Por rafael.arantes

Minas Gerais - Maior ídolo da história do Atlético-MG, Reinaldo tenta ser fiel aos ideais da sua juventude. O craque, que se rebelou contra a Ditadura, nos anos 70, luta para manter vivo o sonho do BH Futebol e Cultura, clube que fundou há 20 anos e que sobrevive sem patrocínio. Um desafio a mais em uma carreira brilhante, interrompida quando o Rei tinha 28 anos, por lesões no joelho. De peito aberto, ele revela velhos traumas, como a final do Brasileiro de 77; confessa seu amor pela política e comenta a atual democracia brasileira.

Por onde anda%3F Reinaldo é ídolo do GaloArquivo

O que você está fazendo hoje?
Tenho uma vida tranquila em Minas. Sou vice-presidente da Ademg (administradora do Mineirão) e tenho um clube, o BH Futebol e Cultura, que tem 20 anos. Já participamos de campeonato profissional. Também faço eventos e viajo muito. Minas é bom demais.

Você colocou à venda o estádio do seu clube?
Se aparecer uma proposta boa a gente vende. Temos uma área muito boa, muito valorizada. Que mineiro que não vai vender? (risos) Futebol é muito caro, ainda mais sem associados e patrocínio.

Os mineiros dizem que os sonhos não envelhecem. Os seus envelheceram?
Não, ainda não. Meu sonho mesmo era fazer futebol, disputar campeonato de base e formar times. Mas não vou deixar envelhecer, vou acreditar que pode acontecer. Um dia vai clarear e ficará bonito.

É verdade que os militares impediram que você jogasse a final do Brasileiro de 77, em que o Atlético perdeu para o São Paulo?
É. Apesar de estar suspenso do jogo, cheguei a fazer o aquecimento, porque o nosso presidente na época, o Walmir Pereira, que também era militar, falou que eu ia jogar. Mas aí apareceram uns militares fardados na porta do vestiário dizendo que eu não poderia jogar e nem entrar em campo. Vi o jogo das cadeiras do Mineirão. Foi o dia mais triste de BH. Uma decepção. Foi difícil, demorou a passar...

Já havia uma predisposição contra você pelo fato do seu engajamento político contra a Ditadura?
Já. Você acha que uma ditadura não vai simplesmente impedir um jogador de atuar? Vai e isso foi feito em muitas situações. Não tinha como o Atlético recorrer. Agora que houve má fé, houve. Fui expulso na primeira fase do Campeonato Brasileiro de 1977. A final foi em 1978, e guardaram o julgamento na gaveta. Uma semana antes da final, o Serginho Chulapa bateu no bandeirinha e foi expulso. Foram julgar os dois juntos e ainda colocando esse peso, criando esse clima. Foram influências ocultas.

O seu gesto de comemorar o gol, com punho erguido, era uma forma de dizer não à Ditadura?
A primeira vez que fiz esse gesto foi em 1975. Era um gesto socialista, revolucionário contra todo tipo de censura. Só que havia tanta pressão em cima de mim que não podia confirmar isso a um governo militar. Para driblar, passei a dizer que o gesto tinha conotação racial, era relacionado aos Panteras Negras.

O que te influenciou politicamente?
Eu era um garoto que sofreu a influência da Revolução Cubana, de músicas como o ‘Chá-Chá-Chá’. Sempre escutei as ideias da Revolução na minha cidade (Ponte Nova). Meus pais também falavam de política. Eu era aquele menino que, na época da eleição, já juntava santinho dos candidatos e saia distribuindo nas ruas (risos). Sempre tive ideias progressistas.

Reinaldo fez história no Atlético-MGArquivo

Como você avalia a punição aos caciques do PT na atual democracia brasileira?
Acho que o José Dirceu e o Genuíno tiveram um papel importante na história do nosso país, mas cometeram atos ilícitos. Apesar de toda a consideração, eles precisam de uma punição. Se não houver punição, não existe mais Justiça, Federação...

E os Black Blocks?
Essa ideia anarquista já existe há muitos anos. É uma tendência, uma rebeldia, um pensamento. Mas tem que ter limites para tudo e eles vão esbarrar nos limites da lei.

Voltando ao futebol, a Copa de 78 foi a maior frustração da sua carreira?
A Copa de 78 foi uma decepção. Além do meu problema físico, teve a forte influência da ditadura argentina. Perdemos a Copa sem perder. Saímos invictos e depois muita coisa foi desmascarada. Tínhamos um grupo muito bom, mas a Argentina ganharia aquela Copa de qualquer jeito. Eles usaram todas as forças possíveis.

Qual foi a maior homenagem que você recebeu dos torcedores?
Foi maravilhoso o que a torcida do Galo fez no primeiro jogo, após a minha operação em Nova York. As luzes do Mineirão foram apagadas e o estádio foi iluminado com velas e isqueiros. Foi lindo, mas quando o Papa (João Paulo II) esteve em BH foi muito legal. Estava com a minha mãe quando ouvi o coro puxado por Dom Serafim, que era atleticano: ‘Rei, Rei, Rei, o Papa é nosso Rei’. Ele comentou com o Papa que o coro foi feito para um jogador. Foi bonito ouvir.

O que o Atlético significa na sua vida?
O Atlético é uma família. Sempre tive muita identificação como clube, conheci cedo sua história, sua grandeza, cantava o hino. Vivo isso até hoje. O Atlético é um paizão, é o big brother. Sou filho do Galo.

A torcida do Galo te chama até hoje de rei. É bom ser rei?
É bom, é popular e íntimo. As pessoas chegam com muita emoção, com um olhar diferente, com amor. Acho legal essa relação.

Como você quer ser lembrado no futebol?
Pelas minhas jogadas. Muitas foram verdadeiras obras de arte.


Você pode gostar