Romário exclusivo: 'Prefeito do Rio é a posição mais charmosa do país'

Eleito com quase cinco milhões de votos, senador admite disputar prefeitura no futuro

Por thiago.antunes

Rio - Eleito senador com impressionantes 4,7 milhões de votos, Romário está, é claro, marrento. Mas muito menos do que já foi, ele mesmo confirma. Cabelo e barba cada vez mais brancos, e uma barriga saliente conquistada na campanha, o craque mostra, pela primeira vez, humildade jamais vista numa área que nunca foi muito a sua.

Romário já admite disputar a Prefeitura em 2016Márcio Mercante / Agência O Dia

Em temas espinhosos, não mostrou a mesma intimidade que tinha com a bola e deu algumas caneladas. Mas foi autêntico como sempre — e como poucos — ao dizer vai estudar para não fazer feio e nem vai tirar o pé de divididas em assuntos como casamento gay, descriminalização das drogas e desmilitarização da PM.

A votação expressiva que teve não foi por acaso. Crítico dos gastos com a Copa, Romário sabia que seria eleito, mas não colocou salto alto, nem chinelinho, como se diz no futebol. Ele foi a campo e correu o estado todo com uma disposição inimaginável. Resultado: ganhou de goleada. Agora, diz que não mira a prefeitura, mas também não descarta. “Se a população achar que eu posso ajudar como prefeito, posso pensar...”, dá a deixa.

Veja a íntegra da entrevista com o Baixinho:

Ih, rapaz. Você está cheio de cabelo branco, barba branca...

Eu não pinto cabelo. Tenho que assumir as paradas, né? É a idade (risos)

E o que a idade te trouxe?

Experiência. Muita coisa que eu falei no passado, talvez não falasse agora. Não que eu me arrependa, mas poderia ter feito de outra forma.

Mas suas frases fizeram tanto sucesso quanto seus gols. O Brasil ia perder um de seus maiores frasistas, pô.

É, minha frases foram bem interessantes mesmo (risos).

Muitas vezes foram espontâneas, não é?

Muitas vezes, não. Sempre. Por isso que marcaram tanto.

E fazem falta ao futebol, não?

Muita coisa faz falta ao futebol, a começar pelo bom futebol. Depois, a falta de liberdade que os jogadores têm para dar opinião. É tanto assessor que a gente não vê mais aqueles fanfarrões do bem antes de um Fla-Flu, de um Flamengo x Vasco. O artista é o jogador, e o povo tem que saber o que eles pensam e fazem. Mas tem muito jogador sem personalidade também.

O que há de errado no futebol?

Primeiro, o calendário. Ninguém aguenta jogar tantos jogos assim. Depois, o horário dos jogos. Uns muito tarde, outros muito cedo. Sem falar no preço dos ingressos, que é muito caro e isso é muito ruim. Quem manda no futebol não tem capacidade moral para mandar. Falo isso há anos, mas nunca surtiu muito efeito.

E vai continuar falando ou cansou?

Vou, sempre. E agora, no Senado, este papel será mais qualitativo do que na Câmara. Para o futebol mudar, as coisas precisam ser faladas para o povo ficar sabendo. Independentemente de quem ganhe agora, Dilma ou Aécio, que eles entendam que a CBF não é uma coisa produtiva e que tomem alguma atitude. Mas nenhum deles fala em esporte. Nem Dilma, nem Aécio, nem Eduardo Campos falava, nem Marina. O esporte é um elemento importante na nossa sociedade. Muita gente só se tornou alguém neste país graças ao esporte. Eu, por exemplo.

E você vai de Dilma ou Aécio? Já decidiu.

Não. A possibilidade de eu apoiar o Aécio no segundo turno, se ele quiser, se entender que tem que conversar comigo, é a mesma em relação ao que aconteceu com Pezão. Três itens têm que estar dentro: um centro de excelência em diagnóstico e tratamento para pessoas com doenças raras; melhorar a política de combate ao crack, especificamente nas cracolândias; e levar a prática de esporte às comunidades carentes.

A Dilma, de jeito nenhum? É o Aécio ou ninguém?

Isso, não vou apoiar a Dilma.

Mesmo com Zico e Ronaldo junto com o Aécio?

Os meus problemas com o Zico eu já resolvi. E não sou inimigo do Ronaldo. Se ele é meu, que fique com ele. Independentemente de quem estará do lado A ou B, temos que fazer o presidente, seja quem for, olhar para o Brasil, para os problemas que são muito grandes, na educação, na saúde, segurança publica, acessibilidade, mobilidade urbana. Estes são nossos problemas. As questões internas entre um e outro são irrelevantes perto do que acontece no país.

‘Não penso na prefeitura%2C mas%2C se apopulação do Rio quiser%2C posso pensar’Márcio Mercante / Agência O Dia

Você falou do crack, mas qual sua opinião sobre a descriminalização das drogas?

Não tenho ideia formada hoje, mas antecipadamente sou contra. Tenho seis filhos e entendo que o Brasil não está preparado para fazer como na Holanda que, na verdade, não é na Holanda, é em Amsterdam e em algumas outras cidades. O Brasil tem que se preparar melhor antes disso.

Mas você não acha que essa política de guerra às drogas, de polícia contra traficante, fracassou?

Não faço parte do Poder Executivo. Sou do Legislativo, e quem tem que te responder é o prefeito, o governador, o presidente, o secretário de segurança. A polícia tem que fazer o seu papel e o seu chefe é que tem que saber a melhor forma de fazer isso. Não posso te responder porque não tenho uma opinião definida.

Mas esta questão deve chegar em breve ao Congresso e você vai ter de se informar melhor.

Deve, não. Vai. E vou fazer um estudo profundo com as pessoas que trabalham comigo, com especialistas da área, tanto aqueles que são a favor, como os que são contra. A minha posição vocês com certeza vão ter. Nunca fui de ficar em cima do muro e não é porque hoje estou lá, e numa questão polêmica dessa, que eu vou me esconder. Nunca fui assim e nunca vou ser.

Como funciona esse seu dia-a-dia lá, sobretudo com estes assuntos que você ainda não domina bem?

Antes do tema ir para a pauta, dependendo do que for, passa por uma comissão, para depois chegar ao plenário. E quando chega, a gente tem um tempo para estudar a questão e se informar antes de votar. É isso o que eu faço.

Regulamentação do aborto. Contra ou a favor?

É outro tema polêmico. Em caso de estupro, sou a favor. De uma forma geral, sou contra. Mas assim como a redução da maioridade penal, primeiro tem que vir a educação. O Brasil tem muito problema e não se pode fazer mudanças radicais sem se preparar antes. A prioridade é a educação, mas tenho consciência de que uma pessoa de 16 anos que sabe votar, assinar um cheque, fazer um documento, fazer um filho, sabe a responsabilidade quando comete um crime hediondo. Mas sem a mudança de estrutura na educação vai haver um massacre da juventude negra e pobre da comunidade. E isso eu sou contra.

Em relação ao casamento gay, hoje, qual sua opinião?

Hoje, não. Sempre. Sou a favor de a pessoa ser feliz. Cada um encontra a felicidade em cada um. Se um homem quer casar com outro, se uma mulher quer casar com outra, tudo bem. Se perguntar se eu quero isso para os meus filhos, digo que não. Quero que o Romarinho case com uma mulher e a Moniquinha com um homem.

Mas por quê?

Porque acho bem mais bonito, a gente nasceu assim, para um homem casar com uma mulher.

Mas isso não é preconceito de sua parte? Se eles decidirem outra coisa, você vai apoiar?

Claro. Filho é filho. Não é só pagar pensão e sair para festa, tem que estar em todas as horas. Se eles decidirem por um caminho que não é para ser, principalmente pela nossa religião, é triste, mas vai ser assim. Eles é que vão sofrer as consequências. Mas se são felizes assim, que sejam.

Edmundo e Cerezo, ex-jogadores e que têm filhos gays, já falaram sobre isso com você?

Nunca tivemos a oportunidade, mas posso te garantir que não são mais ou menos felizes por isso. Mas tudo o que é diferente, choca. Vou te falar pela minha filha (Ivy, que tem Síndrome de Down). Teve um impacto, claro. Ninguém é de ferro. Se falar que não, é conversa fiada. Mas hoje só posso agradecer a Deus por ter colocado a Ivy na minha vida. Se estou conversando com vocês como senador, ela é a principal parte dessa história.

Você quis se tornar político por causa dela?

Me tornei porque entendi que seria uma voz em defesa das pessoas com deficiência. Ao longo do mandato se incorporaram algumas coisas, mas inicialmente foi isso. E hoje tenho consciência de que tenho uma importância muito grande, sobretudo para muitos pais aceitarem os filhos que nascerem com deficiência.

Ela mudou sua vida profissional, mas mudou sua cabeça também?

Depois que você convive com uma menina como a Ivy, passa a entender que essa coisa de egoísmo, orgulho... Não vou dizer que não continuo sendo orgulhoso, mas em relação ao que era nove anos atrás, porra, é bem diferente. O mundo deles é melhor do que o nosso. Nós que somos deficientes, não eles. É mundo deles é mundo de amor, carinho, de ajuda. Não tem maldade.

Você acha que precisava ter uma filha como a Ivy?

Sei que atingi o ápice sendo o melhor do mundo jogando futebol. Mas me parecia que eu tinha mais alguma coisa para fazer pelo Brasil. E Deus colocou a Ivy para ela ser esse elo.

Você admite que sempre foi individualista, não só dentro de campo?

Sempre. Dentro e fora. Era egoísta, orgulhoso, complicado. Até essa coisa de marra eu sempre passei para as pessoas mesmo. Eu era muito antipático. E essas coisas foram aflorando na minha vida para melhor. Além da idade, das porradas que a gente leva.

Qual foi a maior porrada?

Minhas derrotas foram dentro de campo, as duas Copas e Olimpíadas que não deixaram eu disputar.

Essas mágoas já passaram?

Pô, claro que já. Não sou desses caras que guardam rancor. Eu guardo meus feitos. O resto deixo para trás.

E o America? Vai ser presidente mesmo?

Temos algumas pendências. O America tem algumas coisas que precisavam ser resolvidas nestes últimos seis, oito meses, e não foram. Uma delas é em relação à sede do clube, uma briga na Justiça que não acaba. Eles disseram que isso já estaria resolvido. Eles têm um passivo de R$ 60 milhões e já estariam começando a pagar este passivo, mas até agora nada aconteceu. É triste? É. Existe a expectativa de eu ser presidente. Existe. Mas tá muito complicado. E os dirigentes do America sabem disso. A possibilidade de não ser presidente, hoje, está muito maior do que ser.

Qual teu prazo?

Um dia antes da eleição, em novembro. Se não resolverem as pendências, não serei presidente. Pelo menos desta vez. Um dia serei.

De que forma o poder público pode ajudar a salvar, em vez de clubes grandes, clubes pequenos como America, Olaria, Bangu, que sempre foram centros de convivência no subúrbio, além de formadores de atletas?

A Lei Pelé foi uma grande bomba para o futebol. Foi boa para todo mundo, menos para os clubes formadores. A lei tem que ser modificada. O clube não pode formar um jogador, e depois o jogador, com 16 anos, abandonar aquele clube que gastou e investiu na sua base. Isso tem que mudar urgentemente. O clube tem que ser dono de seus direitos federativos.

E a Olimpíada? Você foi a principal voz denunciando os gastos abusivos da Copa. Fará o mesmo agora? O Rio está preparado para o Jogos?

Poderíamos estar mais preparados do que estamos. A Copa, com todos os problemas, com gastos absurdos, roubo para todo lado, acabou sendo boa, sobretudo para os turistas. A Olimpíada vai ser positiva, mas sem fiscalização mais rígida do Tribunal de Contas, vai ser sempre uma roubalheira, infelizmente. Foi assim na Copa das Confederações, na Copa do Mundo e na Olimpíada vai ser assim.

E você continuará denunciando?

As pessoas me colocaram lá porque sou combativo e fiscalizador. Minha responsabilidade vai ser muito maior do que há quatro anos.

A Copa era com a Fifa, que você conhece bem. Na Olimpíada serão muitas federações, gente que você não conhece. Tem como dar conta?

Espero que eu não fique sozinho, como fiquei na Copa do Mundo.

Como é sua relação com o prefeito Eduardo Paes?

Acho um bom administrador, faz um papel razoável na prefeitura, mas ele sabe muito bem que se houver algum problema eu serei o primeiro a gritar.

Você vai concorrer à prefeitura em 2016?

Quando fui eleito em 2010, falei que ia cumprir e fiz isso. Espero cumprir meu mandato de 8 anos porque fui colocado para isso, mas política é uma coisa dinâmica. Não penso em prefeitura ou governo daqui a 2 ou 4 anos, mas se existir por parte da população que eu posso ajudar como prefeito, posso pensar, mas hoje não penso nisso e acho muito difícil.

Você consegue se imaginar chegando à prefeitura às 8h e dando expediente até 22h? Não combina contigo.

Eu também não me imaginava em Brasília e hoje gosto pra caralho, e vou ficar mais 8 anos.

Mas ser prefeito é mais complicado, é ser sindico da cidade.

Mas a posição mais charmosa do Brasil é ser prefeito do Rio de Janeiro

E a dor de cabeça?

Temos que assumir responsabilidades.

Mas no senado é você na pequena área com o Maradona te lançando bola. Na prefeitura é você jogando nas onze, como na Copa de 94.

Um bom político tem que ser correto, trabalhador e fazer o que é direito. O resto vai.

E aqueles problemas da campanha, do calote que você foi acusado de dar em cabos eleitorais em Cabo Frio, e do IPTU da (ex-mulher) Mônica Santoro que não está pago?

O negócio do IPTU da Mônica é coisa de 10 anos que estamos discutindo. Uma hora a gente vai ter que chegar a um acordo porque a dívida vai ter que ser paga. Em relação a isso aí (calote), não posso nunca afirmar, mas numa disputa o adversário usa várias artimanhas. Quem sabe isso não possa ter saído de algum adversário? Minha campanha foi limpa, está tudo lá e vocês vão ver que não tem problema nenhum na prestação de contas.

Vamos entrar num tema que você gosta: a noite de Brasília é melhor do que a do Rio?

Não, mas é boa. Eu gosto da noite de lá. Tem lugares para sair, lugares de festa, muitas festas em casa. Muitos lugares interessantes.

Você está mais devagar? Dorme mais cedo?

Durmo mais cedo porque acordo mais cedo.

A zoeira começa mais cedo lá (risos)?

A zoeira eu vou fazer para o resto da vida, só que hoje menos do que ontem. E daqui a pouco menos do que hoje. Mas minha vida tem sido bem legal. Acho até que gosto mais de sair do que antes, mas saio bem menos porque não tenho tempo.

E o corpo não aguenta, né? Ou aguenta?

É, também tem isso. E responsabilidades diferentes. A cabeça tem que estar tranquila para pensar.

Mas quando você jogava, saia e se garantia em campo.

Mas eu tinha 20 anos, agora tô com quase um galo (quase 50 anos). Não é mole, não.

Você tá bem fisicamente.

Dei até uma engordadinha nessa campanha, mas eu jogo muito futevôlei, minhas peladas, vou sempre ficar bem.

Faz dieta?

Difícil

E um chope? Já bebe ou ainda não?

Para não dizer que não bebo, de vez em quando bebo uma champanhe, mas é raro.

E vaidade? Tem alguma mania?

Só futevôlei, três a quatro vezes por semana, e futebol, uma vez por semana.

E quem atraia mais a mulherada? O jogador novinho ou o senador coroa?

Sempre fui boa pinta (risos). Novo ou velho. Tem as que gostam de mais novos, e as que gostam de mais adultos. Não é mais velho, é mais experiente. Eu nunca vou ficar velho. Minha cabeça é de jovem (risos).

Para finalizar: antes da Copa, você admitia que o Messi poderia chegar ao patamar de Romário, Maradona, Garrincha, Zidade... ele chegou?

Vai ser difícil o Messi ser melhor do que o Romário. Não ganhou Copa do Mundo, não fez mil gols, não tem o que eu tenho. É um dos maiores jogadores da historia do futebol mundial, mas não é Romário. E nunca vai ser.

Você nunca vomitou em final de Copa do Mundo, né?

Com certeza, não.

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