Desejando dias mais iluminados - Arquivo pessoal
Desejando dias mais iluminadosArquivo pessoal
Por Priscila Correia
Rio - Um fenômeno astronômico que aconteceu há quase 800 anos, se repetiu na última semana e ainda pode ser visto no céu, a Estrela de Belém, também chamada Estrela de Natal. E foi ela que me fez refletir e escrever a última coluna do ano com meus pensamentos maternos sobre o que passamos em 2020 e sobre os desejos que ficam para o próximo ano.

Tal como essa conjuntura planetária rara, algo que parecia intangível aconteceu. Um ser microscópico trouxe medo para as famílias, tirou as crianças da escola e transformou a vida de milhares de mães num longo puerpério, mesmo para quem já tem filhos crescidos. Afinal, os 40 dias de pós-parto que trazem dúvidas, preocupações, mudanças físicas e uma montanha russa emocional e hormonal gigantesca se repetiu nos meses de quarentena e adaptação a uma nova realidade para a qual ninguém estava pronto. Não houve curso intensivo nem preparo psicológico. De uma sexta para sábado em meados de março, escolas fecharam, papéis higiênicos se esgotaram, o álcool em gel passou a ser companhia constante de todos e os cronogramas de atividades para crianças tomaram conta da nova realidade materna/paterna.

A casa virou "home tudo". Além de ser transformado em um escritório, já que foi preciso deixar os postos de trabalho outdoor literalmente do dia para a noite, nosso lar também virou academia, escola, restaurante, espaço de recreação e uma grande bagunça de brinquedos demarcando o percurso que precisava ser gerenciado de novas formas. E apesar da teórica adaptação inicial, não foi fácil. Na realidade, não está sendo fácil ainda.

Mães e pais que trabalhavam fora e tinham uma vida organizada, com rede de apoio e ajudantes, se viram sozinhos. Os que trabalhavam em home office ou com as tarefas do lar precisaram aprender a dividir espaço com o companheiro que ia pra rua, ou com as crianças que já não sairiam mais para aquela rotina milimetricamente organizada. Como num castelo de cartas, tudo mudou, tudo precisou se reestruturar.

Aos poucos, as aulas virtuais que pareciam impossíveis começaram a se encaixar numa nova dinâmica, as telas se tornaram uma espécie de babá, a natureza se tornou distante e a culpa cresceu. Sim, se a palavra culpa já era presença constante no dicionário imaginário das mães, ela se tornou mais real e compartilhada amplamente nas mídias sociais. De um lado, sabíamos que precisávamos nos trancar, resguardar a nossa família e quem nos cerca. De outro, como imaginar nossos filhos passando por um ano tão cruel, trancados, estressados, angustiados?

E se a palavra do ano foi "readaptação", com o novo curso que a vida nos obrigou a tomar, o terreno para novas invenções, posicionamentos e ideias se tornou mais fértil. Não foi raro conhecermos novos prestadores de serviços e produtos, olharmos pessoas se reinventando profissionalmente, mães e mulheres empreendendo mesmo dentro de casa, tendo a coragem de investir em algo próprio que queriam há tempos mas faltava certo empurrão.

E as amizades com antes desconhecidos? Aquele vizinho que apenas trocava um “oi”, se tornou um apoio em muitos momentos; entregadores que por vezes pareciam até invisíveis se tornaram nossos heróis, essenciais para manter o mundo girando e cúmplices da nossa ruptura com o mundo externo; grupos de desconhecidos se uniram para ajudar pessoas e animais em situação de rua. A solidariedade se tornou exemplo genuíno de esperança no amanhã.

Hoje, quase dez meses depois que tudo começou, ainda nos sentimos – ou grande parte de nós – como em um filme apocalíptico. Mas o medo de ser contaminado ou perder alguém que amamos começa a dividir espaço com a esperança da chegada da vacina, com a possibilidade de um novo começo. Sim, eu sei que não bastará apenas uma seringa pra voltar no tempo. Na realidade, não é para trás que queremos voltar, porque afinal muitas fraquezas sociais ficaram bem aparentes e a cada dia temos a responsabilidade, como pais, de mostrar atitudes transformadoras para que nossos filhos cheguem ao fim desse ciclo em um mundo novo, onde o coletivo seja a potência mais importante.

E, voltando ao fenômeno da Estrela de Belém, aquele que falei lá no início que me motivou a escrever esse artigo, um desejo parece se aproximar muito dessa coletividade tão fundamental para nossos novos tempos. Que a proximidade desse acontecimento com o Natal não seja apenas uma coincidência dos astros, mas um “aviso” de que tudo, em breve, vai mudar. Não apenas por Astronomia ou Astrologia, mas pela fé no "elo", na conjunção desses dois planetas gasosos, feitos da invisibilidade de gases e contornados por anéis, que simbolizam esse movimento de corrente, de ciclo positivo.

Que 2021 chegue com vacina, saúde, liberdade, dias mais gentis para todos nós e o poder da coletividade.