Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) Tânia Rego / Marcelo Camargo / Agência Brasil
Por DIRLEY FERNANDES
Publicado 28/10/2018 03:00 | Atualizado 28/10/2018 10:31

Rio - A campanha que se encerrou neste sábado, às 22h, driblou todas as previsões de cientistas políticos, especialistas e futurólogos em geral. Com o inesperado fazendo uma surpresa após a outra, a corrida presidencial teve personagens improváveis como Adélio Bispo de Oliveira, autor do ataque a Jair Bolsonaro (PSL), e o candidato Cabo Daciolo (Patriota), com seu refrão "Glória a Deus!". Também atingiu níveis de violência verbal e física jamais vistos em períodos democráticos da política brasileira, separando amigos e famílias.

A essa altura, talvez o eleitor já tenha até esquecido que o candidato que era líder das pesquisas, mesmo estando atrás das grades, acabou impedido pela Justiça de participar do pleito.

No entanto, a marca maior da campanha talvez tenha sido a tsunami de fake news. Mentiras são comuns em eleições há muito tempo, mas dessa vez elas foram distribuídas de forma maciça e organizada, via WhatsApp, colaborando para um caldo medonho de desinformação.

O eleitor, confuso, sem a possibilidade de assistir a debates e programas em que propostas de governo pudessem ser apresentadas e confrontadas, no entanto, se demonstrou mais interessado do que nunca no debate político. As frustrações políticas não deverão se transformar em níveis recordes de abstenção ou de votos nulos, como foi previsto por muitos especialistas. Pelo contrário, tanto os que optaram por Fernando Haddad (PT) quanto os que escolheram Bolsonaro, seja por rejeição ao adversário ou pelas supostas virtudes de cada candidato, demonstram um alto nível de convicção do voto (acima de 90% para ambos os candidatos). E menos de 10% admitem votar em branco. Isso torna uma virada de Haddad improvável, mas não impossível.

Está nas mãos do eleitor a escolha entre o capitão da reserva e o professor.

FERNANDO HADDAD (PT)
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JAIR BOLSONARO (PSL)
Jair Bolsonaro (PSL), líder nas pesquisas nos dois turnos, foi ao longo de sete mandatos como deputado federal, como ele mesmo se definiu, "um parlamentar do baixo clero", termo que se refere à pouca influência nas decisões mais importantes do Legislativo. O capitão que deixou o Exército em 1988 e ingressou na vida pública como vereador pelo Rio de Janeiro viu em um estilo polêmico, recheado de declarações politicamente incorretas, um caminho para angariar popularidade.
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O estilo direto contrastava com o jeito empolado de uma classe política cada vez mais desgastada junto à população. Quando esse desgaste chega ao seu ponto máximo em 2014, com as revelações da Operação Lava Jato, Bolsonaro emerge do "baixo clero" para se tornar o deputado mais votado do Estado do Rio, com 464 mil votos, quase quadruplicando os 120 mil da eleição anterior.
A votação expressiva mostrou ao deputado um caminho para uma ambição maior. "A partir do momento em que vem a crise do governo do PT, Bolsonaro intensifica a oposição ao partido, com o discurso contra a corrupção, e, aos poucos, com trabalho bem feito nas redes sociais, se torna o grande polo de oposição ao petismo, substituindo o PSDB", diz o biógrafo do capitão paraquedista, Clóvis Saint-Clair. No entanto, seus adversários petistas e especialistas em política não levaram o deputado a sério e apostavam que a polarização PT-PSDB, que se repetia desde 1994, se imporia em algum momento. As apostas eram que, quando Lula fosse preso, Bolsonaro "derreteria".
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Não aconteceu. Após sofrer um ataque a facadas, em 6 de setembro, ele passa de 22% para 26% de intenção de votos em uma semana e começa a concentrar os votos do antipetismo, até chegar aos 46% de 3 de outubro, contra 4% de Geraldo Alckmin (PSDB).
Nascido em Glicério (SP), descendente de italianos, Bolsonaro se interessou pela carreira militar aos 15 anos, quando viu a chegada de milhares de soldados em busca de guerrilheiros no Vale da Ribeira, a região mais pobre do Estado de São Paulo onde a família havia se estabelecido. Formou-se em 1977 na Academia Militar das Agulhas Negras. Em 1986, enquanto servia em um quartel em Deodoro, escreveu um artigo reclamando do soldo do Exército. Foi preso por 15 dias. Atraiu a crítica dos superiores e a solidariedade de colegas de farda. "Ele entra na política para encontrar um modo de vida, de sobrevivência mesmo, já que estava com os dias contados nas Forças Armadas", diz Saint-Clair.
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Com as declarações polêmicas como estratégia e o tema da defesa dos militares, ele consegue o mandato de vereador e depois se mantém por 27 anos na Câmara dos Deputados, defendendo pautas como a pena de morte e a ampliação da posse de armas, enquanto inicia três filhos na política. E atrai a esperança de eleitores que não veem mudanças em questões como a Segurança e o combate à corrupção. "Ninguém está mais aguentando", diz Paulo Henrique Pinheiro, 40 anos. Se ele melhorar a violência e colocar as crianças na escola, já está de bom tamanho. Não vou votar no PT, já ficou muito tempo; precisamos tentar outro para melhorar um pouco".

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