistimos o sofrimento de outras pessoas e é tudo muito angustiante. Especialmente porque eu só pensava em voltar para a minha família. Então, tive novamente alta e voltei definitivamente para casa, mas fui direto para o quarto que já estava antes com o Marcio. E ela continuava sem saber que estávamos lá.
Sem que Luísa visse, Karol colocava as refeições na nossa porta, enquanto a minha pequena assistia a um desenho e se distraia. Foram dias que fomos sustentados pelas orações e pela fé do nosso coração. Mas após os 14 dias de isolamento, tivemos o reencontro tão esperado com nossa filha e com a Karol, que foi um verdadeiro anjo para todos nós. Foi emocionante e muito marcante. Como mãe, aprendi nesse período a dar mais valor ainda a todos ao meu redor e de ser grata por cada momento. Com certeza, após essa experiência, minha vida não será mais a mesma. Assim como a de todo mundo também não.
Que esse tempo que estamos vivendo distantes de quem amamos possa nos ensinar a estar em família e entre amigos e a cuidar do próximo com muito amor e esperança. Agora, estamos todos juntos em casa, aguardando que tudo isso acabe. Nossa rotina mudou um pouco, é claro. Brincamos mais juntos, vamos para cozinha, valorizamos cada momento. Vencemos, todos juntos, o covid-19.

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