Rio - O Fla-Flu decisivo do Carioca de 1963, selou para sempre o destino de um garotinho de nome incomum, nascido em Jurujuba, Niterói. Extasiado com a atuação espetacular do goleiro rubro-negro Marcial, que garantiu o título, o pequeno País não se conteve: “Ele tem mola no pé? Quero ser isso”, decretou o pequeno torcedor na arquibancada do Maracanã.
Cinquenta e dois anos depois, o ex-goleiro do América, Santos, Sport, ABC, Náutico e Olhanense (Portugal) ainda se emociona ao lembrar a longa caminhada desde aquela tarde iluminada no Maracanã. Aos 61 anos, País se aposentou do futebol, mas o futebol não deixou seu coração.
“Hoje sou um cidadão de bem procurando uma porta que se abra para fazer o que mais gosto que é ser treinador de goleiros”, diz com humildade o ex- jogador que mora com a família em uma casa modesta, em São Gonçalo.
Enquanto não surge o tão sonhado trabalho, País cuida do quintal da casa, vai à igreja louvar o Senhor e fecha o gol no time master do Flamengo, para a surpresa de muita gente. Apesar de ter jogado oito anos no América, clube que o revelou para o futebol, seu coração sempre foi rubro-negro.
“É paixão antiga, meu time de criança. Quando jogava contra queria ganhar de qualquer maneira, mesmo que tivesse que quebrar a perna, porque queria que me contratassem. Não aconteceu, mas depois que parei, ganhei esse presente ”, explica o ex-goleiro que fez questão de beijar a camisa 13 com o seu nome”.
Um amor que não dimunui em nada o seu carinho pelo América. “Americano é coisa sagrada, tem que tirar o chapéu. São fiéis, fervorosos. Tenho muito orgulho de ter começado lá”, ressalta.
País tem motivos de sobra para reverenciar a camisa vermelha. Em seu tempo, o América entrava em campo para disputar títulos e rodava o mundo realizando amistosos. Algo impensado para os dias de hoje. “É muito triste ver o América na Segunda Divisão do Rio. Pela sua grandeza não merece”, lamenta o ex-jogador que chegou ao América em 1970 a custa de muito sacrifício: “Morava em Jurujuba. Para treinar no antigo campo no Andaraí, acordava as três da madrugada e enchia dez barris de vinte litros de água. Vendia uma lata aqui outra ali, para tirar o dinheiro do pão, da passagem e ainda ajudar minha mãe. Fiz isso durante quatro anos”.
Além da dura rotina, o ex-jogador sofria com a desconfiança da mãe, dona Nininha. “Ela achava que futebol era coisa de vagabundo. Queria que eu estudasse. Mas quando me profissionalizei, passou a ser a minha fã”, diz, com nostalgia.
Mas apesar do grande potencial, País só ganhou uma chance no América após a perda do Carioca de 1974. Rogério, o titular da época, falhou nos dois gols na derrota para o Flamengo e foi barrado.Desde então, ele entrou e tomou conta da grande área. Em grande forma, foi convocado duas vezes pelo técnico Cláudio Coutinho para a Seleção Brasileira. Mas em 1978 ficou fora da Copa do Mundo. “Eu era um dos melhores goleiros do Brasil, mas não fui ao Mundial, porque jogava em um clube considerado pequeno”, critica.
Como todo bom goleiro, País também engoliu alguns frangos. O pior deles até hoje não foi esquecido.“Em um jogo em um torneio em Goiás, a bola quicou na minha frente e passou debaixo da perna. Foi o maior frango da minha carreira”, admite. Mas à noite, no restaurante do hotel, o americano recebeu um apoio inusitado. “O Pelé veio falar comigo. Estava tão envergonhado, que não conseguia nem olhar nos olhos do Rei”, lembra. Mas Pelé foi carinhoso. “Garoto, você tem tudo para ser o melhor goleiro do mundo. Só vai tomar gol quem joga ali. Ainda vou te ver brilhar”. Profecia que se confirmou em 1978, quando ele foi jogar no Santos. Na Vila Belmiro, reencontrou Pelé. “Não te falei. Hoje você está no Santos, é um dos melhores”, disse o Rei.
País ainda jogou no Sport, onde marcou de pênalti seu único gol na carreira, no Náutico, ABC, antes de passar dez anos no futebol português. Em 1992, encerrou a carreira, no Olhanense, por causa de uma lesão no joelho. Nos 22 anos em que atuou fez jus ao estranho nome dado pela mãe. “As pessoas me chamavam de estado, município. Nunca ouvi um nome desse. Mas ela tinha certeza que um dia seria importante”. E foi.