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Faça as pazes com o dinheiro: 'A vontade coletiva dos novos prefeitos'

Seja como for, é muito bom ouvir Marcelo Crivella, João Doria e outros novos prefeitos se dizendo dispostos a experimentar algum nível de sufoco, esforço, criatividade e improvisação — a exemplo do que já vêm fazendo milhões de chefes de família

Por bianca.lobianco

Rio - Os “melhores” comentaristas esportivos preferem fazer “prognósticos” só depois do jogo. O campo também é fértil em cautela na política e na economia, onde se aprende o inimaginável: “Nunca faça previsões, muito menos sobre o futuro” ou “No Brasil, até o passado é imprevisível”. Mesmo assim, eu vou me arriscar a elogiar e encorajar os prefeitos que tomaram posse há uma semana prometendo “austeridade” — uma das palavras que estavam banidas das administrações públicas nos últimos 13 anos (as outras eram “lucro”, “privatização” e “meritocracia”... deu no que deu).

SUFOCO E CRIATIVIDADE

Seja como for, é muito bom ouvir Marcelo Crivella, João Doria e outros novos prefeitos se dizendo dispostos a experimentar algum nível de sufoco, esforço, criatividade e improvisação — a exemplo do que já vêm fazendo milhões de chefes de família, também obrigados a lidar com a escassez das crises e às voltas com orçamentos apertados. A população só tem a ganhar com a ideia de que as autoridades finalmente acreditam ou pelo menos admitem que “é hora de ser gestor”, “é tempo de segurar”, “é proibido gastar” e “é preciso cortar”.

É um direito pessoal (ou universal) considerar todo esse discurso somente bom marketing, apenas boas intenções, mas quem não transformar o marketing ou as intenções em resultados vai acabar na vala comum dos mandatários desajustados, desatualizados e também desempregados — em discordância agora com aspirações reais e carências profundas da sociedade. A brava gente brasileira está aprendendo, à força e na forca, a importância da educação financeira (nos lares) e da responsabilidade econômica (nas gestões públicas). Por isso não aceita mais se sacrificar sozinha.

Crivella, Doria e os outros fizeram mais do que “mais uma promessa” e assumiram mais do que “mais um compromisso”. Afinal, não se trata de promessa tirada da cabeça deles, se trata de compromisso exigido pela vontade coletiva dos cidadãos. Contrariando todos os prognósticos, os novos prefeitos colocaram em jogo seus futuros políticos, pondo em risco inclusive seus passados imprevisíveis. Para eles, é tudo ou nada. Para os cidadãos (e as cidades), nada mais interessa, a não ser tudo.

AS FERIDAS ABERTAS PELA LAVA JATO

ESCÂNDALOS COM FIRMAS RECONHECIDAS

A conscientização dos prefeitos, de que precisam se inspirar na austeridade dos chefes de família e das donas de casa, é resultado das feridas abertas pela Lava Jato. Nunca antes na história deztepaiz, eleitores, trabalhadores e contribuintes puderam testemunhar tantos “escândalos com notas fiscais e firmas reconhecidas”.

Some-se a isso a situação inédita e vexatória dos cofres públicos sem dinheiro para pagar salários a milhares de servidores. Essa combinação de indigência moral e “indigestão” administrativa precipitou a tardia ideia de aplicar nas prefeituras as boas práticas das finanças pessoais ou domésticas. Melhor do que nunca. 

O POPULISMO ECONÔMICO ESTÁ FORA DE MODA

Em outras palavras, diante do que a Lava Jato revela e as contabilidades oficiais confessam, a sociedade não tolera mais ver o seu dinheiro sendo desviado ou desperdiçado. Por isso, em vez de piscinões, ciclovias, arenas e lotes na Lua, os prefeitos estão agora falando em austeridade. Mesmo os que só falam da boca para fora vão descobrir que o populismo econômico — coisa de quem despreza cortes, ajustes, disciplina, equilíbrio e responsabilidade — finalmente está fora de moda. Até segunda ordem.

SEM MEDO DE PERDER ALGUNS VOTINHOS

Nos Estados Unidos e na União Europeia, autores renomados e intelectuais premiados escreveram livros e manuais para convencer Deus e o mundo de que a austeridade é uma invenção do diabo.

Mais de 20 chefes de governo que acreditaram nisso quebraram seus países e perderam seus mandatos. Ninguém alcançou a façanha da chanceler alemã Angela Merkel, reeleita em 2013 para uma terceira temporada. Mesmo correndo o risco de parecer dura e impopular, ela fez na economia o que tinha que ser feito.

Os acertos de sempre da chanceler se devem a um estilo pessoal que se confunde com o sentimento nacional: mais importante do que discutir problemas, é apresentar soluções — sem medo de que alguns votinhos se percam pelo caminho. Que assim seja.

Bom Domingo & Boa Sorte!

ALEX CAMPOS é comentarista do Painel Econômico da Rádio JBFM (99,9)

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