Entrevista com o candidato do PSOL ao governo do estado do RJ Tarcisio Motta para eleicoes de 2018. Rj, 3 de setembro.Marcio Mercante / Agencia O Dia
Por CÁSSIO BRUNO
Publicado 16/09/2018 03:00 | Atualizado 16/09/2018 20:35

RIO - Com 5% e 7% no Ibope e no Datafolha ao governo do Rio pelo PSOL, Tarcísio Motta, de 43 anos, é o entrevistado de hoje da série que O DIA publica com os principais concorrentes ao cargo. Professor de História licenciado do Colégio Pedro II, o atual vereador afirma que dará prioridade ao combate ao tráfico de armas e criará uma força-tarefa para enfrentar os milicianos. Tarcísio defende também os colegas de partido Gelsimar Gonzaga, ex-prefeito de Itaocara condenado por abuso de poder econômico e político, e Brizola Neto, citado por delatores na Operação Lava Jato. E critica ainda o deputado federal Jean Wyllys por ter defendido, em manifesto, chapa informal ao Senado.

ODIA: Se for eleito, o que fará para combater as milícias?

TARCÍSIO MOTTA: É preciso desarticular os braços econômico e político. A existência de uma força-tarefa que utilize o Ministério Público, a Delegacia de Combate ao Crime Organizado, outros órgãos da Polícia Civil, em um gabinete integrado. Temos que atacar com investigação e conversar com as prefeituras sobre o papel do transporte alternativo.

Mas é viável?

No relatório da CPI das Milícias, de 2008, há sugestões como essas. Queremos juntar todos órgãos da Segurança Pública. Se hoje as milícias já ocupam territórios em maior quantidade que o tráfico, significa que devemos dar prioridade. Por outro lado, é preciso reformar os estatutos das próprias polícias. Garantir melhoria nas condições de trabalho de policiais e de bombeiros para que eles não tenham oportunidades em esquemas de corrupção. Ao mesmo tempo, temos que ter uma ouvidoria independente para limpar as forças policiais de pessoas que estão envolvidas com as milícias.

A solução de crimes é pequena.

Significa que devemos redirecionar as prioridades orçamentárias. O orçamento da Segurança tem crescido ano a ano. Mas está direcionado para a lógica do confronto, da guerra. Toda entrada de novos policiais estava direcionada para as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora). Houve um esforço orçamentário para uma política pública que não deu resultado para a desarticulação das milícias. É preciso reorganizar as prioridades para destinar mais recursos para a investigação, tecnologia, concurso público e fortalecimento das delegacias especializadas.

Há dinheiro para tudo?

O orçamento à Segurança Pública passou dos R$ 10 bilhões. É mais que o da Saúde e da Educação juntos.

Acabará com as UPPs?

As UPPs já acabaram. Defendemos o policiamento comunitário, de proximidade. Num planejamento integrado, é possível avaliar que um posto numa favela, que hoje é uma UPP, pode ser mantido, mas reformulado.

De que forma?

Pode estar vinculada a um batalhão e a um planejamento de Segurança. Mas a primeira coisa que deve ser mudada é a condição de trabalho. O que é fundamental? Um posto policial ter o mesmo papel na favela e no asfalto, na Zona Sul. A polícia não será o governo das favelas. A UPP tratava a favela como território inimigo.

Pedirá ajuda às Forças Armadas?

As Forças Armadas podem ajudar no controle dos próprios paióis para combater o tráfico de armas. Ajudar no serviço de inteligência e de fiscalização sobre o arsenal das empresas de segurança privada, o que o Exército não faz hoje. Não estamos falando de tanque nas ruas.

Mas o que será a prioridade?

Combate ao tráfico de armas. Vamos quebrar as contas de onde se faz a lavagem de dinheiro dos traficantes. Vamos aumentar a fiscalização sobre os paióis públicos. Exigir da Polícia Federal que aumente a fiscalização em lojas de armas. A maior apreensão de fuzis foi no Aeroporto do Galeão e não em uma favela. Foi uma ação de inteligência que precisamos seguir como exemplo.

O único prefeito do PSOL eleito no Rio, Gelsimar Gonzaga, de Itaocara, foi condenado, no fim de 2016, por abuso de poder econômico e político.

Houve perseguição política dos vereadores porque ele combateu casos de corrupção. Ele enfrentou as máfias do Garotinho e do Jorge Picciani no Noroeste do estado. Enfrentou inimigos poderosos. Teve a sua candidatura cassada e não concorreu em 2016. Mas é um processo ainda em andamento de uma administração que teve acertos e alguns erros.

Qual é a autocrítica que o senhor faz?

Deixamos o Gelsimar isolado. Deveríamos dar uma base de apoio maior a ele. Num município que depende de dinheiro do governo estadual, deveríamos ter dado mais apoio. Foi um erro que o PSOL cometeu.

Em delação à Operação Lava Jato, ex-executivos da Odebretch disseram ter dado dinheiro para caixa dois, em 2012, ao vereador Leonel Brizola Neto, do PSOL. Ele era do PDT e se filiou ao seu partido.

No momento em que o Brizola Neto apareceu na delação, o chamamos para se explicar. Ele escreveu cartas e assinou documentos negando. O próprio delator falou que (o deputado federal) Pedro Paulo (DEM) teria intermediado uma doação que seria para o Brizola Neto e para (a deputada federal) Cristiane Brasil (PTB). A vida dele não tem nenhum indício de enriquecimento ilícito. Ao avaliar tudo isso, de que não havia provas, a direção do PSOL não achou incoerente. As delações dão conta que os partidos foram comprados com esse esquema de caixa dois que aponta para o Eduardo Paes (DEM) e não para o PSOL.

Se for eleito, como pretende ter o apoio dos deputados na Alerj?

Buscar a maioria a todo custo emparedou diversos governos. Grande parte da derrocada de Lula e Dilma Rousseff (ambos do PT) tem a ver com isso. Recusaremos o toma lá, dá cá. Não vamos lotear secretarias. Teremos de eleger uma boa bancada e, depois, ter uma relação republicana no sentido de que aquilo que está sendo feito como política pública e que vai beneficiar as bases eleitorais dos deputadas podem e devem ser feitas o tempo inteiro conversando com eles.

Não é uma utopia?

Utopia é achar que a gente pode continuar a governar no toma lá da cá. É só olhar para a prefeitura do Marcelo Crivella (PRB) e perceber que isso leva ao caos. Precisamos encontrar um outro caminho que não seja a corrupção e o fisiologismo.

Não será simples assim.

Há mecanismos possíveis. Devemos dar poder aos conselhos de políticas públicas, com produção de projetos de lei da sociedade. Queremos provar ser possível fazer política de outra forma. Queremos planejamento como prática, transparência como regra e participação popular como método.

Como será a sua política para os servidores?

Terão respeito. Não vamos pôr nas costas dos servidores a responsabilidade da crise. Vivemos num período de constantes cortes. Não há mais de onde cortar. É claro que cargos comissionados podem ser cortados. Mas não é suficiente para resolver o problema fiscal.

Como enfrentar a crise?

Renegociar o regime de recuperação fiscal, que é uma agiotagem, e não vou cumpri-lo, e rever, com auditorias, as desonerações fiscais. Algumas desonerações estão corretas. Mas existem para joalherias, redes de cabeleireiros da Zona Sul. São injustificáveis. Só fazem sentido nos esquemas de corrupção do PMDB. Precisamos também diversificar a economia. Vamos estimular setores como construção civil. A Cedae já tem aprovado R$ 2 bilhões para investimentos.

Hospitais estão sucateados. Faltam médicos. Manterá as Organizações Sociais (OSs)?

Quem diz que acabará com as OSs imediatamente é irresponsável. Para reverter o ralo por onde escoou dinheiro público, é preciso ter uma transição responsável. Vamos paulatinamente acabar. Por que os hospitais estão sucateados? Porque dois anos consecutivos não investiram o mínimo (de 12% do orçamento) previsto em lei. Há médicos fazendo o mesmo atendimento com três salários diferentes.

Mas como resolver?

Rever o plano de recuperação fiscal e implantar o plano de carreira. Faremos auditoria nos contratos das OSs. As substituiremos pela fundação estatal de saúde.

Na Educação, faltam professores e as escolas têm problemas de infraestrutura.

Precisamos integrar universidades, Faetec e rede estadual. Cada uma atira para um lado. Por que a gente não usa o próprio sistema de universidade e institutos superiores para formar professores? Professores bem formados, Educação de mais qualidade. Sabemos dos problemas orçamentários.

Há problemas imediatos.

Investir os 25% na Educação (obrigatório por lei) de forma mais eficiente. Não vou enganar o eleitor. Não estará tudo as mil maravilhas quando o ano letivo de 2019 começar. Agora, um plano de recuperação das escolas mais precarizadas e a reabertura das salas de aula que foram fechadas, formar melhor os professores para eles se sentirem mais valorizados e respeitados, é fundamental.

O senhor pretende despoluir a Baía de Guanabara?

Combater milicianos que hoje têm lixões clandestinos na Baixada Fluminense, cujo chorume cai na Baía de Guanabara. É o tipo de enfrentamento que teremos de fazer.

O deputado federal Jean Wyllys, com artistas e intelectuais, defendeu um acordo informal para o Senado entre Chico Alencar e Lindbergh Farias (PT). Ele errou?

Sim. Foi equivocada. Que os artistas queiram fazer manifesto, é um direito. Só que do nosso ponto de vista eleitoral, construímos uma política de luta com o PCB.

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