Sai 2020, entra 2021 - ARTE KIKO
Sai 2020, entra 2021ARTE KIKO
Por MARTHA IMENES
O ano e 2020 deixou duras lições para a humanidade: perdemos amigos, parentes e conhecidos por causa da pandemia de coronavírus, os abraços deixaram de ser dados, os afetos ficaram restritos à escrita e os sorrisos e lágrimas escondidos por baixo das máscaras. As despedidas também foram dolorosas... O distanciamento, necessário para evitar a propagação da covid, deixou milhares de pessoas apreensivas quando um ente querido era contaminado e precisava de internação hospitalar.

"Não tive chance de me despedir, nem de dizer o quanto era importante para mim", disse a jovem Maria Luiza Santanna, de 27 anos, que perdeu a mãe D. Luiza (60) para a doença. Moradora da Lapa, Malu conta que ambas foram pegas de surpresa com a testagem positiva.

"Minha mãe seguiu todos os protocolos, não saía de casa, e quando precisava ir à rua era de máscara, álcool gel, lavava toda a roupa e nunca entrou com os sapatos em casa". A explicação para o contágio ainda é incerta. Malu acredita que foi um vizinho "de porta" que, além de deixar os calçados espalhados pelo corredor do prédio, circulava sem máscara no condomínio.

"A última vez que vi minha mãe ela me encorajava dizendo que iria ficar tudo bem. Nem pude me despedir", lamenta. A história de Malu é mais uma que se soma a milhares de outras nesse trágico ano que se encerra.
Que ano!
A pandemia não veio sozinha, junto com ela o desemprego disparou: são mais de 14 milhões de desempregados no país, segundo os últimos dados do IBGE. A crise de saúde afetou em cheio a economia que já não andava bem das pernas, pequenos negócios deixaram de existir, comerciantes tiveram que fechar as portas, demitir funcionários, ambulantes perderam seus clientes, bares e restaurantes tiveram que cerrar as portas e adotar o serviço de delivery, muitos não resistiram...
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A inflação também subiu. O INPC acumula alta de 3,93%, e o IPCA 3,13%. Ou seja, o índice que reajusta o salário mínimo (INPC) deve ficar acima da inflação oficial (IPCA).
O governo adotou medidas emergenciais para tentar conter os impactos negativos na economia, mas o que salvou 66 milhões de pessoas da fome deixa de existir: o auxílio emergencial. Com isso, serão 24 milhões de pessoas abaixo da pobreza extrema. O auxílio - pago a trabalhadores informais, autônomos e mães chefes de família - deixará de existir, mas a pandemia de coronavírus não. E agora?
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Emprego, vacina e renovação do auxílio emergencial
O que esperar então de 2021? O DIA ouviu o que o povo espera para o próximo ano e a resposta foi quase unânime: oportunidade de emprego e vacina contra a covid nos postos de saúde. Outras questões também surgiram, como isenção de impostos em produtos de primeiras necessidades (para dar um alívio no bolso) e a prorrogação do auxílio emergencial.
Na porta do supermercado Mundial, na Rua do Riachuelo na Lapa, José Antonio Gomes da Silva, de 75 anos, reclama dos preços e critica a liberação de impostos de importação para armas autorizada pelo presidente Jair Bolsonaro.

"Sou aposentado e ganho menos de dois salários mínimos, tomo remédio de uso contínuo, pago aluguel e o meu pagamento mal dá pra comprar comida", reclama o aposentado. E continua: "O presidente diz que não vai baixar o preço da comida mas libera imposto de arma. É pra quê? Pra gente se matar, só pode!", desabafa.
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Malu, que perdeu a mãe, tem esperança de que haja vacina para a população brasileira: "Minha mãe não teve oportunidade, mas espero que outras pessoas tenham".
Para a diarista desempregada Vania Silva da Conceição, 60 anos, que mora em Vila Kennedy, na Zona Oeste, a prorrogação do auxílio emergencial seria muito bem vinda. Moram ela, que está desempregada, o marido que vive de biscates, e o neto de 12 anos numa casa de um cômodo.
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"O auxílio foi uma grande ajuda. Estamos desempregados porque não encontramos emprego. Todo mundo vai passar necessidade. Desemprego, tudo caro. Pelo menos com R$ 300 dá pra gente se virar um pouco. Sem ele, como vai ficar? Vai todo mundo morrer não só de doença, mas de fome também".
Desemprego
A taxa de desemprego chegou a 14,6% no terceiro trimestre de 2020, a maior já registrada pelo IBGE na série histórica com início em 2012. No fim de setembro, o país somava 14,1 milhões de desempregados. A má notícia é que esses números tendem a continuar a crescer nos próximos meses. Serão batidos recordes em cima de recordes no desemprego, projetam os economistas. Mesmo em um cenário favorável ao crescimento de abertura de vagas.
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Inflação e juros
Um fator que deve pesar no consumo das famílias no início de 2021 é a inflação. Embora a mediana do mercado aponte para um IPCA, que é a inflação oficial do governo, fechando em alta de 4,39% este ano e desacelerando para 3,37% ao fim de 2021. Segundo o boletim Focus do Banco Central de 21/12, a taxa acumulada em 12 meses deve ficar acima dos 5% durante boa parte do próximo ano, só perdendo força nos últimos meses. Com isso, deve haver pressão para que o BC volte a subir a taxa básica de juros, que está atualmente em 2%, mas o mercado já vê a 3% ao fim de 2021 e a 4,5% em 2022.
Triste realidade
Desempregada, Daniela de Carvalho Silva, de 33 anos, paga R$ 450 de aluguel numa casa pequena na favela do Mandela, Zona Norte do Rio. Na residência, ela mora com o marido, que é pedreiro, também desempregado, e seis filhos - as duas últimas gêmeas recém-nascidas.
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A renda da família antes do auxílio emergencial era de R$ 371 do Bolsa Família e mais o que ela e o marido ganhavam: ele fazendo bico e ela como chapeira, emprego que perdeu. Com o fim do auxílio emergencial, Daniela teme o futuro.
"O auxílio ajudou bastante, ajudou muito, porque nem sempre meu marido tem trabalho. Eu faço unha de vez em quando. E quando meu marido trabalha a gente economiza para não faltar nada", conta Daniele.
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Recuperação
A necessidade de isolamento social para conter o avanço da covid-19 fez os principais setores da economia entrarem em queda livre. A princípio, a indústria foi mais prejudicada, pois somou uma redução brusca de demanda com a paralisação da produção.
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Com as políticas de incentivo fiscal e preservação do emprego criadas pelo governo federal, beneficiaram-se a indústria e o comércio de bens. O grande vencedor foi o comércio eletrônico, que registrou altas recordes de faturamento mês a mês e a adesão de novos clientes em ambiente digital.