Programa de Dilma compara Marina Silva a Jânio e Collor

A estratégia do PT é tentar mostrar como o voto na candidata do PSB pode dar errado

Por bferreira

Rio - Um dia após travar um embate com a candidata Marina Silva (PSB) no debate exibido pelo SBT, a presidenta Dilma Rousseff (PT) partiu para o ataque à adversária em seu programa eleitoral na TV. Na propaganda que foi ao ar ontem, Marina foi comparada aos ex-presidentes Jânio Quadros e a Fernando Collor de Mello.

“Duas vezes na nossa história, o Brasil elegeu salvadores da pátria, chefes do partido do eu sozinho. A gente sabe como isso acabou”, diz o narrador do programa, enquanto imagens dos dois políticos aparecem na tela.

Dilma Rousseff partiu para o ataque à Marina Silva em seu programa eleitoral na TVReprodução

A estratégia petista é mostrar como o voto em uma aventura pode dar errado, colando a imagem de Marina a dois governantes que levantavam a bandeira da moralização, mas tiveram mandatos desastrosos. O de Jânio durou sete meses e terminou em renúncia. Collor também renunciou, em meio a escândalos de corrupção, para escapar da condenação em um processo de impeachment.

O programa foi dominado por trechos do debate entre os candidatos, exaltando a performance de Dilma. A capacidade de Marina governar sem apoio é questionada no final. É mostrado que sua base de sustentação tem 33 deputados na Câmara, enquanto são necessários pelo menos 129 para aprovar um projeto de lei. “Como você acha que ela vai conseguir esse apoio? Será que ela tem jeito para negociar?”, questiona o narrador.

Marina revidou o ataque de forma irônica, afirmando que Dilma é quem poderia ser comparada a Collor. “Imagina se eu dissesse que uma pessoa que nunca foi eleita vereadora ser eleita como presidente do Brasil, aí sim poderia parecer Collor de Mello”, afirmou a candidata, em uma sabatina promovida pelo ‘O Estado de S. Paulo’. “A sociedade brasileira me conhece, conhece os valores que eu defendo, a luta que tenho há mais de 30 anos”, disse.

Segundo o diretor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) Geraldo Tadeu, a candidatura de Marina não se assemelha às outras duas.

“Tanto Jânio quanto Collor foram candidatos que vieram de um espectro de centro-direta e direita. Marina veio da esquerda católica, foi militante do PT, tem uma história de luta dos seringueiros. É uma tentativa de tentar deter a onda Marina”, avalia. Segundo Tadeu, os partidos estão “perplexos” com a rapidez com que a candidatura da verde decolou, o que tem tornado as campanhas mais agressivas.

Diante da onda marineira, o coordenador da campanha de Aécio Neves (PSDB), Agripino Maia (DEM), chegou a admitir, na segunda-feira, que Aécio apoiaria Marina no segundo turno. A declaração, que soou como uma jogada de toalha, repercutiu mal na campanha tucana e fez o senador voltar atrás ontem. “Se houver segundo turno, quem vai decidir o nosso rumo é o candidato Aécio”, corrigiu Maia.

Pastores Malafaia e Marco Feliciano vão com Marina

Os pastores evangélicos Silas Malafaia e Marco Feliciano declararam ontem adesão à candidata Marina Silva após ela retirar do seu programa de governo o apoio a emendas constitucionais em favor do casamento civil gay e ao projeto que criminaliza a homofobia.

“O ativismo gay retira o apoio a Marina. MARAVILHA! No 1º turno vou votar no Everaldo. No 2º voto em Marina”, escreveu o pastor no Twitter. Malafaia também aproveitou a rede social para fazer uma série de críticas ao governo Dilma e seu recente apoio à criminalização da homofobia.

“Dilma resolveu botar as unhas de fora e agora, no desespero por causa da Marina, ela diz que apoia a criminalização da homofobia. A gente sabe que o PT só procura os evangélicos de quatro em quatro anos, depois trabalha contra nossas crenças e valores. Vai ser hipócrita lá na caixa prego”, disse.

Na segunda-feira, no debate entre os candidatos a presidente promovido pelo SBT, a presidenta Dilma declarou ser a favor da criminalização da homofobia.

“Sou contra qualquer forma de violência contra pessoas. No caso específico da homofobia, acho que é uma ofensa ao Brasil. Então, fico triste de ver que temos grandes índices atingindo essa população. Acho que a gente tem que criminalizar a homofobia, que não é algo com o que a gente pode conviver”, disse Dilma.

O deputado Marco Feliciano (PSC-SP), que ficou famoso pelas frases contra negros (“os africanos são amaldiçoados”) e gays (“a podridão dos sentimentos dos homoafetivos leva ao ódio, ao crime e à rejeição”) também se uniu à Marina.

“Deixo de lado as pequenas diferenças por um grande projeto, afinal venho profetizando há tempos o Governo dos Justos! Por um Brasil melhor”, escreveu.

CONSULTA À BÍBLIA PARA DECISÕES

Três dias depois de retirar de seu programa de governo o trecho em que tratava da união entre homossexuais, a presidenciável Marina Silva, do PSB, admitiu que é contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em entrevista ao ‘Jornal da Globo’ na madrugada de ontem, a candidata afirmou que defende o que está na Constituição para a expressão ‘casamento’, ou seja, que é apenas para pessoas de sexo diferente.

“A Constituição tem uma diferença em relação ao casamento. O casamento é utilizado para pessoas de sexo diferente. Para pessoas do mesmo sexo, o que a lei assegura, o que o Supremo já deu ganho de causa com os mesmos direitos equivalentes ao do casamento, é a união civil”, disse Marina, que é evangélica.

O recuo de Marina em relação ao casamento gay levou o pastor Silas Malafaia a declarar apoio à presidenciável no segundo turno das eleições. Já o coordenador do núcleo LGBT da campanha do PSB, Luciano de Freitas, deixou o cargo, depois da decisão do partido de rever pontos do programa de governo voltados aos direitos dos gays.

Na entrevista ao ‘Jornal da Globo’, a ex-senadora foi questionada se a manchete de jornal “Marina é contra casamento de pessoas de mesmo sexo” estaria correta. Ela respondeu que correto seria: “Marina é a favor da união civil de pessoas de mesmo sexo”. “Em termos da palavra ‘casamento’, você está errado, porque defendemos é a união civil entre pessoas do mesmo sexo”, afirmou.

A candidata também falou da influência da religião na sua vida quando toma decisões importantes. Reportagem da ‘Folha de S. Paulo’, publicada no domingo, afirma que Marina tem o hábito de consultar a Bíblia nesses momentos. “Todos nós agimos com base na relação realista dos fatos. Mas os seres humanos têm uma subjetividade. Uma pessoa que crê obviamente tem na Bíblia uma referência, assim como tem referências na arte, na literatura”, disse Marina.

A ex-senadora argumentou ainda que dizer que ela toma decisões lendo a Bíblia “aleatoriamente” é “uma forma que as pessoas estão construindo para tentar passar a imagem de que sou uma pessoa fundamentalista, essas coisas que muita gente de má-fé acaba fazendo”.

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