Parece lago, tem até pássaro, mas é uma rua no Distrito Industrial de Sta. Cruz - Martha Imenes/ODIA
Parece lago, tem até pássaro, mas é uma rua no Distrito Industrial de Sta. CruzMartha Imenes/ODIA
Por MARTHA IMENES
As máquinas que "brotaram" no Distrito Industrial de Santa Cruz, enquanto uma equipe de O DIA estava no local para mostrar o perigo que é transitar pela região por conta das péssimas condições das vias, sumiram. E no lugar ficaram os buracos por conta da falta de pavimentação. O problema é antigo e já foi denunciados em duas ocasiões pelo jornal: em 22 de junho e 28 de agosto. Nesta última, a prefeitura informou que uma equipe estaria trabalhando na recuperação do pavimento e que "a intervenção vai (iria) atender a demanda de forma imediata".

O prefeito Marcelo Crivella, inclusive, era esperado no polo industrial no dia 28 de agosto, um dia depois da reportagem. Mas, segundo industriais, teria cancelado a visita, que não constava de sua agenda. Passados oito dias que O DIA esteve na região, e 14 da denúncia, as máquinas não estão mais na via principal, nem nas adjacentes, e obras não foram feitas.

"Não consigo entender o descaso dos governos com as indústrias localizadas no distrito. Não passa nem mais ônibus. Não tem estrutura de transporte municipal, nem estadual, as empresas que têm que contratar transporte para que seus funcionários cheguem ao trabalho", reclama Pedro Gonçalves de Matos, superintendente da Casa da Moeda do Brasil e presidente da Associação das Empresas do Distrito Industrial de Santa Cruz e Adjacências (Aedin), que cobra solução para os problemas no polo.

Jogo de empurra
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A reivindicação por melhoria na região é antiga, conta Paulo Bachur, diretor do Sindicato das Empresas de Transporte de Carga (Sindicarga) e empresário do ramo de transporte que atende empresas no distrito há mais de 20 anos. "A nossa briga por um olhar especial a essa importante fonte de renda e trabalho do nosso estado é antiga e vem se agravando nos últimos 4 anos", diz Bachur, que reclama do descaso com o distrito por parte dos governos estadual e municipal. 
"Trabalho com logística há mais de 30 anos e, na minha visão, o Distrito Industrial de Santa Cruz é o mais estratégico de todo estado pela sua localização para recebimento dos insumos e distribuição de seus produtos acabados por todo Brasil, podendo utilizar todos os modais para o seu transporte. Mas o que vimos nos últimos anos foram várias empresas deixando de investir no distrito pela sua péssima reputação na conservação e acesso as indústrias", explica. 
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O diretor do Sindicarga conta que, junto com a Aedin, tem procurado a Prefeitura do Rio e o governo do estado, mas sem sucesso. Em ofício datado de março deste ano, o governo estadual foi alertado sobre as péssimas condições de pavimentação das vias públicas. Mas até agora não obteve retorno da reivindicação por melhoria para um importante polo de desenvolvimento do estado. 

Embora a responsabilidade pela conservação das vias públicas nos distritos industriais seja dos municípios, conforme prevê o artigo 30, inciso VIII, da Constituição Federal, as entidades procuraram o governo do estado para buscar uma solução para os problemas enfrentados pelas indústrias.  "Procuramos o governo do estado porque o prefeito (Marcelo Crivella) foi procurado pela Aedin e também jogou para o estado, tentando fugir da responsabilidade, depois queria que o empresário pagasse pela manutenção e se creditasse de ISS, são indústrias e como tal a maior arrecadação de impostos é de ICMS, que é pago ao estado", conta Bachur.

Há dois anos o governador afastado Wilson Witzel, em publicação no Twitter, informou que a Companhia de Desenvolvimento Industrial (Codin) e o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) iriam revitalizar os dez distritos industriais do estado, mas até agora Santa Cruz não recebeu, sequer, a visita de algum representante para avaliar a situação da região. "Esperamos que o prefeito venha até o polo industrial para conhecer os problemas de perto e nossas reivindicações", diz André Portela, coordenador de preservação da Cladtek do Brasil, uma das 14 indústrias instaladas no distrito, e representante da companhia na Aedin.
Aumento de gastos
É comum ver caminhões quebrados, ainda com as cargas que deveriam ser escoadas da região, carros de passeio com pneus e suspensão avariados pelo caminho, trabalhadores com rostos e roupas cobertos de poeira amargando a longa espera do coletivo, que sumiu do distrito.
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"Na minha empresa, por exemplo, vimos nossa conta de manutenção na suspensão de carretas e cavalos mecânicos triplicarem em função das péssimas condições de tráfego no distrito", diz Bachur. 

Os abrigos para ponto de ônibus foram feitos pela Aedin em parceria com as indústrias para que os trabalhadores pudessem se proteger da chuva e do sol enquanto esperam a única linha de ônibus que atende a região passar, explica Cláudio Farias, secretário-executivo da associação. 
Fratura de coluna e risco de acidente
Os buracos no distrito industrial não atingem só as companhias, que padecem com a dificuldade no escoamento da produção, caminhões quebrados, e o acesso complicado para fornecedores e compradores. As crateras da região fazem com que os trabalhadores que precisam chegar e sair corram riscos diariamente.
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Funcionária da Casa da Moeda do Brasil, Silvana Vasconcellos, então com 55 anos, teve a coluna fraturada quando o ônibus que ela estava passou num quebra-molas e trafegou na buraqueira, o que agravou o ferimento. Ela, que estava no banco traseiro, conta que com a pancada chegou a saltar do banco do coletivo.

"Senti dor na hora e muita dificuldade para me locomover. Ao procurar o médico foi constatada uma fratura na vértebra T11, que foi resolvida com cirurgia", lamenta. Passados dois anos, Silvana conta que até hoje tem medo de trafegar pela região. 
Parceria entre Codin e DER prometia revitalização
Em outubro do ano passado uma parceria anunciada pelo Departamento de Estradas de Rodagem do Estado do Rio de Janeiro (DER) e a Companhia de Desenvolvimento Industrial do Estado do Rio de Janeiro (Codin) previa, entre outras ações, implantação e restauração de pavimentos, melhorias nas redes de drenagem pluvial, de saneamento, na iluminação e sinalização das rodovias.

A "boa nova" anunciada no site do governo do estado (http://www.der.rj.gov.br/detalhe_noticia.asp?ident=728) informava que "os Distritos Industriais do Estado do Rio de Janeiro receberão, nos próximos meses, uma série de intervenções para a recuperação e conservação de suas infraestruturas". Passado quase um ano, nada foi feito no Distrito Industrial de Santa Cruz, o que afugenta, inclusive, investimentos para o estado.

"Não consigo imaginar o que passa na cabeça de um administrador em não conceder condições básicas para que as empresas gerem renda para o estado. É um absurdo! É por esse descaso de nossos administradores que as empresas não querem se instalar no estado, não podemos nos dar ao luxo de viver de turismo e petróleo somente", desabafa.

Os distritos estão localizados em: Campo Grande, Campos dos Goytacazes, Duque de Caxias, Macaé, Paciência, Palmares, Santa Cruz, Queimados, Três Rios e São João da Barra. 
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