Por O Dia
As crianças parecem cada vez mais maduras. Mas se existe uma etapa da vida que, na maioria das vezes, elas não sabem lidar é com a chegada da puberdade. Afinal, são muitas mudanças, desde crescimento de pelos, mudança da voz, espinhas etc até, no caso das meninas, a chegada da primeira menstruação. Mas o momento, além de marcar uma grande mudança em suas vidas, às vezes chega cheio de dúvidas, não apenas para os pequenos, mas para os pais também.
O processo de mudanças nos corpos das crianças, normalmente, demora 4 anos para finalizar.
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“Nas meninas, entre 9 e 10 anos, aparece o broto mamário, que geralmente é assimétrico e pode ser doloroso, e por volta dos 12/13 anos chega a menstruação. Nos meninos, o aumento do volume testicular e peniano também acontece no mesmo período da chegada da menstruação das meninas. Já o estímulo do crescimento, chamado de estirão puberal (pico máximo), seguido do aparecimento de pelos pubianos e axilares, chega em média entre 11 e 12 anos para ambos, e podem gerar odores axilares devido ao desenvolvimento do pelos e glândulas nessa região. Nesse período também aparecem as espinhas e as dores nos ossos longos, devido ao crescimento muitas vezes acelerado. Ao final do processo, habitualmente há um ganho de massa muscular nos meninos e de massa de gordura nas meninas”, explica o endocrinologista Carlos A. Martins, da Clínica First. E complementa: “O aparecimento antes ou depois dessa faixa etária (8 a 13 anos nas meninas e 9 a 15 nos meninos) ou alterações na ordem merecem investigação”.
Para a psicóloga Júlia Valdetaro, desde pequenos os pais já podem começar a falar sobre as mudanças do corpo, mostrar e explicar de forma natural essas mudanças, tanto a parte biológica, como comportamental, mudanças físicas, dentre outras.
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“É necessário abrir espaço para esse diálogo, criando uma abertura para que os filhos possam perguntar e se sentir seguros para tirarem suas dúvidas. É um momento que impacta e causa transformações, e muitos pais ficam com receio de como abordar, e quanto maior naturalidade o tema for abordado, maior naturalidade o filho vai lidar com as transformações. Cada criança tem sua particularidade. Então, é importante que o filho/filha entenda que cada um tem o seu próprio tempo para as transformações, e que elas vão chegar em algum momento, dentro do tempo de cada um, pois nesta fase há muita comparação entre os amigos, e normalmente as crianças que estão nos extremos, que se desenvolvem muito rápido ou aqueles que desenvolvem muito devagar, às vezes ficam abalados, pois se destacam dos demais amigos que são os adolescentes", afirma.
Ele continua: "Então, quando o jovem tem a consciência já desde cedo, de forma natural, do que vai acontecer com seu corpo e que aprende a respeitar o seu próprio tempo, isso parece não preocupar tanto. Portanto, nessa hora, ter informação é o ideal para se sentir mais seguro, até para evitar a preocupação se há algum problema. Outro ponto recomendado é levar ao médico, para que o adolescente possa tirar suas dúvidas e tranquilizá-lo do processo que está passando”, esclarece.

A também psicóloga Ana Gabriela Andriani diz, ainda, que é importante que os pais fiquem atentos a como e quando as crianças vão se dando conta das mudanças corporais, já que cada uma tem seu tempo para perceber e viver as transformações.
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“Algumas são mais atentas ao corpo, outras menos. Nesse sentido, cabe aos pais irem tentando se adequar à vivência e aos questionamentos que estão acontecendo no momento, com muito cuidado para não se antecipar sinalizando uma questão com o corpo que pode, ainda, não estar sendo sentida pela criança e também para não se distanciar ou negligenciar uma preocupação que ela possa estar trazendo. O ideal é que os temas sejam tratados à medida em que a criança questiona ou mostra alguma preocupação sobre o corpo", conta.
Ela continua: "Algumas vezes, os pais trazem suas próprias angústias e as sobrepõem à experiência do filho ou filha, sem isso estar sendo vivido por ele ou ela. Da mesma forma, outras vezes, subestimam algum sofrimento dizendo que a criança não tem razão para se sentir feia, por exemplo, e, com isso, perdem a oportunidade de abrir um espaço de comunicação e entendimento muito significativo com ela. Muito da vivência do corpo fala do modo como a criança e o adolescente se sentem em sua vida emocional - mais ou menos seguros sobre o que são, mais ou menos aceitos em relação aos grupos dos quais participam (família, escola, clube etc) etc”, pontua.
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Especificamente sobre as meninas, que muitas vezes têm o momento da primeira menstruação carregado de vergonha, Ana Gabriela enfatiza que, quanto mais o tema for abordado com naturalidade, melhor.
“É interessante respeitar seus questionamentos e mostrar que a menstruação faz parte do desenvolvimento da mulher e que sua chegada mostra que a menina está crescendo de forma saudável. No caso da menstruação acontecer de forma precoce, uma conversa com o médico será importante para que possam avaliar juntos o que fazer e o que a filha pode saber sobre isso. Vale a pena também tentar descolar a menstruação da ideia de dor, sofrimento e restrições, e deixar que a menina tenha sua própria experiência com ela. Não é porque a mãe sente cólicas, por exemplo, que está definido que a filha também sentirá”, complementa.

Preocupações e soluções
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Embora quase sempre as crianças tenham um desenvolvimento no período esperado, é preciso ficar de olho se cada etapa está sendo “seguida” conforme seu curso natural. O estirão puberal, por exemplo, que é o pico de crescimento em ambos os sexos, pode causar dores nos ossos longos (pernas e braços), mas que não trazem problemas futuros.

Nas meninas, é normal ter como um sinal que precede a menstruação o aparecimento dos pelos pubianos. “Nesta época, a maturação dos seios completa, ficando a sensação de "inchaço " e dor, e também podem ocorrer alterações do humor, sono etc. Existe uma escala chamada "Tanner", em que é possível classificar de pré-púbere a adulto. A passagem de estágio se dá em 1 ano e o atraso de 6 meses já deve ser considerado anormal”, explica Carlos.

A endocrinologista pediátrica Fernanda André comenta, ainda, que algumas crianças relatam dores ósseas no período de crescimento acelerado, a chamada dor de crescimento.
“Existe uma síndrome chamada de Osgood-Schlatter, que é muito comum na fase de estirão de crescimento, em que ocorre uma irritação da cartilagem de crescimento devido ao tracionamento excessivo do tendão patelar no joelho”, esclarece, lembrando, ainda, que toda queixa de dor, independentemente de ser no período de estirão, deve ser levada ao pediatra da criança para que ele exclua outras causas que não a dor de crescimento.
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A médica chama a atenção, também, para outra situação importante, que é quando a criança precisa regular os hormônios com medicação. “Tanto em meninas quanto em meninos, o tratamento depende do tipo de puberdade precoce. Na forma chamada central, o procedimento consiste em injeções, mensais ou trimestrais, de um medicamento que faz a puberdade regredir e “freia” o avanço da idade óssea. Quando a puberdade apenas está um pouco antecipada e evoluindo lentamente, em geral, não há necessidade de medicamentos, mas a criança deve ser acompanhada com especialista”.
Para o endocrinologista e metabologista José Marcelo Natividade, quando a puberdade é precoce e há comprometimento da estatura final, a criança pode se tornar fértil e de aparência adulta antes do tempo, e isso pode ocasionar alterações psicossociais. “O tratamento se dá pelo uso de hormônios para bloquear o eixo hormonal, que provoca sua antecipação. Isso ocorre quando a hipófise, glândula localizada no cérebro, começa a liberar hormônios que estimulam as gônadas (ovários e testículos) a trabalharem, liberando os hormônios sexuais (estrógeno e testosterona), que começarão a agir no organismo provocando as alterações da puberdade”, avalia.

E um detalhe importante: o pediatra é o médico da criança e, a partir do momento que essa criança se torna adolescente, existe uma especialização que se chama Hebiatria, que é o médico do adolescente.

“Já ficou mocinha?”

Embora meninos e meninas passem pela puberdade com muitas mudanças, nas meninas, habitualmente, esse crescimento é associado à chegada da menstruação. A ginecologista Daniela Calito explica que a primeira menstruação ocorre, em média, 2,6 anos após os primeiros sinais da puberdade.
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“Passado o pico do estirão de crescimento, as mamas, que no início eram apenas botões, começam a aumentar discretamente de volume junto com o alargamento das aréolas e, de repente, se percebe uma diferenciação mais clara entre mamas, aréolas e mamilos, formando elevações secundárias. Aí está um bom sinal para ficar alerta: a chegada da menstruação pode estar próxima. Outra mudança perceptível são os pelos pubianos que se tornam mais escuros, longos e grossos, atingindo a região de grandes lábios e monte pubiano”, esclarece.

É importante lembrar, ainda, que após a menina menstruar, o acompanhamento médico deve ser feito pelo pediatra e ginecologista: o primeiro aborda vacinação, saúde e qualidade de vida como um todo e segundo vai tratar sobre ciclo menstrual, início da vida sexual, doenças sexualmente transmissíveis, prevenção de gravidez indesejada etc.
“A gente estabelece que a mãe deve levar ao pediatra até os 16 anos de idade. Mas quando a menina começa a menstruar e tem algum problema relacionado, o ideal é que ela faça essa visita ao ginecologista, independentemente da idade, para conduzir melhor o caso. Mas se não tiver nenhum problema, ela pode continuar consultando com um pediatra, que está apto a orientar sobre o desenvolvimento no geral”, determina Adriano Xerfan, especialista em Endocrinologia Ginecológica.

Outra informação importante é sobre como costumam ser os primeiros anos de menstruação da menina. Naira Scartezzini Senna, que é ginecologista e obstetra, lembra que esse período tende a ser de muitos ciclos anovulatórios, isto é, ciclos menstruais irregulares e sem o estímulo da ovulação correto. Isso acontece porque é um organismo aprendendo a funcionar. Então, é normal que essas meninas, em seus primeiros anos, tenham menstruações irregulares, ainda um pouco bagunçadas, justamente por causa dessa curva de aprendizado do corpo da mulher neste início da vida reprodutiva.
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“Isso não é um problema. É esperada essa irregularidade. Nós chamamos inclusive de imaturidade do eixo hormonal e hoje em dia a gente vê isso com muito menos ressalva ou preocupação. Ou seja, a menina pode não menstruar todos os meses; o sangramento pode durar uma semana e depois passar dois meses sem aparecer; a menstruação pode variar de marrom a vermelho vivo dependendo do fluxo; e a cólica pode acontecer sem muita intensidade. O amadurecimento hormonal da menina pode acontecer nos primeiros anos da menstruação ou um pouco depois. Não há um tempo exato, cada corpo tem seu tempo. E por isso é importante o acompanhamento ginecológico”, enfatiza Naira.

Mas, e afinal, a pandemia, de alguma forma, está adiantando ou atrasando os sinais da puberdade? “Recentemente, saiu um estudo no Jornal de Pediatria da Itália sobre o aumento da incidência de puberdade precoce e aceleração da puberdade em meninas durante e após o lockdown italiano, devido a pandemia de Covid-19. Nesse estudo, levantam a hipótese que o aumento de sobrepeso e obesidade e uso de eletrônicos poderiam ter possível papel na puberdade e sua progressão. No entanto, ainda são hipóteses e mais estudos são necessários para determinar quais fatores estão envolvidos e como eles interagem”, conclui Fernanda André.