Thaíse Ramos e a filha Ana Clara: Fada Verde ArranjosDivulgação
Por Priscila Correia
Publicado 29/03/2021 18:08
Rio - Mãe de Ana Clara, de 9 anos, Thaíse Ramos foi demitida um mês após o início da pandemia. Mas, embora a vontade de conseguir um novo trabalho fosse enorme, assustada com tudo que estava acontecendo no mundo, preferiu dar um tempo em casa para cuidar da saúde dela, da filha e do marido. “Precisava trabalhar, mas tinha medo. Então, fui ficando agoniada, sem nada para distrair a minha mente. E, um dia, de forma muito intuitiva, pensei em fazer arranjos com suculentas e cactos, que eu amo e são fáceis de cuidar, além de lindos. Sempre gostei de plantas e seria uma boa ideia unir a necessidade de ter um trabalho com algo que fizesse bem para o emocional, especialmente nesse momento. Comecei a estudar bastante sobre o assunto para não fazer nada aleatoriamente e, quando me senti preparada, criei o nome Fada Verde Arranjos. Com tudo organizado, fiz a página no Instagram, comecei a postar meus trabalhos e a vender. Criei a empresa oficialmente em junho de 2020. Hoje, mesmo com a volta para a minha área, sou jornalista, mantenho a Fada Verde, pois, além de continuar gerando renda e de não sabermos o dia de amanhã, ela funciona como hobby, é a minha válvula de escape. Esqueço de tudo quando estou fazendo meus arranjos. Essa ideia me ajuda na saúde mental também, sabe? Estou sobrevivendo a esse desespero da pandemia, ao medo que ela me causa, com a ajuda da Fada Verde”, conta.
A história de Thaíse é semelhante a de 8,5 milhões de mulheres, que também deixaram a força de trabalho, de acordo com último dado disponibilizado pelo Pnad Contínua, do IBGE. Por outro lado, segundo informações da Rede de Mulheres Empreendedoras, houve um crescimento de 40% no empreendedorismo feminino também no último ano. Mas, sem emprego, como investir e recomeçar? Paula Costa, especialista em marketing do projeto Iniciativa Materna, a maioria das mulheres, da classe C e D iniciam seu empreendedorismo sem investimento inicial, buscando soluções com o que têm em casa ou na prestação de serviços. "A necessidade de sobrevivência é o que as move. Na classe A e B, o impulso está em ressignificar a carreira", explica.

Para a psicóloga Rosangela Sampaio, a perda do emprego, especialmente nesse período, não afeta o equilíbrio financeiro da família apenas, mas o emocional e a autoestima da mulher como um todo. “As dificuldades financeiras estão longe de ser o único problema ligado ao desemprego. É fácil entender o porquê. Boa parte das pessoas conecta seus objetivos, propósitos e senso de identidade à realização ao trabalho. Por isso, a demissão pode ser um dos eventos mais traumáticos na vida de um ser humano", pontua - segundo uma pesquisa do instituto americano Pew Research Center, 44% das pessoas que estão desempregadas há seis meses ou mais afirmam que o desemprego produziu mudanças significativas em suas vidas; 43% perderam contato com os amigos; 38% dizem que seu autorrespeito diminuiu e a maioria afirma que os problemas emocionais aumentaram drasticamente.
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“A atuação profissional nos passa segurança, estabilidade e pertencimento e, por isso, podemos considerar uma fonte de bem-estar e equilíbrio psicológico e/ou social. E nessa época da pandemia, com a instabilidade econômica presente em todos os segmentos, essa perda de emprego se torna ainda mais traumática, especialmente para as que são mães e precisam prover alimentação, estudo e tudo mais que os filhos precisam”, explica.
Empreendedorismo materno
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Fundadora e CEO da B2Mamy, primeira empresa que capacita e conecta mães ao ecossistema de inovação e tecnologia para que elas sejam líderes e livres economicamente, Dani Junco conta que, desde o começo da pandemia, percebeu várias mulheres sendo demitidas, mas, ao mesmo tempo, um crescente número de empreendedoras mães surgindo pela necessidade de criar um negócio próprio para se manter. A seguir, ela fala um pouco mais sobre o empreendedorismo materno no Brasil:

Entre as mulheres que empreendem e são mães, qual é o tipo de nicho que costumam investir?
Dani Junco - Em média, as áreas que as mães e mulheres mais investem são: moda, saúde, educação, cuidados, e-commerce e alimentação. A gente também vê uma grande mudança e muitas mulheres vêm investindo na área da tecnologia, trabalhando com drones, base de dados e tecnologia de ponta. Mas o grande volume de mulheres acaba investindo nos nichos principais citados anteriormente.

Quando não se tem dinheiro para empreender com altos valores, como fazer?
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Para empreender, não é necessário ter altos valores para investir. O principal é ter um problema claro que sua solução pretende resolver. Eu comecei a B2Mamy inicialmente com 0 reais. Com a internet, nunca foi tão fácil criar o próprio negócio, mas você vai precisar de dinheiro para passar para as próximas fases, quando o negócio começar a crescer e você precisar investir em mais estoque ou usar mais marketing. Quando chega nesse ponto, é preciso buscar captação de investimentos.

Existe algum tipo de banco de investimentos que ajude mulheres que querem começar pequenos negócios com empréstimos - dedicado a mulheres mesmo, não qualquer tipo de empresa? Se sim, quais sao as "regras" para conseguir um aporte?
Para um negócio, existem vários tipos de dinheiros. Muitas vezes pensamos apenas no dinheiro que vem direto do cliente quando ele compra seu produto/serviço, mas muitas vezes essa fonte de renda não é suficiente para conseguir dar o próximo passo. Para isso, é preciso buscar um investimento. E esse investimento pode vir de várias maneiras: crowdfunding, rodada de investimento anjo, créditos com bancos, friends and family funding, entre outros. Sim, existe. A Wishe é um grupo de investimento focado em startups inovadoras lideradas por mulheres que tem como objetivo eliminar o gap de gênero no ecossistema de startups, levando capital para empresas fundadas por mulheres com alto potencial de crescimento, oferecendo educação e conexão para quem investe e gerando valor econômico e impacto social. A B2Mamy, junto com a Distrito e em parceria com a Endeavor, promoveu o estudo "Female Founders Report 2021". Nele, foi apontado que somente 4,7% das empresas brasileiras são lideradas por mulheres e dos US$3,5 bilhões de investimentos feitos em startups brasileiras em 2020, apenas 0,04% do total foram para startups de mulheres.

O que mais impulsiona uma mãe a abrir um negócio? Perda do emprego? Querer controlar melhor o tempo?
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Existem 3 pilares que fazem com que uma mãe abra seu próprio negócio:
1 - perda do emprego: a cada 10 mulheres, 4 saem dos seus empregos após a maternidade
2 - flexibilidade: ter a própria empresa permite que as mães consigam controlar melhor o tempo, visto que muitas delas possuem uma dupla jornada e é ainda mais complicado administrar as agendas com os filhos.
3 - vontade pessoal: a maternidade é potência, quando nasce um filho nascem outras vontades nas mulheres e muitas enxergam essa motivação para abrir seu próprio negócio.

Independentemente da pandemia, existe um perfil de mulher que se adeque mais a se arriscar em ter seu próprio negócio? O que é preciso ter em mente? E se pudesse dar dicas especiais para mulheres que querem abrir seu próprio negócio durante a pandemia, quais seriam?
Não acho que exista um perfil específico de mulher, todas podem empreender. Mas existem 3 dicas que sugiro que as mulheres que desejam empreender tenham em mente:
1 - ser conectada com os números: costumo dizer por aqui: seja gentil com as pessoas e agressivo com os números. É preciso saber usar os números do seu nicho a seu favor, para não deixar eles te derrubarem.
2 - vendas: fique atenta a todo o processo de vendas, desde o marketing, tecnologia, exposição, comunicação.
3 - se conecte a uma comunidade: para fazermos algo novo, tudo fica muito mais fácil quando não estamos sozinhas, tanto para as conexões e networking, quanto para capacitação e aprendizado de conteúdos.
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