Sem vínculos com as marcas, postos cobram menos na bomba

Estabelecimentos sem bandeira têm flexibilidade de negociação e menos custos

Por Fabio Perrotta Jr.

Vinícius resiste em abastecer nas lojas sem marca, mas a grande maioria segue padrões da ANP
Vinícius resiste em abastecer nas lojas sem marca, mas a grande maioria segue padrões da ANP -

Rio - A diferença chama a atenção. Pode chegar a R$ 0,70 por litro. E é claro que isso gera questionamentos: por que o preço do combustível em postos sem bandeira — ou bandeira branca — geralmente é mais baixo do que em estabelecimentos vinculados a uma marca?

Rafael Duarte, 35 anos, analista de sistemas, confia de olhos fechados nos postos bandeira branca. "Nunca tive problema ao abastecer. Não tenho muito tempo para procurar preço, então, se só tiver posto sem bandeira no meu caminho, não hesito em completar o tanque. Tenho carros novos e antigos e todos se comportam bem com o combustível. Nunca fiquei na mão e nem notei diferença no consumo do automóvel", garante.

O professor de Economia do Ibmec-RJ, Gilberto Braga, explica que vários fatores influenciam nesta diferença de preços. Especialmente a questão do vínculo do estabelecimento com a marca.

"Os postos com bandeira têm uma série de custos por conta da padronização de serviço, que oneram o preço final. Isso é repassado nas bombas diretamente para o consumidor".

O primeiro e mais óbvio é referente à compra do produto. Por não terem exclusividade com nenhuma distribuidora, os postos sem bandeira têm flexibilidade para negociar com o distribuidor que vende com as condições mais vantajosas.

A mesma gasolina de um mesmo distribuidor pode, inclusive, ter dois preços: um para postos com bandeira e outro para postos sem bandeira. Não surpreende que dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) mostrem que mais de 21% do combustível que abastece os estabelecimentos de bandeira branca são oriundos da Ipiranga, BR (Petrobras) e Raízen (Shell).

CONDIÇÕES QUE FACILITAM

Além disso, essas lojas "sem marca" geralmente compram grandes quantidades e pagam à vista. Outras duas condições que ajudam a reduzir o preço final na bomba.

Mas esses centavos de diferença vão muito além. Outro fator que influencia no preço é a questão de encargos cobrados pelas grandes distribuidoras, que são utilizados na manutenção da própria rede. Identidade visual do estabelecimento, treinamento de funcionários, verba de publicidade e royalties estão dentro das obrigações dos postos bandeirados.

"Todas essas taxas são embutidas no valor do combustível para tornar o posto viável. Grandes distribuidoras abusam das propagandas em meios de comunicação. Apesar da grande publicidade e do retorno que isso traz, contribui para o custo mais alto do litro", explica Gilberto Braga.

No Rio, 461 postos têm cadastro ativo e estão liberados para vender combustível, de acordo com a ANP. Destes, 162 são de bandeira branca. Outro fator que influencia bastante é o IPTU. A maior parte dos postos sem bandeira fica localizado em regiões onde o imposto é mais barato.

Porém, a diferença pode chegar a 13% em postos que ficam dentro da mesma área. O Posto Austral da Rua Itapiru, no Rio Comprido, por exemplo, cobra R$ 4,499 pelo litro da gasolina comum. A pouco mais de 1 km, um posto Ipiranga na Rua Frei Caneca pede R$ 5,199, R$ 0,70 a mais.

ÍNDICES DE OCORRÊNCIAS SÃO IGUAIS

Alguns clientes ainda têm o pé atrás quando o assunto é posto sem bandeira. É o caso de Vinicius Oliveira, 44 anos, taxista há três anos. "Procuro não abastecer em posto de bandeira branca, tenho receio de ser lesado. Nunca aconteceu comigo, mas um conhecido já passou por essa situação".

O que Vinícius — e muita gente — talvez desconheça é que levantamento da ANP (feito em novembro de 2018) revela que o percentual de conformidade do combustível em postos de bandeira branca chega a 96,7% — e 98,6% em bandeirados. Sendo assim, a porcentagem de postos com bandeira branca, de acordo com as regras e padrões da agência reguladora do setor, é quase o mesmo dos postos com bandeira. Ou seja, a incidência de casos de adulteração ou de outras irregularidades em combustíveis vendidos no país é praticamente igual nos postos com marca e nos de bandeira branca.

No Brasil, segundo a ANP, há quase 29 mil estabelecimentos bandeira branca. No município do Rio, do total de 461 postos, 162 são sem bandeira. E o preço baixo se reflete diretamente no próprio fluxo de clientes nos estabelecimentos. Não é raro ver um posto com bandeira vazio e um posto com bandeira branca, logo ao lado, com uma fila de carros.

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