Nilson Euclides da Silva: 'Marina seria um retrocesso'

Professor da Universidade Federal do Acre, ele prevê que a presidenciável do PSB vai conseguir nas eleições deste ano resultado melhor que o obtido em 2010

Por bferreira

Acre - Com os olhos de quem acompanha as eleições presidenciais a partir da terra natal da candidata Marina Silva, o cientista político Nilson Euclides da Silva não gosta do que vê. Professor da Universidade Federal do Acre e autor do livro ‘Um Governo na Floresta’, ele prevê que a presidenciável do PSB vai conseguir nas eleições deste ano resultado melhor que o obtido em 2010, quando foi a terceira colocada no estado. Mais pelo orgulho dos acreanos em ter uma candidata com chances reais à presidência do que pela adesão a seu discurso ambientalista. Para Silva, um paulista que se radicou no Acre há 20 anos, as bandeiras de Marina são mais sedutoras para quem é da região Sudeste do que para a população da floresta, que sofre com dificuldades básicas para manter a sobrevivência. “Preservo a história da Marina, e ela pode ter muito boas intenções. Já o seu projeto de poder não me parece consequente”, diz ele. Nesta entrevista a O DIA, ele explica porque, na sua opinião, uma possível eleição de Marina representaria um retrocesso para o país.

O DIA: Em 2010, eleitores do Acre relegaram Marina ao terceiro lugar na eleição presidencial. Esse fiasco pode se repetir?

NILSON E. DA SILVA: Cada eleição tem uma história. Agora, há um eleitor que vai votar pelo orgulho de ter uma candidata local com chance de se eleger presidente. E tem o eleitor que vota contra o PT para a Presidência. Isso explica porque, em 2010, José Serra teve no estado 70% de votos válidos e Dilma ficou em segundo. Desta vez, como Aécio parece não ter chance, muitos vão votar na Marina apenas como contraponto ao PT nacional.

A bandeira do desenvolvimento sustentável não é o bastante para conquistar os eleitores do Acre?

As ideias que Marina tem sobre esse assunto não são exequíveis na Amazônia. Isso pode ser feito em Ipanema, Copacabana, na Avenida Paulista, mas no Acre, não. Temos uma população com 80% de miseráveis que precisam sobreviver e são marginalizados. Esses conceitos não servem para os problemas dessa gente.

A ideia é que preservar a floresta é bom para todos. O senhor não concorda?

Ela trabalhou num projeto que determina que o dono não pode desmatar mais de 20% da sua área. Qual o impacto para um cara que tem 50 mil hectares? Pouco. E para um que tem 10 hectares? Esse vai sofrer e está muito chateado com Marina porque não tem alternativa. O prejuízo para o pequeno agricultor é grande.

A chegada de Marina à Presidência poderia representar um avanço?

Eu acho que seria um retrocesso. Mesmo tentando não deixar transparecer, o discurso dela é extremamente conservador. Não sei como vai conseguir governar com as forças que a apoiam. Fiquei assustado com o discurso do senador Magno Malta, na tribuna do Senado, que atacou a união gay, o aborto, a descriminalização da droga. Ele disse que apoia Marina num segundo turno contra Dilma. Além disso, tem o grande capital muito interessado nesse discurso da sustentabilidade e ecologia, com que se defende qualquer coisa, menos a diminuição da desigualdade e da injustiça que existe na relação capital x trabalho.

Esse leque de alianças não é o que o governo do PT e do PSDB vêm fazendo há vários anos?

O problema é que Marina faz a mesma coisa, mas com o discurso de que traz o novo. Como ela vai fazer a nova política com os mesmos partidos, as mesmas instituições, os mesmos mecanismos de representação, as mesmas relações históricas no Brasil? Como disse a (Luiza) Erundina, antes de ser coordenadora de campanha da Marina, ela deseduca ao usar discurso que nega as instituições políticas, de que tudo o que está aí não presta. Não usa o nome de partido e batiza o seu de Rede.

A candidata do PSB diz que a diferença é que vai governar com os melhores. O que acha?

Eu alerto a candidata que vivemos numa democracia, não numa aristocracia. Em regime democrático, é preciso governar com o que se tem: com os movimentos sociais, os intelectuais, os picaretas dos partidos, os bandidos e traficantes que estão nos partidos e fazer tudo dentro da legalidade. Essa intenção de escolher os melhores soa aristocrática.

Pessoas que apoiam a criação da Rede, futura legenda de Marina Silva, continuam no governo petista do Acre. Isso não é uma contradição?

O governador Tião Viana (PT) não vai romper com a Marina. Então, os simpatizantes dela que estão no governo dele poderão manter seu apoio sem constrangimento. O próprio marido da Marina continuou trabalhando no governo do Acre até alguns dias atrás.

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