Leonardo Nanes com o certificado da primeira dose da vacina.
Leonardo Nanes com o certificado da primeira dose da vacina. "Começamos essa semana uma importante etapa para o término dessa pandemia", diz.Divulgação
Por Priscila Correia
Rio - A vacinação contra a Covid-19, finalmente, começou no Brasil. Depois de meses de espera e embates políticos, as pessoas começam a respirar aliviadas, esperando a sua vez na fila. Entretanto, embora já seja uma realidade, o planejamento sobre cada etapa ainda não foi totalmente divulgado pelos governantes. Além disso, muitas dúvidas ainda permeiam a mente das pessoas.

A seguir, conversamos com alguns médicos - Leonardo Nanes, cardiologista do Hospital Sírio-Libanês; Erica Mantelli, ginecologista, obstetra da Clínica Mantelli, Mariana Vasconcelos,infectologista da Fundação São Francisco Xavier; Melissa Palmieri, pediatra com aperfeiçoamento em infectologia e coordenadora médica de vacinas do Grupo Pardini; Alex Lacerda, alergista e imunologista dos hospitais Sirio-Libanês, Samaritano e Beneficência Portuguesa; Marco Antonio Iazzetti, infectologista, pediatra e professor do curso de Medicina da Universidade Santo Amaro (Unisa); e Ana Cristina Ribeiro Zollner, pediatra, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e também professora do curso de Medicina da Unisa - para entender melhor algumas dessas questões, especialmente sobre mulheres grávidas, lactantes e crianças.
Por que as grávidas e lactantes estão fora da lista de pessoas que receberão a vacina da covid?

Leonardo Nanes: "Simplesmente porque não foram incluídas nos estudos. Normalmente, os estudos não incluem grávidas e lactantes dentro da população alvo. Porém, nessa última semana, uma nova recomendação da FEBRASGO incluiu na lista de pessoas que podem ser vacinadas as gestantes, especialmente as que estão no 3⁰ trimestre".

Caso alguma mulher grávida insista em se vacinar (mulheres que estão no início da gestação, mas ainda não aparece a barriga ou que não saibam que estão grávidas), o que pode acontecer com ela e o bebe?

Marco Antonio Iazzetti: "Não recomendo que as mulheres que estejam com suspeita de gravidez insistam em se vacinar. Não há como prever reações nos fetos. Sabemos, porém, que as grávidas podem e devem receber a vacina contra o vírus da Gripe (Influenza), que é vírus inativado, como é o caso da vacina do Instituto Butantan. Porém, repito, as vacinas contra o Sars-Cov2 são novas, e ainda não possuem liberação tanto dos fabricantes como da ANVISA para serem utilizadas em gestantes".

As mães que amamentam podem tomar a vacina Coronavac?

Erica Mantelli: "Essas mulheres devem avaliar a sua situação juntamente com o seu médico, levando em conta a sua situação/exposição/riscos pessoais e após buscar informações adequadas, decidir se vai vacinar ou esperar. De qualquer modo, não é recomendado suspender a amamentação apenas para fazer a vacina, pois os benefícios de amamentar são inúmeros. Por se tratar de uma situação nova, nós precisamos ter mais paciência e aguardar, afinal as recomendações podem mudar, ainda mais no grupo de lactantes; já que mesmo mulheres com COVID não são impedidas de amamentar, uma vez que os benefícios da amamentação superam os riscos. Porém, hoje não podemos afirmar sobre riscos e efeitos adversos, já que a vacina não foi testada em gestantes e lactantes".

Como proteger essa mulher que está grávida e, como não poderá ser vacinada, pode contrair o vírus?

Mariana Vasconcelos: "Todas as medidas de proteção como o uso de distanciamento social, uso de máscaras e higiene frequente das mãos (com água e sabão ou álcool-gel) deverão ser mantidas, independentemente da vacinação".
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E as crianças? Há casos de crianças com Covid-19, inclusive que vieram a óbito. Por que não vaciná-las?

Alex Lacerda: "Não há dados de eficácia e segurança com o uso de vacinas contra a Covid-19 na faixa etária pediátrica. Crianças não são 'adultos em miniatura' e têm uma resposta imunológica particular. Não há previsão de estudos específicos em crianças com as vacinas hoje disponíveis".

Acha seguro, sem vacinas nos pequenos, retornar às aulas?

Ana Cristina Ribeiro Zollner: "Há os que argumentam que a saúde mental das crianças está sendo prejudicada e por isso é preciso voltar logo às aulas. Neste ponto, vale ressaltar que não é só a saúde delas é que está prejudicada, mas de toda a população. Idosos e adultos, todos passam por um momento difícil, uma vez que o confinamento e todas as outras restrições e orientações acabaram se tornando uma forma de sobrevivência para muita gente.
Não está sendo fácil pra ninguém. Portanto, se a opção for voltar, é preciso que essa retomada seja com todo cuidado - distanciamento entre os alunos, utilização de máscaras, higiene constante das mãos com água e sabão e álcool em gel, evitar lanchar na escola, atividades realizadas preferencialmente ao ar livre e alternância entre grupos nas dependências da escola. As salas de aula precisam ter um número menor de alunos e é preciso que existam menos pessoas dentro do ambiente escolar.
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Deve-se, também, respeitar o aspecto epidemiológico da cidade onde se está essa escola - se a cidade estiver na fase vermelha, por exemplo, a retomada das aulas é impossível. Todas essas questões têm que ser discutidas, precisam ser construídas com os gestores locais, que vão apontar a situação epidemiológica local, em parceria com a escola e os cidadãos.
Não é responsabilidade somente da escola, nem exclusiva dos pais, nem dos pediatras. É uma construção coletiva para que seja uma decisão muito consciente e muito madura para que quando esse passo for dado, ele seja assertivo e a melhor decisão para aquele momento. O que não se pode é dizer que quem vai decidir é, exclusivamente, o profissional médico, a escola ou a família. Essa é uma decisão que precisa ser conjunta, compactuada, porque todos têm sua dose de responsabilidade.
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Se os pais assim decidirem, se a escola também se sente confortável em receber os alunos e se o pediatra da família concorda com o retorno, OK, a criança retoma as aulas com todos os cuidados (de responsabilidade de todos os envolvidos). O que não dá é alguns concordarem, outros não, e depois, caso venham a ocorrer contágios – que pode ocorrer em qualquer situação, até entre pessoas isoladas, pois há diversos casos de pessoas que pegaram a doença de entregadores de comida, por exemplo – um responsabilizar o outro. A cidadania, a ética, o respeito ao próximo e ao coletivo devem liderar qualquer decisão neste sentido".

Embora as crianças sejam as que menos transmitem ou desenvolvem a doença, não é extremamente inseguro não ter vacina para elas?

Alex Lacerda: "O tempo de desenvolvimento destas vacinas foi um recorde para a humanidade, mesmo assim ainda não houve tempo hábil de estudos neste grupo. Em um mundo ideal, seria fundamental que as vacinas também estivessem disponíveis para as crianças e provavelmente em próximas etapas estarão. No momento atual, deve-se focar no grupo que realmente pode ter maiores complicações com uma infecção pela Covid-19. Deve-se reforçar que as crianças não são um grupo de risco e tem uma taxa extremamente inferior de complicações".

Ainda sobre as crianças, escuta-se muito falar sobre, quando pegam, serem assintomáticas. Mas mesmo assim elas transmitem, certo?

Leonardo Nanes: "As crianças estão entre as que mais transmitem, pois, embora assintomáticas, 'transportam' o vírus. E como é mais difícil mantê-las isoladas, de máscaras etc, podem ter contato com o coronavírus com maior facilidade, e acabam levando para os familiares e outras pessoas que convivem, embora, elas mesmas, não pareçam estar contaminadas".

Continua a medida de crianças menores de dois anos não usarem máscaras? Como protegê-las então, se ainda não têm compreensão do que está acontecendo e ao mesmo tempo colocam a mão em tudo e levam à boca?

Melissa Palmieri: "Sim, para elas devemos manter as outras estratégias não farmacológicas, que são a lavagem frequente das mãos, manter os maiores de 2 anos que se aproximam da criança utilizando máscaras, evitar exposição em aglomerações e/ou distanciamento social".

Quanto tempo depois de tomar a vacina as pessoas estarao, de fato, imunizadas? Apenas depois da segunda dose?

Marco Antonio Iazzetti: "Os estudos mostraram que pode haver uma imunidade após 22 dias depois de recebida a primeira dose da vacina. Porém, o melhor nível de proteção ocorre após a segunda dose"

Ainda que estejam imunizadas, protocolos de distanciamento, higiene e máscaras deverão ser mantidos, certo? Por quê?

Melissa Palmieri: "Exato. Temos dois pontos aqui: o primeiro é com relação ao tempo de proteção que a vacina promove, que ainda não se tem informações concretas, e sobre os dias necessários para a produção de anticorpos, que permitem uma infecção no intervalo entre a aplicação da vacina e o início da resposta imunológica. Por isso, todos os protocolos de segurança contra a Covid-19 devem ser mantidos".

Existe uma ideia entre a sociedade médica que esse vírus será como a gripe, que, devido às suas mutações, teremos que vacinar todos os anos?

Leonardo Nanes: "Muito cedo pra saber. Mas mutações são comuns nos vírus e já estamos vendo acontecer. Acredito que, no futuro, deva ser aplicada em conjunto com a da gripe e da H1N1".
Acredita que a vacina tenha que ser obrigatória, ja que temos muitos negacionistas e movimentos antivacina?

Alex Lacerda: "Os movimentos antivacina sempre atrapalharam o combate às doenças infecciosas, vide o Sarampo que estava quase erradicado do país e retornou com um surto em 2019. Agora também temos uma onda de negacionismo da ciência e é claro que estes movimentos podem atrapalhar a programação de vacinação em massa. Acredito que temos a responsabilidade de reforçar a importância da ciência e melhorar o entendimento do grande público sobre a questão crucial que é a vacinação. Já há uma decisão do Supremo Tribunal federal (STF) que autorizou medidas restritivas para quem se recusar a receber a vacina e provavelmente este será o caminho para evitar a 'fuga' da vacinação"

Quais efeitos colaterais podemos esperar das vacinas que serão dadas no Brasil?

Marco Antonio Iazzetti: "O que foi mostrado nos estudos clínicos é que as reações adversas das vacinas são semelhantes às reações que temos em outras: dor local, cefaleia, dor no corpo, dor de garganta. Estes são os efeitos mais comuns relatados".

Quais sequelas cardíacas a doença pode gerar?

Leonardo Nanes:  "A Covid é uma doença inflamatória que pode afetar diversos órgãos, incluindo o coração. A principal delas seria uma inflamação cardíaca chamada de miocardite, que pode levar à insuficiência cardíaca. Portanto, a melhor forma de prevenir e tratar é procurar seu médico na menor das suspeitas para uma avaliação".

É possível imaginar um mundo sem coronavírus como vimos com a erradicação de outras doenças a partir da vacinação em massa?

Mariana Vasconcelos: "É uma situação um pouco mais complicada para vírus respiratórios. Os coronavírus existem há muito tempo, talvez seja mais provável imaginarmos que a situação da covid fique semelhante à influenza: com controle com vacinação anual".